quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

JOSÉ ESTÊVÃO: Revolução e Liberdade


Exposição dedicada a José Estêvão e ao seu tempo
Até 12 de Janeiro de 2010
no edifício da Assembleia Municipal (antiga Capitania)

terça-feira, 14 de Julho de 2009

O topónimo AVEIRO



Adenda à postagem «Aveiro», aqui publicada em 7 de Dezembro de 2006, e contribuição deste blogue para as comemorações dos 250 anos da elevação de Aveiro a cidade.

Abrimos hoje outra possibilidade para a explicação do topónimo AVEIRO, que nos parece mais credível do que a apontada na postagem de 7 de Dezembro de 2006.

Na hipótese que passamos a desenvolver, o topónimo Aveiro terá por origem um apelativo recebido directamente do latim tardio, a que a presença árabe ou a convivência moçárabe terão acrescentado o artigo al, como aconteceu, por exemplo, no topónimo Almoster “o mosteiro”, em que o artigo al se antepôs a um apelativo romance, o que não é caso único. Mas, talvez melhor e mais simples, em vez do artigo árabe al, teremos a próstese de um a- inicial, como tão frequentemente acontece na formação do português. Referimo-nos ao apelativo do latim tardio lavarium, um dos compartimentos da domus, relacionado com as abluções e com os Lares e Penates (divindades domésticas), que se transformou no templo privado do culto doméstico das villae.

Está hoje provado que a maioria dos templos romanos tiveram um status de edifício religioso privado, especialmente os rurais, entre os quais se incluem os que existiam nas villae. Com efeito, muitas destas villae tinham o seu próprio templo, onde se praticava um culto privado e doméstico: referimo-nos, como atrás dissemos, ao lavarium, por vezes também conhecido por sacrarium (Orr, 1978; Baker, 1994) (1).

Depois do encerramento dos templos rurais, após a adopção do cristianismo como religião oficial do Estado, os santuários privados das villae, que continuaram em funcionamento até bem entrado o século V, converteram-se no último reduto do paganismo, que os éditos imperiais atingiam sobretudo a esfera pública, tendo uma pequena repercussão na esfera privada.

O isolamento da zona de Aveiro está bem patente no mapa das paróquias suevas do século VI, cujas sedes estão totalmente ausentes deste litoral, certamente ainda não cristianizado. A única paróquia registada nas proximidades situa-se além-Vouga e corresponde a Antuã, havendo algumas incertezas quanto à localização de Insula que, para Almeida Fernandes, se situaria no actual concelho de Oliveira de Azeméis, na freguesia de Cucujães (2). A Sul do Vouga, na área do actual concelho de Aveiro, não há registo de qualquer sede paroquial, fosse ela católica ou ariana.

Estas constatações permitem-nos deduzir da inexistência local, ou nas proximidades, de quadros eclesiásticos, capazes de dar assistência religiosa aos respectivos habitantes que, por isso mesmo, em período tão tardioúltimo quartel do século VI –, ainda não teriam sido cristianizados. Mas esta realidade não será de estranhar, se considerarmos que a maioria dos Suevos, quando entraram na Península, ainda eram pagãos, e que a evangelização do reino apenas se inicia poucos anos antes da elaboração do “Paroquial Suevo”, cerca de 550, com a chegada à Galécia de S. Martinho de Dume.

O quadro pouco melhora quando recuamos aos últimos anos do Império, que, no Norte de Portugal, apenas vislumbramos a diocese de Braga e, na Lusitânia, para além da metrópole de Mérida, conhecem-se tão as dioceses de Ossonoba, Évora e Lisboa, situação agravada pela inexistência na Hispânia de «corepíscopos ou bispos rurais, como existiram no Oriente».

