terça-feira, 14 de Julho de 2009

O topónimo AVEIRO



Adenda à postagem «Aveiro», aqui publicada em 7 de Dezembro de 2006, e contribuição deste blogue para as comemorações dos 250 anos da elevação de Aveiro a cidade.

Abrimos hoje outra possibilidade para a explicação do topónimo AVEIRO, que nos parece mais credível do que a apontada na postagem de 7 de Dezembro de 2006.

Na hipótese que passamos a desenvolver, o topónimo Aveiro terá por origem um apelativo recebido directamente do latim tardio, a que a presença árabe ou a convivência moçárabe terão acrescentado o artigo al, como aconteceu, por exemplo, no topónimo Almoster “o mosteiro”, em que o artigo al se antepôs a um apelativo romance, o que não é caso único. Mas, talvez melhor e mais simples, em vez do artigo árabe al, teremos a próstese de um a- inicial, como tão frequentemente acontece na formação do português. Referimo-nos ao apelativo do latim tardio lavarium, um dos compartimentos da domus, relacionado com as abluções e com os Lares e Penates (divindades domésticas), que se transformou no templo privado do culto doméstico das villae.

Está hoje provado que a maioria dos templos romanos tiveram um status de edifício religioso privado, especialmente os rurais, entre os quais se incluem os que existiam nas villae. Com efeito, muitas destas villae tinham o seu próprio templo, onde se praticava um culto privado e doméstico: referimo-nos, como atrás dissemos, ao lavarium, por vezes também conhecido por sacrarium (Orr, 1978; Baker, 1994) (1).

Depois do encerramento dos templos rurais, após a adopção do cristianismo como religião oficial do Estado, os santuários privados das villae, que continuaram em funcionamento até bem entrado o século V, converteram-se no último reduto do paganismo, que os éditos imperiais atingiam sobretudo a esfera pública, tendo uma pequena repercussão na esfera privada.

O isolamento da zona de Aveiro está bem patente no mapa das paróquias suevas do século VI, cujas sedes estão totalmente ausentes deste litoral, certamente ainda não cristianizado. A única paróquia registada nas proximidades situa-se além-Vouga e corresponde a Antuã, havendo algumas incertezas quanto à localização de Insula que, para Almeida Fernandes, se situaria no actual concelho de Oliveira de Azeméis, na freguesia de Cucujães (2). A Sul do Vouga, na área do actual concelho de Aveiro, não há registo de qualquer sede paroquial, fosse ela católica ou ariana.

Estas constatações permitem-nos deduzir da inexistência local, ou nas proximidades, de quadros eclesiásticos, capazes de dar assistência religiosa aos respectivos habitantes que, por isso mesmo, em período tão tardioúltimo quartel do século VI –, ainda não teriam sido cristianizados. Mas esta realidade não será de estranhar, se considerarmos que a maioria dos Suevos, quando entraram na Península, ainda eram pagãos, e que a evangelização do reino apenas se inicia poucos anos antes da elaboração do “Paroquial Suevo”, cerca de 550, com a chegada à Galécia de S. Martinho de Dume.

O quadro pouco melhora quando recuamos aos últimos anos do Império, que, no Norte de Portugal, apenas vislumbramos a diocese de Braga e, na Lusitânia, para além da metrópole de Mérida, conhecem-se tão as dioceses de Ossonoba, Évora e Lisboa, situação agravada pela inexistência na Hispânia de «corepíscopos ou bispos rurais, como existiram no Oriente».

De acordo com o “Paroquial Suevo”, a região de Aveiro integrava-se na diocese de Conimbria, com sede na actual freguesia de Condeixa-a-Velha, cuja jurisdição descia um pouco a Sul de Tomar, enquanto a Norte subia até ao Douro, que acompanhava para Leste até encontrar o rio Arda. No aro desta diocese, entre Vouga e Mondego, apenas havia as paróquias de Emínio (Coimbra) e Lorvão, muito longe de Aveiro. O “Provincial Visigótico”, da segunda metade do século VII, enuncia as diferentes dioceses e fornece-nos os respectivos limites. Em relação ao “Paroquial Suevo”, e para a zona atlântica que nos interessa, verifica-se a inclusão na diocese de Portucale do território entre Douro e Vouga, que antes pertencia à diocese de Conimbria. Quanto aos limites, ali se afirma que «Portucale teneat de Avia usque Loram, de Almos usque Solam», e que «Conimbria teneat de Naba usque Borga, de Torrente usque Lora». A transcrição justifica-se pelo limite comum às duas dioceses, que é a mais antiga referência a “Loure”, do concelho de Albergaria-a-Velha, na margem direita do Vouga e nas proximidades de Aveiro.

É este o quadro religioso na área do Baixo Vouga e na zona em que se inscreve Aveiro. Não haverá cristianismo, que apenas começará a entrar, e muito lentamente, a partir do século V. Por outro lado, a evangelização privilegiava, como não podia deixar de ser, face aos recursos reduzidos de que dispunha, os centros urbanos, começando por ganhar as respectivas elites. depois, e através destas, chegará a vez das camadas populares, dos servos e escravos. Não haverá cristianismo, mas, por certo, há religião, há paganismo, há o sincretismo religioso que ao longo de séculos amalgamou o animismo com as mais variadas crenças e divindades.

Nesta perspectiva, o nosso Lavarium corresponderia ao santuário local, que respondia às necessidades religiosas de camponeses, pescadores e salineiros das terras em volta, arreigados ao paganismo e às suas crenças. Sabemos quais eram essas crenças: basta uma leitura das actas dos concílios que começam a multiplicar-se no século VII. Para se aquilatar do desenvolvimento do cristianismo na área do actual território de Portugal, bastará dizer que o primeiro concílio aqui realizado teve lugar em Braga, no ano 561, estando presentes oito bispos de todo o reino suevo (do Cantábrico ao Tejo).


Quanto ao resto, perguntas sem respostas. Qual teria sido o destino deste lavarium, de a- prostético a tiracolo, perpetuado que foi no topónimo Aveiro? Será que lhe pertencia a estranha e arcaica estátua depositada no Museu de Aveiro, o gigante de quase 3 metros de altura, envergando umas típicas bragas célticas (em Aveiro chamamos-lhe “manaias”) e segurando pela cabeça, com a mão esquerda, uma serpente com cerca de dois metros e meio, enquanto o braço direito se levanta e a mão se abre para agarrar qualquer insígnia volante que se perdeu? Onde se levantaria este santuário de cultos desconhecidos? Porventura naquela colina, entre ribeiras e debruçada sobre a água, onde nasceu o centro histórico da nossa cidade. Quem sabe se no mesmo sítio em que se levantou a velha matriz de S. Miguel, demolida em 1835, possivelmente para que não se pronunciasse no seu orago o nome do rei maldito e assassino. S. Miguel, o orago que surge nos primevos tempos do cristianismo da Hispânia ocidental, quase sempre a desalojar o deus solar pagão, escondendo-lhe o nome e roubando-lhe a casa, como aconteceu mais para Sul, nas proximidades do Alandroal, com o S. Miguel a destronar o poderosíssimo Endovélico. Igreja de S. Miguel. Igreja de estranha arquitectura, de torre gótica e altaneira a encostar-se à capela-mor, certamente o pequeno corpo do templo primitivo que, face ao diminuto número de fregueses, não precisaria de outros cómodos. Cresceu a vila, cresceu o templo. Talvez a arqueologia tenha mais sorte, se alguma vez se proporcionar escavar a praça aveirense que mais história viu passar.


(1) LÓPEZ QUIROGA, Jorge; MARTÍNEZ TEJERA, Artemio M. – El destino de los templos paganos en Hispania durante la antigüedad tardía. In Archivo Español de Arqveología. Madrid. Vol. 79 (2006), p. 125-153. ISSN 0066-6742. ORR, David G. – Roman domestic religion: the evidence of the household shrines. In Aufstieg und Niedergang der romischen Welt. Vol.16/2 (1978) p. 1557-1591. BAKER, Jan Theo -- Living and Working with the Gods.Studies of Evidence of Private Religion and its Material Environment in the City of Ostia (100-500 A.D.). Amsterdam: J.C. Gieben, 1994. ARCE, Javier – Bárbaros y romanos en Hispania: 400-507 A.D.. Madrid: Marcial Pons, 2007. 326 p. ISBN 9788496467576. ARCE, Javier – Fana, templa, delubra destrui praecipimus: El final de los templos de la Hispania romana. In Archivo Español de Arqveología. Madrid. Vol. 79 (2006), p. 115-124. ISSN 0066-6742.


(2) Almeida Fernandes considera absurda a hipótese de Pierre David que concentra num único topónimo – Insula Antunane – estas duas paróquias suevas, com uma justificação, na verdade, muito difícil de aceitar, face às evidências dos argumentos daquele investigador. No concelho de Oliveira de Azeméis existem hoje três lugares denominados “Ínsua”, nas freguesias de Carregosa, Cucujães e S. Martinho da Gândara.


quinta-feira, 26 de Março de 2009

Mário Sacramento morreu há 40 an0s



Justificar completamenteMÁRIO SACRAMENTO (1920-1969) morreu há 40 anos, sem ver o Portugal livre por que tanto combatera. Médico, escritor, crítico literário, político empenhado e cidadão de corpo inteiro, a morte, pressentida, levou-o cinco anos antes do 25 de Abril, nas vésperas do 2º Congresso da Oposição Democrática, que o homenageou deixando vaga a sua cadeira na mesa da presidência. Em humilde homenagem, deixamos aqui a sua carta-testamento.

Caramulo,
Pousada de S. Lourenço,
7 de Abril de 1967

Aos mais adiados...

Vai sendo tempo de escrever uma carta de despedida! A velha carcaça é já uma ruína nítida. A somar às cicatrizes das lesões pulmonares que tive, há bronquiectasias e zonas de enfisema do impossível fumador que sou, as quais hão-de vir a resultar num coração pulmonar. A tensão mínima já começa a ressentir-se disso. O rim deita vestígios acentuados de albumina e cilindros. E o estômago tem qualquer coisa que um destes dias hei-de averiguar... Como não posso nem devo emagrecer excessivamente — são os próprios colegas que mo dizem —, dado o perigo de reactivação das antigas lesões bacilares, o peso é também um contra. E, como deixar de fumar, nesta idade, além de ser um sacrifício inglório que me roubaria um dos poucos apegos concretos que ainda tenho à vida, seria levar-me a engordar ainda mais, o balanço é portanto muito nítido. Quantos anos? Depois dos cinquenta acaba-se, estou convencido. Mais erro, menos erro, a média deve ser essa.

Começo por isso a ter pressa de fazer umas tantas coisas que reservei para a fase final, quando a terrível batalha que travei na sobrevivência contra o fascismo me dei¬xasse, à margem desta profissão cujas dificuldades e con¬dicionamentos económicos, sociais e políticos liquidaram tantos dos meus sonhos, margem para isso. Espero roubar, sempre que possa, alguns dias à labuta e à engrenagem diária e isolar-me, como agora fiz, para escrever qualquer coisa de mais íntimo. Para o romance cíclico que trago há tantos anos na cabeça, não chegará o tempo, decerto. E é melhor assim, pois evito uma desilusão e sempre morrerei com o arzinho angustiado de vítima dum mau destino, o que é chique, como diria o Eça...

Antes de tudo, impõe-se, porém, que escreva estas singelas palavras. Quem pode afiançar-me que não vou acabar hemiplégico e afásico, como minha Mãe? Deixa aqui, então, o que depois não poderás!