De acordo com o “Paroquial Suevo”, a região de Aveiro integrava-se na diocese de Conimbria, com sede na actual freguesia de Condeixa-a-Velha, cuja jurisdição descia um pouco a Sul de Tomar, enquanto a Norte subia até ao Douro, que acompanhava para Leste até encontrar o rio Arda. No aro desta diocese, entre Vouga e Mondego, apenas havia as paróquias de Emínio (Coimbra) e Lorvão, muito longe de Aveiro. O “Provincial Visigótico”, da segunda metade do século VII, enuncia as diferentes dioceses e fornece-nos os respectivos limites. Em relação ao “Paroquial Suevo”, e para a zona atlântica que nos interessa, verifica-se a inclusão na diocese de Portucale do território entre Douro e Vouga, que antes pertencia à diocese de Conimbria. Quanto aos limites, ali se afirma que «Portucale teneat de Avia usque Loram, de Almos usque Solam», e que «Conimbria teneat de Naba usque Borga, de Torrente usque Lora». A transcrição justifica-se pelo limite comum às duas dioceses, que é a mais antiga referência a “Loure”, do concelho de Albergaria-a-Velha, na margem direita do Vouga e nas proximidades de Aveiro.

É este o quadro religioso na área do Baixo Vouga e na zona em que se inscreve Aveiro. Não haverá cristianismo, que apenas começará a entrar, e muito lentamente, a partir do século V. Por outro lado, a evangelização privilegiava, como não podia deixar de ser, face aos recursos reduzidos de que dispunha, os centros urbanos, começando por ganhar as respectivas elites. depois, e através destas, chegará a vez das camadas populares, dos servos e escravos. Não haverá cristianismo, mas, por certo, há religião, há paganismo, há o sincretismo religioso que ao longo de séculos amalgamou o animismo com as mais variadas crenças e divindades.

Nesta perspectiva, o nosso Lavarium corresponderia ao santuário local, que respondia às necessidades religiosas de camponeses, pescadores e salineiros das terras em volta, arreigados ao paganismo e às suas crenças. Sabemos quais eram essas crenças: basta uma leitura das actas dos concílios que começam a multiplicar-se no século VII. Para se aquilatar do desenvolvimento do cristianismo na área do actual território de Portugal, bastará dizer que o primeiro concílio aqui realizado teve lugar em Braga, no ano 561, estando presentes oito bispos de todo o reino suevo (do Cantábrico ao Tejo).


Quanto ao resto, perguntas sem respostas. Qual teria sido o destino deste lavarium, de a- prostético a tiracolo, perpetuado que foi no topónimo Aveiro? Será que lhe pertencia a estranha e arcaica estátua depositada no Museu de Aveiro, o gigante de quase 3 metros de altura, envergando umas típicas bragas célticas (em Aveiro chamamos-lhe “manaias”) e segurando pela cabeça, com a mão esquerda, uma serpente com cerca de dois metros e meio, enquanto o braço direito se levanta e a mão se abre para agarrar qualquer insígnia volante que se perdeu? Onde se levantaria este santuário de cultos desconhecidos? Porventura naquela colina, entre ribeiras e debruçada sobre a água, onde nasceu o centro histórico da nossa cidade. Quem sabe se no mesmo sítio em que se levantou a velha matriz de S. Miguel, demolida em 1835, possivelmente para que não se pronunciasse no seu orago o nome do rei maldito e assassino. S. Miguel, o orago que surge nos primevos tempos do cristianismo da Hispânia ocidental, quase sempre a desalojar o deus solar pagão, escondendo-lhe o nome e roubando-lhe a casa, como aconteceu mais para Sul, nas proximidades do Alandroal, com o S. Miguel a destronar o poderosíssimo Endovélico. Igreja de S. Miguel. Igreja de estranha arquitectura, de torre gótica e altaneira a encostar-se à capela-mor, certamente o pequeno corpo do templo primitivo que, face ao diminuto número de fregueses, não precisaria de outros cómodos. Cresceu a vila, cresceu o templo. Talvez a arqueologia tenha mais sorte, se alguma vez se proporcionar escavar a praça aveirense que mais história viu passar.


(1) LÓPEZ QUIROGA, Jorge; MARTÍNEZ TEJERA, Artemio M. – El destino de los templos paganos en Hispania durante la antigüedad tardía. In Archivo Español de Arqveología. Madrid. Vol. 79 (2006), p. 125-153. ISSN 0066-6742. ORR, David G. – Roman domestic religion: the evidence of the household shrines. In Aufstieg und Niedergang der romischen Welt. Vol.16/2 (1978) p. 1557-1591. BAKER, Jan Theo -- Living and Working with the Gods.Studies of Evidence of Private Religion and its Material Environment in the City of Ostia (100-500 A.D.). Amsterdam: J.C. Gieben, 1994. ARCE, Javier – Bárbaros y romanos en Hispania: 400-507 A.D.. Madrid: Marcial Pons, 2007. 326 p. ISBN 9788496467576. ARCE, Javier – Fana, templa, delubra destrui praecipimus: El final de los templos de la Hispania romana. In Archivo Español de Arqveología. Madrid. Vol. 79 (2006), p. 115-124. ISSN 0066-6742.


(2) Almeida Fernandes considera absurda a hipótese de Pierre David que concentra num único topónimo – Insula Antunane – estas duas paróquias suevas, com uma justificação, na verdade, muito difícil de aceitar, face às evidências dos argumentos daquele investigador. No concelho de Oliveira de Azeméis existem hoje três lugares denominados “Ínsua”, nas freguesias de Carregosa, Cucujães e S. Martinho da Gândara.


quinta-feira, 26 de Março de 2009

Mário Sacramento morreu há 40 anos


MÁRIO SACRAMENTO (1920-1969) morreu há 40 anos, sem ver o Portugal livre por que tanto combatera. Médico, escritor, crítico literário, político empenhado e cidadão de corpo inteiro, a morte, pressentida, levou-o cinco anos antes do 25 de Abril, nas vésperas do 2º Congresso da Oposição Democrática, que o homenageou deixando vaga a sua cadeira na mesa da presidência. Em humilde homenagem, deixamos aqui a sua carta-testamento.

Caramulo,
Pousada de S. Lourenço,
7 de Abril de 1967

Aos mais adiados...

Vai sendo tempo de escrever uma carta de despedida! A velha carcaça é já uma ruína nítida. A somar às cicatrizes das lesões pulmonares que tive, há bronquiectasias e zonas de enfisema do impossível fumador que sou, as quais hão-de vir a resultar num coração pulmonar. A tensão mínima já começa a ressentir-se disso. O rim deita vestígios acentuados de albumina e cilindros. E o estômago tem qualquer coisa que um destes dias hei-de averiguar... Como não posso nem devo emagrecer excessivamente — são os próprios colegas que mo dizem —, dado o perigo de reactivação das antigas lesões bacilares, o peso é também um contra. E, como deixar de fumar, nesta idade, além de ser um sacrifício inglório que me roubaria um dos poucos apegos concretos que ainda tenho à vida, seria levar-me a engordar ainda mais, o balanço é portanto muito nítido. Quantos anos? Depois dos cinquenta acaba-se, estou convencido. Mais erro, menos erro, a média deve ser essa.

Começo por isso a ter pressa de fazer umas tantas coisas que reservei para a fase final, quando a terrível batalha que travei na sobrevivência contra o fascismo me deixasse, à margem desta profissão cujas dificuldades e condicionamentos económicos, sociais e políticos liquidaram tantos dos meus sonhos, margem para isso. Espero roubar, sempre que possa, alguns dias à labuta e à engrenagem diária e isolar-me, como agora fiz, para escrever qualquer coisa de mais íntimo. Para o romance cíclico que trago há tantos anos na cabeça, não chegará o tempo, decerto. E é melhor assim, pois evito uma desilusão e sempre morrerei com o arzinho angustiado de vítima dum mau destino, o que é chique, como diria o Eça...

Antes de tudo, impõe-se, porém, que escreva estas singelas palavras. Quem pode afiançar-me que não vou acabar hemiplégico e afásico, como minha Mãe? Deixa aqui, então, o que depois não poderás!

Deixar cheira a testamento. E eu, que deixe, só tenho o corpo. Por mais que fizesse, por mais que me fizessem, disso é que nunca consegui ser espoliado! E, como é com ele que me avenho nas noites de insónia e nas porfias diárias, é justo que lhe dedique, ao menos, um pensamento em vida. E não o legue aos cães... Pois não equivaleria a isso estar a ver-me, daqui, de barba feita a posteriori, sapatos engraxa¬dos, fato de ver a Deus, a apresentar as minhas despedidas, muito formalizado, de dentro da cabine — espacial? Como não tenciono ir para parte nenhuma, metam-me como eu estiver no caixote mais barato que encontrem e devolvam-me os restos à terra. A terra sabe lavar-se. E não há nada como um cadáver «limpo» para marcar um limite.