Deixar cheira a testamento. E eu, que deixe, só tenho o corpo. Por mais que fizesse, por mais que me fizessem, disso é que nunca consegui ser espoliado! E, como é com ele que me avenho nas noites de insónia e nas porfias diárias, é justo que lhe dedique, ao menos, um pensamento em vida. E não o legue aos cães... Pois não equivaleria a isso estar a ver-me, daqui, de barba feita a posteriori, sapatos engraxa¬dos, fato de ver a Deus, a apresentar as minhas despedidas, muito formalizado, de dentro da cabine — espacial? Como não tenciono ir para parte nenhuma, metam-me como eu estiver no caixote mais barato que encontrem e devolvam-me os restos à terra. A terra sabe lavar-se. E não há nada como um cadáver «limpo» para marcar um limite.

Se morresse em localidade com forno crematório, não desgostava disso, se não fosse caro. E, por falar em caro: não sei se a terra será o mais barato para o caso, — ó con¬tradições do capitalismo! E, como isto de morrer também «custa» aos outros, há que prevê-lo. A família tem uma pirâmide egípcia em Ílhavo. Embora eu esteja farto de conhecer prisões em vida, como nessa altura quem terá de aguentar isso é «o outro», não me oponho a ir para lá, se for mais económico ou mais fácil de arrumar. Não faço questões nenhumas com a morte... Ela nega-me, e é tudo. A grande magana!

Não, o motivo fundamental desta carta é outro. Aceitei dialogar, nestes últimos tempos, com os católicos. Se tivesse nascido num país protestante ou árabe ou budista, tê-lo-ia feito com esses. Pois do que se tratava — se trata, ó morto-vivo!, ainda não acabaste! — era, é de dialogar com os progressistas e, sobretudo, com o povo, directa ou indirec¬tamente. Não há-de faltar contudo — sempre assim foi, ó alminhas santas! — quem procure fazer sujeira com isso e aproveitar-se duma ambiguidade que surja para me dene¬grir a memória. Se a minha Mulher ainda estiver viva — ela tem sido boa companheira! — não haverá problemas com isso, estou convencido. E o mesmo se dará se os filhos estiverem atentos: eles têm carácter. Mas quem pode prever tudo? Não que eu faça grande questão do meu bom-nome: estou-me nas tintas para ele, depois de morto. Mas, além dele pertencer, também, aos filhos dos Filhos e a estes, pertence aos meus companheiros de jornada. E, que diabo, se passei tantos maus bocados por eles, em vida, é porque considerei que era esse o meu destino. E um homem tem o direito de o defender, mesmo depois de morto!

Fica portanto entendido que sou ateu e como ateu devo ser enterrado. Em vez dum pano preto, ponham um paninho vermelho no caixote, se puderem. E usem luto ver¬melho, se algum quiserem usar...

Mesmo que eu ficasse pílulas ou sugestionável à hora da morte, isso não modificaria ser esta a minha opinião responsável. É esta, por conseguinte, a única válida.

Claro está que gostaria de ter sido melhor homem, melhor marido e melhor pai. A perspectiva da morte só tem de positivo fazer-nos pensar assim. Mas o homem é um bicho complicado. E eu tenho a consciência de que, pelo menos, me bati sempre comigo mesmo para ser melhor do que poderia ter sido. Fui amigo da família à minha maneira: sem efusões líricas ou rodriguinhos. E, se não fiz mais por ela, foi porque não pude, tanto no sentido social como psicológico do verbo. A prova de que o meu desejo era ser bom marido e bom pai está no muito que li, pensei e escrevi sobre isso. Sejam os Filhos melhores do que eu pude — foi sempre esse o meu sentido de missão.

Nasci e vivi num mundo de inferno. Há dezenas de anos que sofro, na minha carne e no meu espírito o fas¬cismo. Recebi dele perseguições de toda a ordem — físicas, económicas, profissionais, intelectuais, morais. Mas, que não as tivesse sofrido, o meu dever era combatê-lo. O fascismo é o fim da pré-história do homem. E procede, por isso, como um gangster encurralado. Fiz o que pude para me libertar, e aos outros, dele. É essa a única herança que deixo aos meus Filhos e aos meus Companheiros. Acabem a obra! Derrubem o fascismo, se nós não o pudermos fazer antesl Instaurem uma sociedade humana! Promovam o socialismo, mas promovam-no cientificamente, sem dogmatismos sec¬tários, sem radicalismos pequeno-burgueses! Aprendam com os erros do passado. E lembrem-se de que nós, os mortos, iremos, nisso, ao vosso lado!

Não veremos o que quisemos, mas quisemos o que vimos. E este querer é um imperativo histórico. Há milhões de mortos a dizer-vos: avante!

Para a Mulher, um abraço, simples e esquivo como eu sempre fui. Para os Filhos, um beijo, frio e recalcado como eu sempre lhes dei. Para todos, um afecto. Quem tinha tão pouco que dar a tantos, teve de ser avaro... Mas morre convencido de que não guardou nada para si. Ou de que teve, pelo menos, essa intenção.

Façam o mundo melhor, ouviram? Não me obriguem a voltar cá!

Mário Sacramento

[– Carta-testamento. Porto: Editorial Inova, 1973. p. 15-18]

sábado, 14 de Março de 2009

Monte da Paradaia (Romãs, Sátão)

Pede-me um leitor deste blogue para estudar a possível origem do topónimo Paradaia, que identifica um monte na freguesia de Romãs, concelho de Sátão. O topónimo em questão é ignorado pelos nossos documentos oficiais que, para o mesmo acidente geográfico, registam os nomes de Monte do Barrocal ou Monte de Nossa Senhora do Barrocal. Acrescenta o nosso consulente que, neste lugar, estão referenciados «uma necrópole, um castro e uma igreja moçárabe».

Uma rápida pesquisa permitiu-me acrescentar algo mais a estas informações, como seja o facto de ali se realizar, no dia 2 de Fevereiro de cada ano, a romaria de Nossa Senhora do Barrocal, em honra de Nossa Senhora das Candeias, orago da capela ali existente, a que o povo chama Capela das Candeias ou da Fevereirinha.

Esta romaria corresponderá, quase pela certa, considerando as particularidades do lugar e os respectivos achados, à cristianização do festival celta do primeiro dia de Fevereiro, conhecido por Imbolc "Purificação" ou Dia da Senhora, que honrava a deusa Brigitt, «filha do deus Dagda, a deusa tripla dos cabelos de ouro. Era a mãe, a filha e a esposa dos deuses das origens e dos primeiros druidas. Personificava a poesia, a saúde, a força, a adivinhação, a inteligência e protegia o lar». O processo da cristianização, perante a dificuldade em erradicar as múltiplas manifestações da religião e dos costumes pagãos, transformou esta deusa Brígida em Santa Brígida, arvoradando-a em padroeira da Irlanda, com culto generalizado nesse mesmo dia 1 de Fevereiro.

A ocupação romana trouxe consigo um pouco de todo o império, incluindo, como não podia deixar de ser, a sua religião, abrindo caminho a novos sincretismos.

Neste mesmo mês de Fevereiro, entre os dias 13 e 21, a velha Roma promovia um dos seus maiores festivais religiosos, que pretendia honrar os mortos e aproximar os membros da família, envolvidos na visita aos túmulos dos seus familiares, onde levavam flores e oferendas de sal e de pão embebido em vinho.

Considerando as características do Monte da Paradaia e a existência ali de uma necrópole, pensamos ter encontrado a resposta para a origem deste topónimo no festival religioso a que acabámos de aludir. A legitimação desta hipótese, que até o nome da freguesia parece confirmar, deixamo-la a cargo de quem melhor a pode fazer: a Arqueologia.

Parentalia, era o nome deste festival, e daqui podia derivar o nome Paradaia, mediante fenómenos fonéticos presentes na formação da língua portuguesa:

Parentalia >

> *parantalia (assimilação da segunda sílaba por influência das envolventes);

> *paratalia (assimilação progressiva da segunda sílaba por desnasalação);

> *paradalia (por sonorização do intervocálico -t- > -d-);

> Paradaia (por síncope do -l- intervocálico).

sábado, 28 de Fevereiro de 2009

AVEIRO: ALIOVIRIO não tem nada a ver com ALAVARIO.


O documento a que se refere esta notícia, datado do ano 960 da era de César, a que corresponde o ano 922 da era de Cristo, pertence ao Livro Preto da Sé de Coimbra (1), donde foi copiado por Alexandre Herculano para publicação nos seus Diplomata et Chartae (2).

Como foi provado por Pierre David (3) e Miguel de Oliveira (4), trata-se de um falso datado do século XII, porventura nunca anterior a 1115 ou 1116 (5), manifestamente forjado na diocese conimbricense, com o desígnio de contrariar a pretensão da Sé portucalense de estender o seu território para a margem esquerda do rio Douro. Estavam em causa várias doações de propriedades na margem esquerda do Douro, feitas pelo rei Ordonho II (rei da Galiza de 911 a 914; rei da Galiza e de Leão de 914 a 924) ao bispo Gomado que, considerando os objectivos atrás anunciados, aparece neste documento como bispo de Coimbra, quando na realidade foi bispo do Porto (908-912?).

Mas vamos ao que importa.

Segundo o Diário de Aveiro, João Gaspar pretende ter encontrado um documento que faz recuar 37 anos a data da mais antiga referência escrita para Aveiro, aqui sob a grafia Aliovirio. Mais acrescenta que o dito topónimo corresponde a um porto marítimo, coisa que não aparece em qualquer parte deste diploma.

No documento em análise, diz-se textualmente:

[…] et dedit ipse rex et ipsi comites nabulum et portaticum de dorio in die sabbati de portu de aliovirio et per totos illos portus usque in illa foce de durio […] (6).

A passagem reproduzida diz-nos claramente que estamos perante um porto fluvial, em pleno rio Douro, correspondendo a uma paroécia sueva que já nos aparece sob a grafia Aliobrio no chamado Paroquial Suévico ou Divisio Theodemiri, cujo original, hoje perdido, deve ter sido redigido entre 572 e 589. Há ainda outros documentos em que nos aparece o porto de Aliovirio, como é o caso do doc, 17 dos Diplomata et Chartae (2), datado de 911, onde se dá conta da realização de uma congregatio magna de próceres galegos presidida pelo rei Ordonho, que teve lugar «in locum predictum Aliobrio».

A povoação, que ficava junto do rio Douro, entre Peso da Régua e Mesão Frio, «subtus montis Maraon discurent ribulo Sarmenia [ribeira de Sermanha] et flumine Doyro» (5), teria alguma importância, considerando a magna reunião dirigida pelo rei, que ali teve lugar em 911, e o facto de ali terem sido cunhadas duas moedas do rei visigodo Suintila (621-632).

O antigo porto de Aliovirio devia corresponder, grosso modo, à actual povoação de Caldas de Moledo, onde a antiga via militar romana de Bracara aos Transcudani, etc., por Lamego, atravessava o rio Douro (7).


(1) Este cartulário foi publicado pelo Arquivo da Universidade de Coimbra, entre 1977 e 1979. Vd. COSTA, Avelino de Jesus da; VENTURA, Leontina; VELOSO, M. Teresa (eds.) – Livro Preto da Sé de Coimbra. Coimbra: Arquivo da Universidade de Coimbra, 1977-1979. 3 vol. Vol. 1, p. 118-120 (doc. n.º 81).

(2) Herculano, Alexandre, dir.; Academia das Ciências de Lisboa, ed. lit. – Portugaliae Monumenta Historica: a saeculo octavo post Christum usque ad quintumdecimum. Diplomata et chartae. Olisipone: Typis Academicis, 1868. Vol. 1, fasc. 1, p. 16-17 (doc. n.º 25).

(3) DAVID, Pierre – Études historiques sur la Galice et le Portugal: du VIe au XIIe siècle. Lisboa-Paris: Institut Français au Portugal, 1947. XIV-579 p. (Collection Portugaise; vol. 7). p. 246-247.

(4) OLIVEIRA, Miguel de – Os Territórios Diocesanos. In Lusitania Sacra. Lisboa: Centro de Estudos de História Eclesiástica. Tomo I (1956), p. 45-50.

(5) COSTA, Avelino de Jesus da – O bispo D. Pedro e a organização da diocese de Braga. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1959. 2 vol. Vol. 1, p. 112, 138, 158-160, 163.

(6) Tradução: «e doou o mesmo rei e os mesmos condes o návão e o portádego do Douro, no sábado [de cada semana], desde o porto de Aliovirio e por todos os portos até à foz do Douro»

(7) FERNANDES, A. de Almeida – Paróquias suevas e dioceses visigóticas. Viana do Castelo: [Arquivo do Alto Minho], 1968. 181 p. Separata do "Arquivo do Alto Minho", vol. 14 a 16. p. 81-83.

(7) FERNANDES, A. de Almeida – Paróquias suevas e dioceses visigóticas. 2ª ed. resumida e actualizada. Arouca: Associação para a Defesa da Cultura Arouquense, 1997. 176 p. ISBN 972-9474-11-7. p. 74-75.

segunda-feira, 29 de Setembro de 2008

AVEIRO: comemorações em 2009

1050 anos

26 de Janeiro de 959

Testamento de Mumadona Dias: "certidão de nascimento" da vila de Aveiro (o mais antigo documento que se conhece com uma referência a Aveiro, sob a forma alatinada de alavario)


250 anos

11 de Abril de 1759

Data do alvará régio da elevação da vila de Aveiro a cidade


250 anos

24 de Julho de 1759

Data do despacho da Mesa do Desembargo do Paço referente à elevação da vila de Aveiro a cidade


250 anos

25 de Julho de 1759

Carta com o despacho régio, pondo em vigor o alvará régio da elevação da vila de Aveiro a cidade


250 anos

11 de Agosto de 1759

Registo da Carta régia, na Chancelaria-mor da Corte e Reino, no Livro das Leis (fol. 126), da elevação da vila de Aveiro a cidade.


200 anos

18 de Maio de 1809

Nascimento de Manuel José Mendes Leite


200 anos

26 de Dezembro de 1809

Nascimento de José Estêvão Coelho de Magalhães


150 anos

13 de Setembro de 1859

Nascimento de Luís Cipriano Coelho de Magalhães, filho de José Estêvão


150 anos

15 de Outubro de 1859

Nascimento de Jaime de Magalhães Lima


100 anos

1 de Julho de 1909

Nascimento de João Evangelista Vieira Sarabando


100 anos

5 de Setembro de 1909

Nascimento de Eduardo Ala Cerqueira


40 anos

27 de Março de 1969

Falecimento de Mário Emílio de Morais Sacramento

sexta-feira, 30 de Maio de 2008

De PORTUCALE a PORTUGAL

O corónimo "Portugal" deriva de Portucale que, como à frente veremos, foi forma toponímica de um lugar na margem esquerda do Douro e de outro na margem direita do mesmo rio, correspondendo a uma tautologia de dois nomes comuns, apelativos de realidades idênticas ou aparentadas, nomes expressos em duas línguas diferentes que conviveram temporal e espacialmente.
Referimo-nos ao latim portus "passagem, entrada de um porto, porto, refúgio, foz dum rio" e ao celta cale-, ainda vivo nas línguas celtas que chegaram aos nossos dias, como é o caso do escocês cala, caladh, "porto de abrigo para navios" e do irlandês caladh, calaì, "cais, molhe, porto", estando documentado o médio-irlandês calad "porto de abrigo para navios, baía". Depois, o tempo foi passando, as gentes foram falando e Portucale acordou "Portugal", ainda o galaico-português pontapeava o ventre materno, por sonorização da oclusiva intervocálica -c- > -g- e posterior emudecimento e apócope do -e final.
A convivência de povos de línguas diferentes, numa mesma região, pode levar ao aparecimento de topónimos diferentes apenas na aparência, já que exprimem o mesmo conceito nos respectivos idiomas. Em zonas de usufruto comum, integradas em vivências deste tipo, aparecem também formações tautológicas, juntando num mesmo topónimo elementos de duas línguas adstratas. Servem como exemplos, no Reino Unido, Cheetwood (no Lancashire), do céltico cheet "floresta" + saxão wood "floresta" e Brill (no Lincolnshire), do céltico bre "colina" + saxão hill "colina"; em Espanha, o Valle de Aran, do espanhol valle "vale" + basco haran "vale"; em Moçambique, o "Lago Niassa", do port. lago + suaíli nyassa "lago"; na Itália, Montegibello (na Sicília), do lat. monte- "monte" + árabe jibal "montes". Para rematar estes exemplos, temos na Escócia uma tautologia idêntica à de Portucale, para identificar um ancoradouro no Kyles of Bute: Caladh Harbour, topónimo que associa o inglês harbour e o gaélico caladh, ambos a significar "porto de abrigo para navios".
Desconhecemos qual seria a grafia e pronúncia da forma galaico-lusitana cale-, já que apenas chegou até nós como topónimo transmitido por romanos, não falantes da língua celta, que, muitas vezes, não tinham grandes preocupações de fidelidade em relação à latinização das falas recolhidas, escondendo numa última consoante, muitas vezes um -s, qualquer som que lhes fosse estranho. Mas não deveria andar longe de cale, se atentarmos no actual português "cala" e no galego cala, vozes que significam "pequeno porto ou enseada muito estreita, com margens íngremes ou entre rochedos". Muitos dicionaristas atribuem a origem destas falas ao árabe kalla, mas inclinamo-nos muito mais para uma origem pré-romana, como sugere o dicionário de Houaiss, e avançamos para uma etimologia céltica, apoiados nos exemplos fornecidos pelas línguas gaélicas. A reforçar esta opção temos o grande número de topónimos "Cale" (concelhos de Vila Real, Cinfães, Marco de Canavezes e Oliveira de Azeméis, os quatro junto de cursos de água), "Cal" (Norte de Portugal e Galiza) e "Cales" (na Galiza), todos no Noroeste da Península Ibérica, precisamente onde foi menos efectiva e demorada a presença árabe, e a existência de um Caladunum entre Douro e Minho, como podemos ler na Geografia (L. 2, cap. 6, § 39) de Claudius Ptolemaeus (c. 90-168). Este Caladunum, referido por Ptolomeu no século II d.C., deve referir-se a um castro na actual freguesia de Cervos, no concelho de Montalegre. Esta freguesia é atravessada pelo rio Beça, em cuja margem fica um monte ainda hoje denominado Crasto. O território de Cervos era atravessado por uma estrada romana, atestada por dois marcos miliários aqui descobertos, de que nos fala Pinho Leal, no seu Portugal Antigo e Moderno (vol. 2, p. 256-257). Caladunum deveria então corresponder a um castro [céltico dunum "fortaleza elevada", "colina"], servido por uma "enseada muito estreita, com margens íngremes ou entre rochedos" [céltico cale]. Também na foz do Cávado, frente aos rochedos chamados Cavalos de Fão, houve até há pouco tempo um ancoradouro natural, cujo sítio se chamava "Cala". Quanto a nós, o problema levantado pela existência de dois topónimos iguais, olhando-se nos olhos com o Douro de permeio, foi resolvido de forma expedita e arguta em 1940, por Cláudio Basto ("Os nomes Cale e Portucale: plano de estudo", in Revista de Guimarães, número especial, 1940: 83-94), mesmo sem poder contar com o auxílio do elemento cale, cujo étimo não identificou. Para este autor, o topónimo Portucale abrangeria de início as duas margens e o próprio percurso fluvial, considerando o sentido da fala portus que, primitivamente, designaria uma "passagem", o que aliás já acontecia no indo-europeu *prtu-, de base *per-, o étimo donde deriva. Como nos diz Viterbo, o português "porto", nos nossos documentos mais antigos, significava

porta, entrada, garganta do monte ou passagem, já do mar ou rio para a terra, já de uma terra para a outra, atravessando alguma eminência ou cerro, que serve como de muro ou divisão. Também chamaram Porto, não só o vau de um rio caudaloso, onde se passa em barca, mas também o de qualquer ribeiro, onde se passa, ou a pé, ou de carro, ou em besta, ou em poldras, ou em ponte sendo da razão do Porto o dar passagem ou entrada (Elucidário, vol. 2: p. 488).

A fala galega porto, para além do significado hoje mais usual, ainda significa "paso entre montañas que comunica as dúas vertentes", "lugar estreito ou pouco profundo por onde se pode atravesar um río" (EGU, vol. 14, p. 81, s.v. "porto"). O sentido de "passagem" está também presente noutras falas de outras línguas indo-europeias, derivadas deste mesmo étimo, como no espanhol puerto, quando se refere a "depresión, garganta o boquete que da paso entre montañas"; no francês port "lugar em que há uma barcaça ou barcos para se passar um rio ou ribeira"; no francês pirenaico port "passage dans les Pyrénées"; no antigo germânico *furdu-, donde deriva o alemão furt "vau" e o inglês ford "passar a vau".
Por tudo isto, o apelativo "porto", com a significação de "passagem", está por detrás de muitos topónimos portugueses que, conjuntamente com Barca, Barco, Barcos, Passadouro, Passagem, Travassô, Vau e tantos outros engrossam a numerosa família dos hodotopónimos. E, nestas andanças de documentar o sentido de portus, acabamos de bater com o nariz no Dictionnaire Universel François et Latin (Dictionnaire de Trevoux), descobrindo que há trezentos anos já se tinha chegado à tautologia atrás enunciada:

Ce mot de Portugal vient de Portus & de Cale, qui signifie tous deux port. Cale vient de cal, mot Celtique qui veut dire la même chose. De là on a fait Burdicala ou Burdigala, port célèbre de Gascogne ("A palavra Portugal vem de Portus e de Cale, ambas com o significado de porto. Cale vem de cal, palavra céltica que quer dizer a mesma coisa. Esta entrou na formação de Burdicala ou Burdigala [actual Bordéus], célebre porto da Gasconha") (1732, 3ª ed., Vol. 4, col. 1003).

A mais antiga alusão à civitas Cale da margem direita do Douro deve-se a Gaius Sallustius Crispus (Hist. III, 43), nas suas Historiarum libri quinque (39 a.C.), narrativas históricas reportadas aos acontecimentos das lutas sociais e políticas que debilitaram a República Romana no século I a.C., no caso em apreço entre 78 e 67. A referência de Salústio chegou-nos numa citação de Maurus Servius Honoratus, datada do século IV e inserida num comentário gramatical e literário sobre Virgílio os Servii Gramatici in Vergilii AEneidos Librum Septimum Commentarius , onde, depois de se referir à civitas Cales da Campânia e à Cale (actual Cagli) que demorava na via Flamínia, estrada que ligava Roma a Ariminum (actual Rimini, na costa adriática), afirma:

est et in Gallia hoc nomine, quam Sallustius captam a Perperna commemorat [e existe (outra civitas) com este nome na Gália, de que Salústio relata aconquista por Perpena].