Se morresse em localidade com forno crematório, não desgostava disso, se não fosse caro. E, por falar em caro: não sei se a terra será o mais barato para o caso, — ó contradições do capitalismo! E, como isto de morrer também «custa» aos outros, há que prevê-lo. A família tem uma pirâmide egípcia em Ílhavo. Embora eu esteja farto de conhecer prisões em vida, como nessa altura quem terá de aguentar isso é «o outro», não me oponho a ir para lá, se for mais económico ou mais fácil de arrumar. Não faço questões nenhumas com a morte... Ela nega-me, e é tudo. A grande magana!

Não, o motivo fundamental desta carta é outro. Aceitei dialogar, nestes últimos tempos, com os católicos. Se tivesse nascido num país protestante ou árabe ou budista, tê-lo-ia feito com esses. Pois do que se tratava — se trata, ó morto-vivo!, ainda não acabaste! — era, é de dialogar com os progressistas e, sobretudo, com o povo, directa ou indirectamente. Não há-de faltar contudo — sempre assim foi, ó alminhas santas! — quem procure fazer sujeira com isso e aproveitar-se duma ambiguidade que surja para me denegrir a memória. Se a minha Mulher ainda estiver viva — ela tem sido boa companheira! — não haverá problemas com isso, estou convencido. E o mesmo se dará se os filhos estiverem atentos: eles têm carácter. Mas quem pode prever tudo? Não que eu faça grande questão do meu bom-nome: estou-me nas tintas para ele, depois de morto. Mas, além dele pertencer, também, aos filhos dos Filhos e a estes, pertence aos meus companheiros de jornada. E, que diabo, se passei tantos maus bocados por eles, em vida, é porque considerei que era esse o meu destino. E um homem tem o direito de o defender, mesmo depois de morto!

Fica portanto entendido que sou ateu e como ateu devo ser enterrado. Em vez dum pano preto, ponham um paninho vermelho no caixote, se puderem. E usem luto vermelho, se algum quiserem usar...

Mesmo que eu ficasse pílulas ou sugestionável à hora da morte, isso não modificaria ser esta a minha opinião responsável. É esta, por conseguinte, a única válida.

Claro está que gostaria de ter sido melhor homem, melhor marido e melhor pai. A perspectiva da morte só tem de positivo fazer-nos pensar assim. Mas o homem é um bicho complicado. E eu tenho a consciência de que, pelo menos, me bati sempre comigo mesmo para ser melhor do que poderia ter sido. Fui amigo da família à minha maneira: sem efusões líricas ou rodriguinhos. E, se não fiz mais por ela, foi porque não pude, tanto no sentido social como psicológico do verbo. A prova de que o meu desejo era ser bom marido e bom pai está no muito que li, pensei e escrevi sobre isso. Sejam os Filhos melhores do que eu pude — foi sempre esse o meu sentido de missão.

Nasci e vivi num mundo de inferno. Há dezenas de anos que sofro, na minha carne e no meu espírito o fascismo. Recebi dele perseguições de toda a ordem — físicas, económicas, profissionais, intelectuais, morais. Mas, que não as tivesse sofrido, o meu dever era combatê-lo. O fascismo é o fim da pré-história do homem. E procede, por isso, como um gangster encurralado. Fiz o que pude para me libertar, e aos outros, dele. É essa a única herança que deixo aos meus Filhos e aos meus Companheiros. Acabem a obra! Derrubem o fascismo, se nós não o pudermos fazer antesl Instaurem uma sociedade humana! Promovam o socialismo, mas promovam-no cientificamente, sem dogmatismos sectários, sem radicalismos pequeno-burgueses! Aprendam com os erros do passado. E lembrem-se de que nós, os mortos, iremos, nisso, ao vosso lado!

Não veremos o que quisemos, mas quisemos o que vimos. E este querer é um imperativo histórico. Há milhões de mortos a dizer-vos: avante!

Para a Mulher, um abraço, simples e esquivo como eu sempre fui. Para os Filhos, um beijo, frio e recalcado como eu sempre lhes dei. Para todos, um afecto. Quem tinha tão pouco que dar a tantos, teve de ser avaro... Mas morre convencido de que não guardou nada para si. Ou de que teve, pelo menos, essa intenção.