Estes acontecimentos teriam tido lugar em 73 a.C., data da incursão de Perpena no Noroeste peninsular, em acções militares que o levaram até ao rio Lima. Considerando que o escrito de Salústio abordava as lutas sertorianas da Hispânia, e que Perpena era um dos generais de Sertório, parece óbvio o lapso na transcrição de Gallia por Gallaecia, incongruência já apontada pelo humanista e académico Isaac Vossius (1618-1689), no segundo volume da edição de Leiden da obra De situ orbis de Pompónio Mela. Se Gallia está por Gallaecia, a menção salustiana permite-nos identificar esta Cale com a povoação da margem direita do Douro, já que a margem esquerda pressupunha uma localização na Lusitânia e não na Galécia.
Mas, se esta citação corresponde à realidade descrita, também é provável que "Cale" fosse nesta época um simples locus (lugar) e não uma civitas (comunidade-território em volta de uma povoação principal), pois não é mencionado pelos geógrafos que descrevem a Hispânia dos dois primeiros séculos da nossa era, como sejam Estrabão (c. 58 a.C.-c. 25 d.C.), Pompónio Mela (escreve nos anos 40 do século I), Plínio (23-79) ou Ptolomeu (c. 90-168).
Considerando as fontes conhecidas, a referência seguinte ao topónimo Cale surge no acusativo Calem do Itinerário de Antonino (Itinerarium provinciarum Antonini Augusti), dos finais do século III d.C., identificando a penúltima estação da estrada romana de Lisboa a Braga, a 13 milhas de Lancobriga, a estação anterior, e a 35 (cerca de 52 km) de Bracara Augusta. Esta última distância tem levado muitos investigadores a identificarem este Calem com a civitas da margem direita do Douro, o que, parecendo razoável, não deixa de ser uma mera hipótese. As menções posteriores aparecem já na formação tautológica Portucale. Começamos por destacar um documento da segunda metade do século V, o Chronicon de Idácio bispo de Chaves que terá vivido entre cerca de 395 e talvez 472 , um conjunto de crónicas sobre o reino dos Suevos, com a capital em Braga, abarcando o período de 379 a 468. Idácio menciona Portucale, indeclinável, em três parágrafos distintos, uma vez sem qualquer especificação (Aiulfus dum regnum Suevorum spirat, Portucale moritur mense Junio), outra como lugar (Rechiarius ad locum qui Portucale appellatur, profugus regi Theudorico captivus adducitur) e uma última como castro (Maldras germanum suum fratrem interficit, et Portucale castrum idem hostis invadit).
Devemos uma outra citação a Isidoro (560-636), bispo de Sevilha, em cuja Historia de Regibus Gothorum, Vandalorum et Suevorum, em que narra os acontecimentos relacionados com o reino visigodo da Hispânia, até finais do primeiro quartel do século VII, podemos ler:

Ipse postremo rex telo saucius fugit, praesidioque suorum carens, ad locum Portucale capitur, regique Theuderico vivus offertur.

Ainda aqui, continuamos com Portucale reduzido a um simples povoado, não aparentando qualquer preponderância especial. Nas pretensas actas de um alegado Concílio de Lugo, que teria tido lugar em 569, temos a mais antiga menção à existência de um Portucale a norte do Douro e de um outro na margem sul, mesmo que este documento seja posterior àquela data, já que algumas das suas versões apresentam interpolações que remetem para o século XII. Mas, para o que nos interessa, importa referir que não é posta em dúvida a autenticidade do chamado Paroquial Suévico ou Divisio Theodemiri, o elemento mais importante destas supostas actas, cujo original, hoje perdido, deve ter sido redigido entre 572 e 589. O estabelecimento destas duas balizas deve-se ao facto do Paroquial colocar a sede da diocese portucalense em Portucale, sendo certo que a diocese nasce no segundo concílio de Braga (572) com a sede em Magneto (Meinedo, actual freguesia do concelho de Lousada) e que, aquando da realização do terceiro concílio de Toledo (589), a referida sede era, agora sim, em Portucale. Esta Divisio Theodemiri, um acto de administração político-religiosa porventura da iniciativa do rei suevo Teodemiro (559-569), menciona uma paróquia ad sedem Portugalensem in castro novo (junto da Sé portucalense, no castro novo), na actual cidade do Porto, e uma outra denominada Portucale castrum antiquum, na diocese de Coimbra e, por isso mesmo, na margem sul do Douro, no actual concelho de Vila Nova de Gaia.
Neste desatar de meada cronológica, segue-se um documento de 922, do Livro Preto da Sé de Coimbra (vol. 1, p. 118-120), diploma em que alguns investigadores vêem uma cópia deturpada ou com interpolações. Trata-se de uma "descrição da forma como o bispo Gomado organizou o mosteiro de Crestuma e a vila do mesmo nome", com a notícia das doações que beneficiaram o referido cenóbio. A Crestuma, que fica na margem esquerda do Douro, junto à foz do rio Uíma, teriam chegado por via fluvial (fuerunt navigio), depois de terem embarcado (excitabit naves) em Portugale (obviamente na margem oposta), o rei Ordonho II (rei da Galiza de 911 a 914, e da Galiza e Leão de 914 a 924), a rainha (Aragunte Gonçalves), os condes Lucídio Vimaranes e Rodrigo Lucides e restante comitiva régia, para visitarem o mosteiro e o bispo Gomado. No mesmo documento, um pouco mais à frente, fala-se de uma propriedade do mosteiro e dos respectivos termos:

villa de portugal quomodo dividit per suos terminos antiquos quomodo dividit cum illa villa de mahamudi et inde per montem a termino de colimbrianos usque in gal.

Se no primeiro caso temos o Portugale da margem direita do Douro, no segundo descobrimos o Portugal da margem sul, a confrontar com Mafamude (actual freguesia da sede do concelho de Vila Nova de Gaia) e Coimbrões (freguesia de Mafamude), povoações entretanto absorvidas pela cidade de Vila Nova de Gaia. E temos ainda um(a) Gal (usque in gal), afinado pela terminação de Portugal, talvez a encobrir um topónimo mal percebido ou mal lido, que poderia ser Gaia. Este Portugal da margem sul deveria corresponder à actual freguesia de Santa Marinha (Vila Nova de Gaia), encostada ao Douro e virada para o morro da Sé do Porto. Para aqui nos empurra o documento 268 do Livro Preto da Sé de Coimbra (vol. 2, p. 139-140), diploma sem data que menciona as herdades usurpadas pela violência à Sé de Coimbra, entre as quais encontramos Sancta Marina de Purtugal.
Perante a existência de dois povoados denominados Portucale, um na margem direita (castro novo) e outro na margem esquerda (castrum antiquum) resta descobrir em qual deles nasceu Portugal e qual deles nasceu primeiro.
Numa leitura imediatista, a questão da precedência parece resolvida com os qualificativos com que o Paroquial Suévico ornou cada um dos dois topónimos. Nesta perspectiva, o mais antigo, o primeiro a nascer, seria o Portucale da margem sul, porque era esse o castrum antiquum, mas não podemos esquecer os condicionalismos que rodeiam aquele documento, nada garantindo que os adjectivos antiquum e novo não sejam interpolações de séculos posteriores, como também não podemos ignorar o facto de tanto Idácio de Chaves como Isidoro de Sevilha não fazerem qualquer referência ao Portugal da margem esquerda, nem sentirem necessidade de especificar de qual estavam a falar. Os achados arqueológicos dos últimos anos permitem-nos afirmar a ocupação humana do morro da Sé desde o século VIII a.C. e da Ribeira ao longo da vigência do domínio romano, mas outras descobertas poderão ocorrer durante os trabalhos anunciados em torno da "Recuperação e Reconversão Urbanística de Santa Marinha", em Vila Nova de Gaia. De qualquer forma, e independentemente dos referidos adjectivos serem ou não dos finais do século VI, continuaria por provar qual dos dois povoados teria nascido primeiro. Com efeito, o castro novo poderia corresponder a uma recuperação sueva de um castro mais antigo, que tivesse sido destruído durante a conquista romana, ou, se corresponder a uma interpolação dos séculos VIII-IX, poderia indicar uma restauração neogoda, depois da destruição de Portucale por Afonso I das Astúrias (739-757), em meados do século VIII, ou após a presúria do mesmo Portucale pelo conde Vímara Peres, em 868, no reinado de Afonso III (866-911), considerando que o Portucale da margem direita foi, a partir daquela data, se já não o era antes, um centro de povoamento e de organização político-administrativa e, pelo menos nominalmente, a sede do condado do qual viria a nascer Portugal.
Pesem as dúvidas e reticências, podemos afirmar que o corónimo "Portugal", na sua mais remota origem, terá começado por vestir a pele de um vulgar apelativo, numa língua indo-europeia, celta ou pré-celta, para nomear um ancoradouro que se inscrevia na passagem do rio Douro, evoluindo para nome próprio de lugar, para topónimo, à medida que as gentes do lugar e as gentes que ao lugar chegavam construíam a história deles e a nossa. E foi essa história que juntou o portus romano ao cale celta, para que todos, os que estavam e os que vieram, soubessem do que se falava. A paz romana terá acrescentado importância ao povoado, estrategicamente situado para movimentar pessoas e coisas, entre a Lusitânia e a Galécia. A crise do século III, a instabilidade do século IV, as invasões germânicas do início do século seguinte e a queda do Império Romano do Ocidente fizeram a história que se seguiu, por certo mais nos castros que nas margens baixas do rio. Nos alvores do século V os Suevos instalam-se no noroeste da Península, entre Douro e Minho, aqui fundando um reino de fronteiras instáveis, com a capital em Braga, que durou até 585, ano em que as armas visigóticas lhe marcaram o fim, absorvendo-o no seu reino de Toledo. A crermos nalguns indícios, transmitidos pelos documentos do período suevo, Portucale terá sido por vezes residência dos reis, que por regra estanciavam em Dume, nos arredores de Braga, e, na segunda metade do século VI, a sede de uma diocese, embora, como vimos acima, a respectiva sé estivesse algum tempo instalada em Meinedo, certamente uma consequência do cisma que opunha a ortodoxia católica ao arianismo.
A importância de Portucale cresce durante o domínio visigótico, realidade bem patente no desenvolvimento da diocese e na instalação de um centro emissor de moeda, com cunhagens conhecidas nos reinados de Leovigildo (568-586), Recáredo I (586-601), Liuva II 601-603) e Sisebuto (612-621). Perante tal quadro, podemos admitir que Portucale seria também, já no período suevo-visigótico, um centro de administração civil, certamente sob a tutela de um conde (comite-).
Nos séculos VIII-IX multiplicam-se as dificuldades, primeiro com o curto domínio muçulmano, depois com as investidas de mouros e normandos, que terão obrigado ao recuo da sede da civitas, pelo menos nos períodos mais críticos. Depois de 868, com a conquista definitiva de Portucale pelas forças neogodas de Leão, lideradas pelo prócere Vímara Peres, o território portucalense vai aumentando para Norte e para Sul, ganhando identidade e coesão, facilitadas pelo governo hereditário de uma família condal (868-1044), cujas raízes vão do referido Vímara Peres aos descendentes de Diogo Fernandes.
Portucale já não é apenas um topónimo da margem do rio Douro, é cada vez mais um corónimo de uma província ou território, governada por um dux magnus ou por um comes. A evolução desta nova realidade política acentuar-se-á a partir dos finais do século XI, durante os governos do conde Henrique, da sua viúva Teresa e de seu filho Afonso Henriques. No quadro político da Península Ibérica, será este último o grande responsável pela criação do novo Estado, que responderá pelo nome de PORTUGAL.

quarta-feira, 28 de Maio de 2008

JOSÉ ESTÊVÃO Coelho de Magalhães 1809-1862 (biografia)

Personalidade multifacetada de soldado, orador parlamentar, político, jornalista, professor e advogado, José Estêvão jamais abandonou a primeira linha da luta pela Liberdade, não recuando perante situações a que poderia ter-se acomodado, antes arriscando carreira e vida pelos seus ideais.

Filho de Luís Cipriano Coelho de Magalhães e de D. Clara Miquelina de Azevedo Leitão, José Estêvão nasceu em Aveiro a 26 de Dezembro de 1809, numa casa que os avós maternos possuíam na Rua dos Mercadores. Foi baptizado em 1 de Janeiro de 1810, na Igreja de Nossa Senhora da Apresentação, pelo vigário Dr. Manuel Rodrigues, assistindo como padrinhos o seu segundo tio, José Ribeiro de Azevedo Leitão, e a irmã deste, Luísa Teresa. Foi-lhe posto o nome de José Estêvão da Costa Magalhães, tendo mais tarde mudado o apelido “Costa” para “Coelho”.

Com receio das invasões francesas, Luís Cipriano mandou o filho recém-nascido, e a sua ama, para casa da avó materna, D. Ana Joaquina Ribeiro da Costa, onde residirá até aos 12 anos.

Em 1821 José Estêvão volta para casa de seus pais, sem ter sido ainda iniciado nas primeiras letras. Aqui encontrará três irmãos, nascidos na sua ausência: António Augusto, Luís Rufino e Maria Doroteia. Começou então a frequentar as aulas do professor de instrução primária de Aveiro, Custódio José Baptista, mas será com seu pai que aprenderá a ler. Em Junho morre-lhe a mãe.

Possivelmente em 1822, juntamente com os irmãos, frequenta a aula de primeiras letras, que funcionava no convento de Santo António, de que era professor Frei Joaquim de Santa Rita Valongo.

No ano seguinte, concluído o estudo de Gramática Portuguesa, começa a estudar Latim com José Lucas de Sousa da Silveira, Lógica com Francisco Inácio de Mendonça e Retórica com o padre Manuel Xavier de Sousa. Teve como condiscípulos, na aula de Latim, e já antes, na aula de primeiras letras, o futuro general Joaquim da Costa Cascais e Manuel José Mendes Leite.

José Estêvão apaixona-se então pela obra do árcade Filinto Elísio, obra que lê e relê. Interrogado pelo pai, afirma pretender seguir a carreira eclesiástica. Perante a oposição de Luís Cipriano, José Estêvão acaba por aceitar o ponto de vista paterno, rumando a Coimbra, onde, em 1825, o encontramos matriculado no primeiro ano de Direito, curso que interromperá ao sabor dos grandes acontecimentos políticos da época, e da sua intervenção directa nas lutas contra o Absolutismo. Em 1826 destaca-se pelas suas intervenções nos clubes políticos de Coimbra, sempre na defesa dos ideais do liberalismo e da liberdade.

Em 1828 o Vintismo sofre o último dos grandes golpes de estado, dirigido por D. Miguel, aclamado rei absoluto em vários pontos do País. A Carta Constitucional, que D. Pedro outorgara aos portugueses em Abril de 1826, deixa de vigorar, mas os baluartes do liberalismo ainda estrebucham, assistindo-se a levantamentos populares e militares no Porto, Aveiro, Coimbra, Algarve e Terceira (Açores).

José Estêvão alista-se no Terceiro Batalhão Académico, como aliás o farão Garrett e Herculano. As forças liberais acabarão vencidas, devido em grande parte à mediocridade dos seus chefes, desfecho que será sentido de forma aterradora em Aveiro, onde se sucedem as prisões e perseguições, que culminam na execução de nobres filhos desta terra, enforcados e decapitados no Porto.

Na sequência da derrota de 1828, José Estêvão foge para a Galiza, integrado no grupo que embarcou no El Ferrol, com destino à Inglaterra, onde, após o desembarque em Plymouth, os liberais portugueses procuram reorganizar-se. Entretanto, o pai, Luís Cipriano, refugia-se no Porto, em casa do padrinho, um juiz da alçada encarregado de julgar os revoltosos de 16 de Maio.

No ano seguinte estará com as forças que embarcam para os Açores, onde redigirá o jornal Chrónica da Terceira, primeiro periódico açoriano e órgão oficial da regência liberal, feito com o prelo e outro material tipográfico trazido de Londres, na mesma escuna em que embarcaram os exilados de Plymouth.

Embora não tenha participado na Batalha da Praia, estará presente em todos os combates que levaram à conquista liberal do arquipélago dos Açores. Em 1831, já sob o comando de D. Pedro, participou na tomada do Faial, de S. Jorge e de S. Miguel.

No ano seguinte, integrou as tropas que desembarcaram no Continente, na praia da Arenosa de Pampelido, tomando igualmente parte na sortida a Vila do Conde. No Porto encontra-se com o pai, que aqui se achava escondido, em casa de amigos, para fugir à fúria persecutória do revanchismo miguelista.

José Estêvão irá integrar a divisão do General Torres (depois barão do Pico do Celeiro), que ocupou a Serra do Pilar. Envolve-se activamente na defesa da capital do Norte, dirigindo o reforço das fortificações da Serra do Pilar e destacando-se em combate, o que lhe valeu o grau de cavaleiro da Torre-e-Espada, ordem entretanto restaurada por D. Pedro IV, por alvará de 28 de Julho de 1832. Pertencia então ao corpo de artilheiros académicos, onde tinha o posto de cabo, recebendo aquela alta condecoração por vontade expressa dos seus companheiros, que se recusaram a sorteá-la entre si, conforme era hábito e fora superiormente decidido. E, enquanto decorriam estes acontecimentos, era preso o seu irmão António Augusto, que passaria às cadeias de Viseu e Lamego, donde fugiu em 10 de Abril de 1834.

O reconhecimento das altas qualidades militares e humanas do jovem aveirense levam o respectivo comandante a propor a sua passagem para o exército de linha, o que vem a acontecer em 4 de Abril de 1833, sendo integrado com o posto de segundo tenente. Cinco dias depois batia-se corajosamente nos redutos e fortificações que faziam parte da linha de defesa do Porto, participando primeiro na tomada de Covelo, entre as estradas de Braga e Guimarães, para, em 25 de Julho do mesmo ano, à frente de vinte soldados quase todos mortos na acção, se cobrir de glória na defesa da Flecha dos Mortos, entre Lordelo e Foz, sendo galardoado, desta feita, com o grau de Oficial da Torre-e-Espada.

Em 1834 será promovido a primeiro-tenente e, em Fevereiro desse ano, sob o comando do marechal Saldanha, contribui mais uma vez para a vitória liberal, pelo denodo com que combate em Almoster.

A guerra civil termina nesse mesmo ano, pelo que, com a vitória liberal, José Estêvão regressa a Aveiro, donde segue para Coimbra, para continuar os seus estudos. O soldo de primeiro-tenente servirá para financiar a sua formatura, bem como a de seu irmão António Augusto que ele próprio habilitara para o ingresso na Universidade.

José Estêvão termina o curso de Direito em finais de 1836 e, no ano seguinte, é eleito deputado às Constituintes. O homem que defendera os seus ideais com as armas irá agora defendê-los com a palavra, quer no Parlamento quer na imprensa, nos jornais O Tempo, que fundou em 1838, e Revolução de Setembro, também por ele fundado em 1840, de parceria com o seu amigo, conterrâneo e companheiro de todos os momentos, Manuel José Mendes Leite.

Ainda em 1840, José Estêvão concorre e ganha o concurso para leccionar a 10ª cadeira da Escola Politécnica – Economia Política, Direito Administrativo e Comercial. O militar, político, parlamentar e jornalista é agora também professor do ensino superior.

As suas qualidades pessoais, a sua verticalidade moral e a sua benevolência estão bem patentes nalguns episódios da sua vida. A generosidade de José Estêvão ia ao ponto de se envolver, sem conhecimento do interessado, na consecução de um cargo rendoso para um conterrâneo em dificuldades, apesar deste ser seu inimigo político e de não manter com ele quaisquer relações.

O seu espírito de tolerância, e a fidelidade aos princípios que sempre o nortearam, levaram-no, em 1843, a defender em tribunal o jornal miguelista Portugal Velho, acusado de abuso de liberdade de imprensa.

A posição de que desfrutava poderia tê-lo transformado num homem acomodado, passível de vender-se a interesses políticos ou económicos, que lhe assegurassem um futuro promissor e desafogado. Mas na alma deste homem não cabiam interesses mesquinhos, nem ele se alienava, qual vendilhão do templo, aos valores materiais que jamais sobrepujaram as suas convicções morais e políticas.

A Constituição de 1838, que José Estêvão ajudara a elaborar, na sua qualidade de parlamentar constituinte, vai deixar de vigorar em 1842, na sequência do pronunciamento de Costa Cabral. Os barões do dinheiro venciam assim as forças da Revolução de Setembro de 1836, em cujas fileiras militava o distinto aveirense, e cujo ideário se identificava com a esquerda liberal ou, se preferirmos, a ala democrática do liberalismo português.

José Estêvão conspira e combate em todas as frentes, mesmo quando o seu jornal Revolução de Setembro tem de passar à clandestinidade, não deixando porém de se publicar e de chegar a todos os pontos do País. E quando, em 1844, a pressão da ditadura cabralista atenta contra as liberdades fundamentais, o capitão de artilharia José Estêvão abandona mais uma vez os confortos da vida, para pegar em armas com o Regimento de Cavalaria de Torres Vedras. Num dos seus discursos, na sessão das Cortes de 12 de Agosto de 1840, e em resposta ao ministro do Reino Rodrigo da Fonseca Magalhães, já o grande tribuno reconhecia com desassombro "que a resistência armada é, em certas ocasiões, não digo um direito, mas uma obrigação".

Encurralado na praça de Almeida, demitido do posto de capitão e de lente da Escola Politécnica, José Estêvão consegue, com mais dois oficiais, romper o cerco e deslocar-se para Trás-os-Montes, onde tenta sublevar várias localidades. O malogro destas tentativas e a notícia da rendição de Almeida obrigam-no a exilar-se em Paris, onde se conservará durante cerca de dois anos, com residência no n.º 20 da rua Laffite. Entretanto, com data de 16 de Abril de 1844, a 1ª Repartição da 3ª Direcção do Ministério do Reino publicava uma circular, assinada por António Bernardo da Costa Cabral que, em nome da rainha, prometia "a quantia de um conto de reis" a quem entregasse os fugitivos de Almeida ao governador civil. Este episódio viria a inspirar o escritor Joaquim Leitão, que nele se baseou para escrever o conto Cabeça a Prémio, dedicado a Luís de Magalhães, filho de José Estêvão.

Em 1846, na sequência da sublevação da Maria da Fonte, cai o governo dos Cabrais, o que permitirá o repatriamento de José Estêvão, beneficiando da amnistia que o ministério Palmela decretara para os revolucionários de 1844. Em 5 de Outubro daquele ano aparece o programa setembrista redigido por José Estêvão, com o qual a esquerda liberal pretendia pôr cobro à situação político-militar resultante da ditadura cabralista e do levantamento da Maria da Fonte.

D. Maria II assusta-se com o evoluir dos acontecimentos e acaba por promover o golpe de Estado de 6 de Outubro, demitindo o gabinete chefiado pelo duque de Palmela. O novo ministério, agora sob o comando do duque de Saldanha, apressou-se a dissolver o Parlamento e a restabelecer a antiga lei eleitoral.

O País vai-se revoltando aqui e ali, do Norte ao Sul, enquanto José Estêvão, que tinha retomado a direcção do jornal Revolução de Setembro, se vê forçado a homiziar-se para escapar à prisão. Conseguindo, sob disfarce, fugir de Lisboa, aparece a trabalhar na organização das forças revolucionárias, sucessivamente em Santarém, Caldas da Rainha, Alcobaça e Nazaré. Em Dezembro encontramo-lo envolvido na formação da Junta de Setúbal e, no ano seguinte, percorre o Alentejo na luta de guerrilha – a Patuleia alastrava por todo o território nacional.

A pacificação virá de seguida, imposta por forças espanholas, francesas e inglesas que a rainha chamara a Portugal. Em 24 de Junho de 1847 a Convenção de Gramido põe fim à guerra civil e José Estêvão, novamente amnistiado, retoma o magistério da Escola Politécnica, mas fica proscrito do Parlamento na legislatura de 1848-1850.