Façam o mundo melhor, ouviram? Não me obriguem a voltar cá!

Mário Sacramento

[– Carta-testamento. Porto: Editorial Inova, 1973. p. 15-18]

sábado, 14 de Março de 2009

Monte da Paradaia (Romãs, Sátão)

Pede-me um leitor deste blogue para estudar a possível origem do topónimo Paradaia, que identifica um monte na freguesia de Romãs, concelho de Sátão. O topónimo em questão é ignorado pelos nossos documentos oficiais que, para o mesmo acidente geográfico, registam os nomes de Monte do Barrocal ou Monte de Nossa Senhora do Barrocal. Acrescenta o nosso consulente que, neste lugar, estão referenciados «uma necrópole, um castro e uma igreja moçárabe».

Uma rápida pesquisa permitiu-me acrescentar algo mais a estas informações, como seja o facto de ali se realizar, no dia 2 de Fevereiro de cada ano, a romaria de Nossa Senhora do Barrocal, em honra de Nossa Senhora das Candeias, orago da capela ali existente, a que o povo chama Capela das Candeias ou da Fevereirinha.

Esta romaria corresponderá, quase pela certa, considerando as particularidades do lugar e os respectivos achados, à cristianização do festival celta do primeiro dia de Fevereiro, conhecido por Imbolc "Purificação" ou Dia da Senhora, que honrava a deusa Brigitt, «filha do deus Dagda, a deusa tripla dos cabelos de ouro. Era a mãe, a filha e a esposa dos deuses das origens e dos primeiros druidas. Personificava a poesia, a saúde, a força, a adivinhação, a inteligência e protegia o lar». O processo da cristianização, perante a dificuldade em erradicar as múltiplas manifestações da religião e dos costumes pagãos, transformou esta deusa Brígida em Santa Brígida, arvoradando-a em padroeira da Irlanda, com culto generalizado nesse mesmo dia 1 de Fevereiro.

A ocupação romana trouxe consigo um pouco de todo o império, incluindo, como não podia deixar de ser, a sua religião, abrindo caminho a novos sincretismos.

Neste mesmo mês de Fevereiro, entre os dias 13 e 21, a velha Roma promovia um dos seus maiores festivais religiosos, que pretendia honrar os mortos e aproximar os membros da família, envolvidos na visita aos túmulos dos seus familiares, onde levavam flores e oferendas de sal e de pão embebido em vinho.

Considerando as características do Monte da Paradaia e a existência ali de uma necrópole, pensamos ter encontrado a resposta para a origem deste topónimo no festival religioso a que acabámos de aludir. A legitimação desta hipótese, que até o nome da freguesia parece confirmar, deixamo-la a cargo de quem melhor a pode fazer: a Arqueologia.

Parentalia, era o nome deste festival, e daqui podia derivar o nome Paradaia, mediante fenómenos fonéticos presentes na formação da língua portuguesa:

Parentalia >

> *parantalia (assimilação da segunda sílaba por influência das envolventes);

> *paratalia (assimilação progressiva da segunda sílaba por desnasalação);

> *paradalia (por sonorização do intervocálico -t- > -d-);

> Paradaia (por síncope do -l- intervocálico).

sábado, 28 de Fevereiro de 2009

AVEIRO: ALIOVIRIO não tem nada a ver com ALAVARIO.


O documento a que se refere esta notícia, datado do ano 960 da era de César, a que corresponde o ano 922 da era de Cristo, pertence ao Livro Preto da Sé de Coimbra (1), donde foi copiado por Alexandre Herculano para publicação nos seus Diplomata et Chartae (2).

Como foi provado por Pierre David (3) e Miguel de Oliveira (4), trata-se de um falso datado do século XII, porventura nunca anterior a 1115 ou 1116 (5), manifestamente forjado na diocese conimbricense, com o desígnio de contrariar a pretensão da Sé portucalense de estender o seu território para a margem esquerda do rio Douro. Estavam em causa várias doações de propriedades na margem esquerda do Douro, feitas pelo rei Ordonho II (rei da Galiza de 911 a 914; rei da Galiza e de Leão de 914 a 924) ao bispo Gomado que, considerando os objectivos atrás anunciados, aparece neste documento como bispo de Coimbra, quando na realidade foi bispo do Porto (908-912?).