Em 1848, uma intervenção do duque de Saldanha nas Cortes, afirmando ser necessário «esmagar com mão de ferro a hidra revolucionária», deu lugar à chamada "Conspiração das Hidras", em cujo grupo pontificavam nomes como Oliveira Marreca, Rodrigues Sampaio e José Estêvão, que, durante algum tempo, defenderam soluções republicanas para a política nacional. A repressão policial não se fez esperar e José Estêvão viu-se obrigado a passar mais uma vez à clandestinidade. No ano seguinte regressa de novo à regência da sua cadeira na Escola Politécnica e, em 1851, pela mão da Regeneração, voltará ao Parlamento. É neste período que se bate pela construção do Liceu de Aveiro e pela passagem, nesta cidade, do caminho-de-ferro Lisboa-Porto.

O exílio em Paris, que certamente lhe permitiu observar de perto a instabilidade europeia e a insatisfação francesa, quiçá o germinar dos acontecimentos de 1848, e uma natural inquietação perante a permanente fragilidade política e social do seu País, onde a recuperação económica se mostrava inadiável e as reformas de fomento se impunham, devem ter empurrado o tribuno para os braços da Regeneração.

Esta fidelidade à ordem regeneradora, que pode a priori ser percebida como uma incoerência do seu percurso político, só será quebrada em 1860, aquando do gabinete presidido por Joaquim António de Aguiar, embora já se adivinhe em 1857, quando, na sessão parlamentar de 23 de Maio, ocupando a sua "antiga cadeira de deputado da extrema esquerda", discursou sobre o "Contrato do Tabaco".

O ilustre parlamentar parece sentir o peso de uma certa incompreensão face às suas opções políticas, e é nesse sentido que interpretamos as suas sucessivas explicações e justificações. No entanto, não devemos esquecer que tanto os regeneradores como os históricos eram facções da mesma família política, o chamado Partido Progressista, nascido da coligação de todas as forças liberais que se opunham ao Cabralismo. Convém igualmente lembrar que, até ao último quartel do século XIX, não podemos falar de partidos no moderno sentido do termo. Os diferentes grupos políticos tinham uma débil organização e eram. Frequentemente, muito indefinidos nos aspectos ideológicos e programáticos.

José Estêvão já em 1857 mostrava o seu descontentamento pelo crescente oportunismo político, e pelos trânsfugas que se iam vendendo ao ritmo das mordomias, privilegiando com as suas diatribes o ministro António José d’ Ávila, que o gabinete progressista do marquês de Loulé fora recuperar das antigas hostes cartistas e cabralistas. Aliás, seriam gabinetes presididos pelo marquês de Loulé, companheiro político do tribuno aveirense ao longo de quase todo o segundo quartel de Oitocentos, o alvo dos discursos mais famosos e vibrantes do estro estevaniano. Referimo-nos aos discursos sobre as questões da "Charles et Georges", a barca francesa apresada em Moçambique com um carregamento de escravos, e das "Irmãs da Caridade", instituição religiosa autorizada pelo governo a instalar-se em Portugal.

O probo e distinto orador alardeara sempre uma grande independência intelectual e uma invulgar coerência cívica e política, que facilmente captamos nas suas mais importantes intervenções parlamentares. Em 1840 já se insurgia contra a promiscuidade política, contra o amálgama ordeiro, agrinaldando o discurso do "Porto Pireu" com algumas comparações de ironia demolidora:

o centro da Câmara é um fidalgo d'aldeia, que se pretende aparentar com todos os titulares, por consanguinidade, por afinidade, e até por bastardia!

Quando se afastou da Regeneração e enveredou, desiludido mas não vencido, por um certo isolacionismo político, José Estêvão parece ter sentido necessidade de se explicar perante o eleitorado, como no manifesto por ele assinado e datado de 21 de Abril de 1861, dirigido aos "Snrs. Eleitores do Círculo d’ Aveiro":

Era natural, se falássemos, que me perguntásseis a que partido eu pertenço. E talvez não, que os genealogistas políticos vão sendo raros, e os eleitores a quem me dirijo prezam mais actos de boa governação do que pergaminhos partidários. […]

Eu pertenço ao partido histórico pela parte que tomei em todas as suas lutas parlamentares e armadas para sustentar as liberdades públicas.

Pertenço ao partido regenerador por lhe ter dado o fraco concurso do meu voto nos muitos cometimentos com que ele despersuadiu o país d’ uma política de teorias e paixões para o ocupar de melhoramentos reais e civilizadores. Para o futuro pertencerei de certo ao partido que começa a formar-se […].

O tribuno, que já era pai de um filho natural, Mateus Luís Coelho de Magalhães, fruto de amores de estudante coimbrão, casou-se em 1858 com D. Rita de Moura Miranda. No ano seguinte nascia o seu filho Luís de Magalhães e, em 1860, a filha Joana, que viria a falecer um ano depois, quando o progenitor andava envolvido na campanha eleitoral.

O ano de 1861 é para José Estêvão um ano de forte actividade política. Para além de participar na organização de um novo partido, como se pode perceber pelo fragmento do manifesto eleitoral atrás transcrito, ganha as eleições em candidatura de oposição ao governo. Neste mesmo ano vende o jornal Revolução de Setembro, passando a colaborar activamente, desde o seu primeiro número, no jornal A Liberdade, fundado em 26 de Junho por Jacinto Augusto de Freitas Oliveira, seu sobrinho por afinidade, já que era casado com a filha de António Augusto Coelho de Magalhães. Em Aveiro, perante a hostilidade de Manuel Firmino de Almeida Maia, proprietário do jornal Campeão das Províncias e seu ex-correligionário, funda, com um grupo de amigos, o periódico Districto de Aveiro.

Entretanto, para além de continuar a trabalhar nas habituais tarefas políticas, José Estêvão irá privilegiar a Confederação Maçónica Portuguesa, da qual é eleito Grão-Mestre em 1862. Com tradições maçónicas na família, já que seu pai, Luís Cipriano, pertencera à Loja que em 1823 funcionava em Aveiro, na Quinta dos Santos Mártires, José Estêvão foi iniciado no exílio de Plymouth, em 1828, com o nome simbólico de Pórcio. Tendo ascendido ao sétimo grau do Rito Francês (Soberano Príncipe Rosa Cruz), o tribuno aveirense foi Venerável da Loja 5 de Novembro, de Lisboa.

Entre 1861 e 1862 envolve-se na fundação do Asilo S. João, em Lisboa, e de um asilo para a infância desvalida em Aveiro.

Repentinamente, em 4 de Novembro de 1862, quando nada o fazia prever, morre em Lisboa, deixando a esposa grávida do filho que nascerá postumamente e que será baptizado com o mesmo nome do pai.

O duque de Loulé, chefe do ministério histórico que governará o País de 1860 a 1865, envidava esforços, através de amigos comuns, no sentido de o trazer ao governo, pretendendo entregar-lhe a pasta do Reino.

Como se afirmava no seu elogio fúnebre, publicado em 1862 no Archivo Pittoresco (tomo V, p. 338),

Privando com o poder, muitas vezes, e nalgumas o seu maior esteio no parlamento, nunca ambicionou o governo, não solicitou nem aceitou mercês ou condecorações. O peito onde pulsava tão grande coração, só se ornou com a Torre-e-Espada, ganha no campo de batalha, e com o colar da Academia das Ciências, que lhe foi conferido pelo seu talento oratório. Eram os troféus que havia conquistado nos dois campos de lide em que tantas vitórias alcançara, e os emblemas da sua profissão – as armas e as letras.

JOSÉ ESTÊVÃO Coelho de Magalhães (bibliografia activa e passiva)



AMORIM, Francisco Gomes deGarrett: Memórias biográficas. Lisboa: Imprensa Nacional, 1881. 3 vol.

AMzalak, Moses Bensabat Do estudo e da evolução das doutrinas económicas em Portugal. Lisboa: Of. Graf. Museu Comercial, 1928. 277 p.

ARANHA, Brito – Factos e homens do meu tempo: memórias de um jornalista. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1907-1908. 3 vol. Ver vol. 1.

Arquivo Pitoresco: Semanário Ilustrado. Dir. e redactor principal António da Silva Túlio. Lisboa: Castro, Irmão & C.ª. Tomo V (1862), p. 337-340. – [José Estêvão]. Com gravura de Nogueira da Silva. Integra extractos de uma lição de Economia Política na Escola Politécnica, segundo apontamentos de José Horta, aluno de José Estêvão naquele estabelecimento de ensino.

ARRIAGA, José de – História da Revolução de Setembro. Lisboa: Tip. da Companhia Nacional Editora, [1892]. 3 vol. (726+547+689 p.)

AUTO DE INAUGURAÇÃO do retrato de José Estêvão Coelho de Magalhães, que os estudantes da Cidade de Aveiro mandaram colocar na Sala da Biblioteca do liceu nacional da mesma cidade. 21 de Outubro de 1866. Colecção da Escola Secundária José Estêvão de Aveiro.

AUTO DE INAUGURAÇÃO do monumento erigido à memória de José Estêvão Coelho de Magalhães. 12 de Agosto de 1889. Colecção da Escola Secundária José Estêvão de Aveiro. Trata-se do auto de inauguração da estátua que existe em Aveiro, na Praça da República.

AVEIRENSE (O). Aveiro. Ano III, nº 111 (26 Dez. 1909). Director: Ernesto de Freitas; redactor: António Simões Cruz.

[AZEVEDO, João de] – Quadro politico, histórico e biográfico do Parlamento de 1842. Lisboa: Tip. de Manuel de J. Coelho, 1845. 136 p. Saiu anónimo, assinado “por um Eremita da Serra d'Arga”; ver p. 110.

BRAGA, Teófilo – História das ideias republicanas em Portugal. Pref. Manuel Roque de Azevedo. Lisboa: Vega, [D.L. 1984]. 174 p. (Documenta histórica; 7). Primeira edição de 1880, Nova Livraria Internacional.

BRAGA, Teófilo – História do romantismo em Portugal. 1ª ed . Lisboa: Ulmeiro, 1984. 519, [6] p. (Ulmeiro. Universidade; 6). Fac-simile da edição de 1880. Há uma edição de 1987, do Círculo de Leitores, em 2 vol., nº. 3 e 4 da colecção “A geração de 70”.

CACHIM, Amadeu – A Costa Nova de outros tempos. In Boletim da ADERAV. Aveiro: ADERAV. Nº 8 (Dez.1982-Fev. 1983), p. 5-9.

CANDAL, Manuel da Costa – Passagem pela ilha do Faial de José Estêvão. In Litoral. Dir. David Cristo. Aveiro. Nº 237 (9 Maio 1959), p. 1. Com fotografia do busto de José Estêvão do escultor italiano Calmetti.

CÂNDIDO, António – Discursos e conferências. Porto: Companhia Portuguesa Editora, 1917. 302 p. Nas p. 261-287 encontra-se o capítulo “Discurso em honra de José Estêvão, proferido na cidade de Aveiro na noite de 11 de Agosto de 1889”.

CARVALHO, João Carlos de Almeida – Duas palavras ao autor do "Esboço histórico de José Estêvão", ou refutação da parte respectiva aos acontecimentos de Setúbal em 1846‑1847, e a, outros que com aqueles tiveram relação. Lisboa: Tip. Universal, 1863. 44 p.

CARVALHO, Manuel José Gonçalves de – José Estêvão Coelho de Magalhães: 1809-1862. In Encontro de Professores de História da Zona Centro, 10, Aveiro, 1992 – Aveirenses Ilustres: Retratos à minuta. Aveiro, 1992. p. 27-33

CASA (A) de José Estêvão em Eixo: Paredes modestas que abrigaram dois grandes cidadãos. In Arquivo Nacional. Dir. de Rocha Martins. Lisboa: Empresa Nacional de Publicidade. Vol. 4, nº 166 (13 Mar. 1935), p. 171.

CASTELO BRANCO, Camilo – Maria da Fonte: a propósito dos Apontamentos para a história da revolução do Minho em 1846, publicados pelo...Padre Casimiro. 2ª ed . Porto: Lello & Irmão, 1901. 299 p. 1ª edição em 1885, Porto, Livraria Civilização; transcreve, na íntegra, o discurso de José Estêvão aquando da sua tomada de posse do malhete da Confederação Maçónica Portuguesa.

Castilho, António Feliciano de; Oliveira, J. A. de Freitas de – A Questão Literária a propósito do Jazigo de José Estêvão. Lisboa: Tipografia da Gazeta de Portugal, 1866. 16 p. Cartas dos senhores A. F. Castilho e J. A. de Freitas de Oliveira.

CASTRO, Armando de – O pensamento económico no Portugal moderno: De fins do século XVIII a começos do século XX. Lisboa: Instituto da Cultura Portuguesa, 1980. 173 p. (Biblioteca Breve; 48). p. 95.

CASTRO, Augusto de – Cinco figuras: Camilo, Garrett, Junqueiro, José Estêvão, Gregório Marañon. Ilustr. de Abel Manta e Benito Pietro. Lisboa: Emp. Nac. de Publicidade, [D.L. 1963]. 119, [2] p.

CENTRO REPUBLICANO DEMOCRÁTICO DE LISBOA. Comissão de Propaganda –
José Estêvão: duas palavras. Lisboa: Imprensa Democrática, 1878. 16 p.

CERQUEIRA, Eduardo – A emoção e suposições que causou a morte de José Estêvão. In O Litoral. Dir. David Cristo. Aveiro. Nº 113 (1 Dez. 1956), p. 1, 6.

[CERQUEIRA, Eduardo] – Fundação José Estêvão (em organização). In O Primeiro de Janeiro. Porto. (21 Agos. 1958). A fundação não chegaria a legalizar-se, devido à oposição do Estado Novo e à perseguição da P.I.D.E., que chegou a confiscar materiais alusivos a José Estêvão, destinados pelos organizadores à futura Casa-Museu.

CERQUEIRA, Eduardo – José Estêvão apreciado pelo filho: dois discursos de Luís de Magalhães. Nota preambular de Eduardo Cerqueira. In Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. Vol. 28, n.º 112 (1962), p. 258-275. Fez-se separata.

CERQUEIRA, Eduardo – José Estêvão e os Ferreira Pinto Basto. In O Litoral. Dir. David Cristo. Aveiro. Ano VIII, nº 391 (21 Abril 1962), p. 1, 4.

CERQUEIRA, Eduardo – Como Lisboa comemorou o centenário do nascimento de José Estêvão. In O Litoral. Dir. David Cristo. Aveiro. Nº 393 (5 Maio 1962), p. 1, 3.

CERQUEIRA, Eduardo – José Estêvão visto por contemporâneos. In O Litoral. Dir. David Cristo. Aveiro. Nº 415 (6 Out. 1962), p. 1, 5.

CERQUEIRA, Eduardo – José Estêvão e Rodrigues Sampaio. In O Litoral. Dir. David Cristo. Aveiro. Nº 416 (13 Out. 1962), p. 1, 5.

CERQUEIRA, Eduardo – José Estêvão e Alberto Souto. In O Litoral. Dir. David Cristo. Aveiro. Nº 419 (3 Nov. 1962), p. 1, 3.

CERQUEIRA, Eduardo – A reivindicta de um antigo amigo: José Estêvão e Costa Cabral. In O Litoral. Dir. David Cristo. Aveiro. Nº 423 (1 Dez. 1962) p. 1, 5; nº 425 (15 Dez. 1962), p. 1, 9; nº 429 (12 Jan. 1963), p. 1, 3.

CERQUEIRA, Eduardo – Camilo e José Estêvão. In Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. Vol. 29, nº 114 (1963), p. 81-93. Fez-se separata.

CERQUEIRA, Eduardo – José Estêvão e o seu fecundo aveirismo. In Aveiro e o seu Distrito. Aveiro. N.° 2 (1966), p. 38-47. Fez-se separata.

CERQUEIRA, Eduardo – Um irmão de José Estêvão esquecido: Apontamentos biográficos de António Augusto Coelho de Magalhães. In Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. Vol. 38, Nº 150 (1972), p. 81-110. Fez-se separata.

CERQUEIRA, Eduardo – A abolição da pena de morte por crimes políticos, e o seu paladino aveirense. In Aveiro e o seu Distrito. Aveiro. N.° 29 (1981), p. 46-56. (Vd. p. 52). Fez-se separata.

CERQUEIRA, Eduardo – Evocação de uma romagem estevaniana por terras açorianas. In Boletim da ADERAV. Aveiro: ADERAV. Nº 10 (Dez. 1983), p. 11-14.

CHAGAS, Manuel Pinheiro (dir.) – Dicionário popular: histórico, geográfico, mitológico, biográfico, artístico, bibliográfico e literário. Lisboa: Lallemant Frères 1876-1886. 16 vol. Ver vol. VII, p. 381-384.

Club Escolar José Estevão (ed.)José Estêvão: comemorativo da inauguração do monumento em Aveiro. Aveiro: Tip. da Companhia Nacional Editora, 1889. Número único; com desenho da estátua de José Estêvão em Aveiro, gravado por D. Neto; colaboraram: Magalhães Lima, Luís de Ornelas Pinto Coelho, Alberto Bessa, Guilherme de Sousa, António de Campos Júnior, Xavier da Cunha, Heliodoro Salgado, Teixeira de Brito, J. A. Reis e Vila, Joaquim dos Anjos, Rodrigues de Freitas, Carlos Calixto, J. C. Rodrigues da Costa, Alfredo Cabral, José Elias Garcia, S. Rodrigues Soares, Joaquim Martins de Carvalho, M. Domingos Pereira, Feio Terenas, Andrade Neves, Bulhão Pato, Alfredo Serrano, Augusto Peixoto, Eduardo Coelho, Eugénio Silveira, Reinaldo Vilhena, Gomes da Silva, Júlio de Freitas e F. A. De Matos.

COELHO, José Ramos – José Estêvão. In Revista Contemporânea. Tomo IV, p. 417. A propósito da morte do tribuno.

COIMBRA-AVEIRO. Coimbra. Número único (9 Ago. 1914). Proprietário: Jerónimo Ferreira da Silva; editor: Joaquim Lóio.

COMISSÃO PROMOTORA DAS COMEMORAÇÕES DO ANIVERSÁRIO DA REVOLUÇÃO LIBERAL DE 16 DE MAIO DE 1828 (ed.) – 16 de Maio de 1828. Desenhos de Lima de Freitas. Aveiro: Comissão Promotora do Aniversário da Revolução Liberal, 1956. 24 p.

[COSTA, Aurélio] – A comemoração do centenário de José Estêvão. In O Século. Lisboa. (10 Abr. 1962).

COSTA, Jorge Manuel Couceiro da – Pessoas e factos de outros tempos. In Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. Vol. 12, Nº 46 (1946), p. 156-158.

[COUTINHO, João de Azevedo Sá] – Ver AZEVEDO, João de

CRISTO, Homem – Notas da minha vida e do meu tempo. Lisboa: Guimarães, 1939. 7 vol. Várias referências a José Estêvão; no vol. IV, p. 5-38, desenvolve a questão das irmãs de caridade.

DEMOCRATA (O). Órgão semanal do Partido Republicano do Distrito de Aveiro. Aveiro, Rua Direita, nº 108. Ano II, nº 97 (26 Dez. 1909). Director: Arnaldo Ribeiro.

DIÁRIO ILUSTRADO. Regenerador-Liberal. Lisboa. Ano XXXIX, nº 13043 (28 Dez. 1909). Director: Álvaro Pinheiro Chagas.

DISTRITO DE AVEIRO (O). Número especial deste "jornal político e noticioso" fundado por José Estêvão. Aveiro: Imp. Comercial, Rua José Estêvão. Ano XVIII, N.º 1805 (12 Ago. 1889), 4 p., formato 55x38 cm, impresso com tinta azul; com o retrato (19x20 cm) de José Estêvão Coelho de Magalhães, o "grande orador parlamentar". Publicado este número em "homenagem à saudosa memória do eminente tribuno e notável patriota José Estêvão Coelho de Magalhães", por ocasião de se erigir o seu monumento em Aveiro. Colaboraram: Lourenço de Almeida e Medeiros, F. J. Patrício, S. M., Ponce Leão Barbosa, Acácio Rosa, J. G.

DÓRIA, António Álvaro – ESTÊVÃO Coelho de Magalhães, José (1809-1862). In SERRÃO, Joel, dir. – Dicionário de História de Portugal. Porto: Iniciativas Editoriais, 1979. Vol. II, p. 463-464.

Doze de Agosto. Águeda: Tipografia Comercial. Número único (12 Ago. 1889), 8 p. Formato 33x24,5cm; impresso com tinta azul. Publicação dedicada à memória de José Estêvão Coelho de Magalhães, pela redacção do jornal Constituinte e pela academia aveirense, com o retrato do ilustre orador (12x10 cm); colaboraram: Manuel de Arriaga (primeiro artigo), Serafim Loureiro, Manuel Ribeiro de Figueiredo, Vidal Oudinot, Emídio Garcia, Alexandre da Conceição, Virgínia da Conceição, Horácio de Araújo Nogueira e Melo, Rodrigues d'Avim, Augusto Martins, Francisco Regala Júnior, J. Ferreira da S. e Castro, José Vidal Cunha e Costa, Bernardo Simões de Carvalho, Manuel dos Santos e Silva, Bento Guimarães Júnior.

EFEMÉRIDES Aveirenses. In Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. Vol. 2, nº 6 (1936), p. 161-163; vol. 2, nº 8 (1936), p. 323-325; vol. 3, nº 12 (1937), p. 315-316.

ESTÊVÃO, José – Discurso pronunciado na discussão da resposta ao discurso do Trono na sessão de 6 de Fevereiro de 1840. Lisboa: Imprensa Nacional, 1840.

ESTÊVÃO, José – Discurso proferido na sessão de 13 de Fevereiro de 1840, em resposta ao do Sr. Garrett, e sobre a Questão Inglesa. Lisboa: Imprensa. Nacional, 1840. 55 p.

ESTÊVÃO, José – Discurso do senhor José Estevam Coelho de Magalhães pronunciado na sessão de 12 [sic] de Fevereiro de 1840. Porto: Typ. de Faria & Silva 1840. 111 p.

ESTÊVÃO, José – Discurso pronunciado em defesa do jornal "O Portugal Velho" no julgamento da querela que contra ele deu o Ministério Público. In Sessão do julgamento do Portugal Velho. Lisboa: Phenix, 1843. 32 p.

ESTÊVÃO, José – Elogio histórico de José Ferreira Pinto Basto. In Memorias do Conservatório Real de Lisboa. Lisboa, 1843, tomo II, p. 17-24. Ver GOMES, Marques – A Vista Alegre.

ESTÊVÃO, José – Quatro Palavras em Resposta ás Duas do Sr. José Vitorino Barreto Feio à "Revolução de Setembro". Lisboa: Typ. da rua do Almada n.º 5, 1849. 44 p.

ESTÊVÃO, José – Discursos Parlamentares de José Estevão Coelho de Magalhães. Coleccionados por Joaquim Simões Franco. Aveiro: António Augusto de Souza Maia, 1878. 474 [3] p.

ESTÊVÃO, José – Nova Colecção de Discursos Parlamentares de José Estêvão Coelho de Magalhães. Org. de Joaquim Simões Franco. In O Varino. Redactor Renato Franco. Aveiro: Minerva Económica. Nº 3 (21 Mar. 1897). Esta colecção, que começou a publicar-se no nº 3 do jornal aveirense O Varino, pretende ser um complemento aos “Discursos Parlamentares” publicados em 1878.

ESTÊVÃO, José – Discursos Parlamentares: Com um Apêndice contendo vários artigos jornalísticos, a defesa do Portugal Velho, etc. Livraria Chardron, 1909. 378 [3] p. Edição do Centenário.