Mas vamos ao que importa.

Segundo o Diário de Aveiro, João Gaspar pretende ter encontrado um documento que faz recuar 37 anos a data da mais antiga referência escrita para Aveiro, aqui sob a grafia Aliovirio. Mais acrescenta que o dito topónimo corresponde a um porto marítimo, coisa que não aparece em qualquer parte deste diploma.

No documento em análise, diz-se textualmente:

[…] et dedit ipse rex et ipsi comites nabulum et portaticum de dorio in die sabbati de portu de aliovirio et per totos illos portus usque in illa foce de durio […] (6).

A passagem reproduzida diz-nos claramente que estamos perante um porto fluvial, em pleno rio Douro, correspondendo a uma paroécia sueva que já nos aparece sob a grafia Aliobrio no chamado Paroquial Suévico ou Divisio Theodemiri, cujo original, hoje perdido, deve ter sido redigido entre 572 e 589. Há ainda outros documentos em que nos aparece o porto de Aliovirio, como é o caso do doc, 17 dos Diplomata et Chartae (2), datado de 911, onde se dá conta da realização de uma congregatio magna de próceres galegos presidida pelo rei Ordonho, que teve lugar «in locum predictum Aliobrio».

A povoação, que ficava junto do rio Douro, entre Peso da Régua e Mesão Frio, «subtus montis Maraon discurent ribulo Sarmenia [ribeira de Sermanha] et flumine Doyro» (5), teria alguma importância, considerando a magna reunião dirigida pelo rei, que ali teve lugar em 911, e o facto de ali terem sido cunhadas duas moedas do rei visigodo Suintila (621-632).

O antigo porto de Aliovirio devia corresponder, grosso modo, à actual povoação de Caldas de Moledo, onde a antiga via militar romana de Bracara aos Transcudani, etc., por Lamego, atravessava o rio Douro (7).


(1) Este cartulário foi publicado pelo Arquivo da Universidade de Coimbra, entre 1977 e 1979. Vd. COSTA, Avelino de Jesus da; VENTURA, Leontina; VELOSO, M. Teresa (eds.) – Livro Preto da Sé de Coimbra. Coimbra: Arquivo da Universidade de Coimbra, 1977-1979. 3 vol. Vol. 1, p. 118-120 (doc. n.º 81).

(2) Herculano, Alexandre, dir.; Academia das Ciências de Lisboa, ed. lit. – Portugaliae Monumenta Historica: a saeculo octavo post Christum usque ad quintumdecimum. Diplomata et chartae. Olisipone: Typis Academicis, 1868. Vol. 1, fasc. 1, p. 16-17 (doc. n.º 25).

(3) DAVID, Pierre – Études historiques sur la Galice et le Portugal: du VIe au XIIe siècle. Lisboa-Paris: Institut Français au Portugal, 1947. XIV-579 p. (Collection Portugaise; vol. 7). p. 246-247.

(4) OLIVEIRA, Miguel de – Os Territórios Diocesanos. In Lusitania Sacra. Lisboa: Centro de Estudos de História Eclesiástica. Tomo I (1956), p. 45-50.

(5) COSTA, Avelino de Jesus da – O bispo D. Pedro e a organização da diocese de Braga. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1959. 2 vol. Vol. 1, p. 112, 138, 158-160, 163.

(6) Tradução: «e doou o mesmo rei e os mesmos condes o návão e o portádego do Douro, no sábado [de cada semana], desde o porto de Aliovirio e por todos os portos até à foz do Douro»

(7) FERNANDES, A. de Almeida – Paróquias suevas e dioceses visigóticas. Viana do Castelo: [Arquivo do Alto Minho], 1968. 181 p. Separata do "Arquivo do Alto Minho", vol. 14 a 16. p. 81-83.

(7) FERNANDES, A. de Almeida – Paróquias suevas e dioceses visigóticas. 2ª ed. resumida e actualizada. Arouca: Associação para a Defesa da Cultura Arouquense, 1997. 176 p. ISBN 972-9474-11-7. p. 74-75.