ESTÊVÃO, José – José Estêvão: Estudo e Colectânea. Aveiro: Edição da Comissão do Centenário, 1962. 199 [4] p. Colectânea de artigos e extractos de intervenções parlamentares, antecedida de um “Estudo” da autoria de seu filho Luís de Magalhães (p. 14-57).

Estêvão, José – Obra Política. Pref. rec. e notas de José Tengarrinha. Lisboa: Portugália Editora, 1962-1963. 2 vol. [CXV, 353; XII, 441 p.]. (Colecção Portugália; 3 e 4). Bibliografia p. 431-441.

ESTÊVÃO, José – Discursos Parlamentares. Aveiro: Câmara Municipal de Aveiro, 1983. LI, 378 [3] p. Precedido, nas páginas VII a LI, de um “Estudo” da autoria de seu filho Luís de Magalhães. Reimpressão fac-similada da 1ª ed. de 1909.

ESTÊVÃO, José – O absurdo do ateísmo. In Boletim Municipal de Aveiro. Aveiro: Câmara Municipal. Nº 22 (Dez. 1993), p. 24.

FAFES, Aprígio [pseud. de Eduardo Tavares] – Galeria parlamentar ou para-lamentar de 1858 contendo uma apreciação imparcial... Lisboa: Tipografia de Joaquim Germano de S. Neves, 1858. 16 p.

FIGUEIREDO, Fidelino de – História da literatura portuguesa: manual escolar. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1918. 231 p. Ver p. 202, capítulo “Eloquência”

FIGUEIREDO, Fidelino de – História da literatura romântica: 1825-1870. 2ª ed. ver. Lisboa: Clássica Editora, 1923. 324 p. (Biblioteca de estudos históricos nacionais ; 4). Ver p. 290-295.

FIGUEIREDO, Fidelino de – Historia de la literatura portuguesa. Traducción del marqués de Lozoya. Barcelona-Buenos Aires: Editorial Labor, [1927]. 391 p. Ver p. 295, capítulo “Elocuencia”.

FOLHA DE TORRES VEDRAS. Torres Vedras. Ano X, nº 511 (26 Dez. 1909). Director: Júlio Vieira; periodicidade: semanário, saía aos domingos.

FRANCO JÚNIOR, Francisco Soares – O pregador católico. Porto: Viuva Moré, 1865. Inclui a “Oração fúnebre nas exéquias de José Estêvão Coelho de Magalhães”, p. 371-387.

FREITAS, [Joaquim de] Melo – Centenário de José Estêvão: Conferência proferida em 30 de Abril de 1909. Aveiro, 1909.

FREITAS, [Joaquim de] Melo – A Família de José Estêvão: Conferência realizada no “Clube Mário Duarte” (Aveiro) no dia 15 [14] de Agosto de 1909. Aveiro, 1909. 14 p.

FREITAS, Joaquim de Melo – José Estêvão. In Escola Popular: Semanário Literário, Instrutivo e Noticioso. Águeda. N.º 51 (16 de Maio de 1871), p. 402-405. Este semanário publicou-se de 1870 a 1871. Existe uma edição fac-similada de 1999, editada pelo semanário aguedense "Soberania do Povo".

FREITAS, Joaquim de Melo – Violetas. Porto: Imprensa Portuguesa, 1878. 402 [9] p. Ver capítulo “Palavras e acções de José Estêvão”, p. 137-180.

FRONTEIRA e de ALORNA, Marquês de – Memórias do Marquês de Fronteira e d'Alorna, D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto ditadas por ele próprio em 1861. Rev. e coord. por Ernesto de Campos de Andrada. Fac-simile da 1ª edição, editada em Coimbra pela Imprensa da Universidade. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1986. 5 vol., sendo o último de “Apêndice”. A presente obra está dividida em 8 partes, relatando-nos os acontecimentos políticos, militares, religiosos e sociais, que decorrem entre 1802 e 1853, incluindo a altura das invasões francesas, o protectorado inglês, o vintismo, o regresso da Família Real do Brasil e a guerra civil; ver partes 5ª e 6ª (vol. 3); 7ª e 8ª (vol. 4).

GAIO, [António da] Silva – Mário. Introd. De Fernando Pereira Marques. Lisboa: Publicações Alfa, 1990. 2 vol. (214+216 p.). (Testemunhos Contemporâneos; 31, 32). José Estêvão é uma das personagens deste romance histórico. Reprodução fiel da edição de 1868, a primeira e única revista pelo autor.

GARCIA, José Elias – Discurso proferido (na grande loja da confederação maçónica portuguesa) em 20 de Dezembro de 1862 e para comemorar o falecimento do respeitável grão‑mestre e irmão José Estêvão Coelho de Magalhães. Lisboa: 1862.

GOMES, Marques – Memórias de Aveiro. Aveiro: Tipografia Comercial, 1875. 211 [4] p.

GOMES, Marques – O distrito de Aveiro: noticia geográfica, estatística, corográfica, heráldica, arqueológica, histórica e biográfica da cidade de Aveiro e de todas as vilas e freguesias do seu distrito. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1877. 308, [1] p.

GOMES, Marques – Manuel José Mendes Leite: esboço biográfico. Porto: Tip. Comércio e Industria, 1881. 31 p.

GOMES, Marques – José Estêvão: Apontamentos para a sua biografia. Porto: Tip. Ocidental, 1889. 184 p.

GOMES, Marques – Lutas caseiras: Portugal de 1834-1851. Lisboa: Imprensa Nacional, 1894. CLXXVI, 630 p. Só foi publicado o 1º volume; o autor transcreve, com uma crítica muito negativa, o trabalho de ARRIAGA, José de – A verdade histórica e a História da Revolução de Setembro, p. 483-620.

GOMES, Marques – Cinquenta anos de vida pública: O Conselheiro Manuel Firmino d'A. Maia. Aveiro: Tip. do Campeão das Províncias, 1899. [6], 669 p.

GOMES, Marques – Subsídios para a história de Aveiro. Aveiro: Tip. do Campeão das Províncias, 1899. 631, [1] p.

GOMES, Marques – Aveiro: berço da liberdade: o Coronel Jerónimo de Morais Sarmento. Porto: Imprensa Portuguesa, 1899. 312 p. Vária referências a José Estêvão, especialmente p. 144-145.

GOMES, Marques – 1º Centenário do Nascimento de José Estêvão: contribuição prestada. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1909. 32 p.

GOMES, Marques – Aveirenses que morreram, sofreram e combateram pela liberdade: Monumento levantado à sua memória pelo Clube dos Galitos. Aveiro: Tip. do Campeão das Províncias, 1909. 37 p. No primeiro centenário do nascimento de José Estêvão

GOMES, Marques – A estátua de José Estêvão. In Campeão das Províncias. Aveiro. Ano LXXII (11 Ago. 1923; 18 Ago. 1923; 25 Ago. 1923; 1 Set. 1923; 8 Set. 1923).

GOMES, Marques – A Vista Alegre: memória histórica. Aveiro: Tipografia Minerva Central, 1924. 100, [1] p. Para além de outras alusões a José Estêvão, transcreve, entre as p. 50-58, o discurso do tribuno, em homenagem a José Ferreira Pinto Bastos, proferido no Conservatório Real de Lisboa em 21 de Dezembro de 1841.

GOMES, Marques – Aveiro, Berço da Liberdade: A Revolução de 16 de Maio de 1828. Aveiro: Tip. Luso. 1928. 88 p.

GRAINHA, Manuel Borges – História da franco-maçonaria em Portugal: 1733-1912: Contendo importantes informações sobre o carbonarismo, a ordem de S. Miguel da Ala, a formação do Partido Republicano Português, o restabelecimento das congregaçöes e a sua recente expulsão. Prefácio e notas de António Carlos Carvalho. Lisboa: Editorial Vega, 1976. 206 p. (Veja; 3). 1ª ed. de 1912, Lisboa, A Editora Limitada.

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Lisboa-Rio de Janeiro: Editorial Enciclopédia. Vol. X, p. 452.

GUIMARÃES, Ricardo [Augusto Pereira] – Narrativas e episódios da vida política e parlamentar: 1862 e 1863. Lisboa: Tipografia Universal, 1863. VIII, 284 p

GUIMARÃES, Ricardo [Augusto Pereira] – José Estêvão. In Revista Contemporânea de Portugal e Brasil. Lisboa: Sociedade Tip. Franco‑Portuguesa. Vol. V (1863), p. 128.

Hino a José Estêvão. In Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. Vol. 28, n.º 112 (1962), p. 318-319.

Homenagem do Arquivo do Distrito de Aveiro a José Estêvão Coelho de Magalhães no 1º centenário do seu falecimento 4 de Novembro de 1862. Aveiro: [Arquivo do Distrito de Aveiro], 1962. 83 p.

HOMENAGEM a José Estêvão em Lisboa. In Boletim Municipal de Aveiro. Aveiro: Câmara Municipal. Nº 5 (Mar. 1985), p. 21-32.

INDEPENDÊNCIA DE ÁGUEDA. Homenagem a José Estêvão, glória do nosso distrito. Águeda. Nº 1587 (23 Jun. 1962). Colaboração de Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Flausino Torres, Mário de Azevedo Gomes, Sant’Ana Dionísio, etc.

JANEIRO, Padre Francisco de Sousa – Oração fúnebre nas solenes exéquias do Sr. José Estêvão Coelho de Magalhães mandadas celebrar na Igreja da Misericórdia d’Aveiro pelos artistas da mesma cidade no dia 22 de Abril de 1863. Aveiro: Tip. do Distrito de Aveiro, 1863. 18 p.

JORNAL DE AVEIRO. A José Estêvão Coelho de Magalhães – o Jornal de Aveiro. Semanário Republicano. Responsável: Ernesto António de Freitas. Aveiro: Of. imp. Rua do Sol, n.º 10. Ano I, N.º 25 (12 Ago. 1889), 4 p., 50x36 cm. Número especial deste "semanário republicano", comemorando a inauguração da estátua de Aveiro. Com o retrato do grande orador no texto da primeira página, gravado por Alberto (13,5x11 cm); na segunda página três estampas, gravadas por Pastor, representando: a. Casa onde nasceu José Estêvão; b. Vista exterior da capela do cemitério, onde jazem os restos mortais do grande tribuno; c. O interior da capela. Na terceira página, o retrato de Jerónimo Morais Sarmento (7,5x6 cm) gravado por Pastor e, na quarta página, gravado pelo mesmo, o retrato de Manuel José Mendes Leite (8x6 cm). Colaboraram: Albano Coutinho, [Sebastião] de Magalhães Lima, Jaime de Magalhães Lima, Y., A. Portocarrero, Cunha Coelho, Jaime, A. B., Adriano Costa, M. Dias Ferreira, Jaime Duarte Silva.

[José Estêvão]. In Arquivo Pitoresco: Semanário Ilustrado. Dir. e redactor principal António da Silva Túlio. Lisboa: Castro, Irmão & C.ª. Tomo V (1862), p. 337-340. Com gravura de Nogueira da Silva. Integra extractos de uma lição de Economia Política na Escola Politécnica, segundo apontamentos de José Horta, aluno de José Estêvão naquele estabelecimento de ensino.

Legendas da Cidade Invicta: O Caminho de ferro do Porto. O que foi o Contrato Peto – Discussões Parlamentares – José Estêvão contra o Ministro das Obras Públicas – A dissolução do contrato – Onde aparece D. José Salamanca – A Linha do Norte – Estação de Campanha. In Arquivo Nacional. Dir. de Rocha Martins. Lisboa: Empresa Nacional de Publicidade. Vol. 4, nº 175 (15 de Maio de 1935), p. 324-325.

Legendas da Cidade Invicta: Portuenses Ilustres: Almeida Garrett e o Discurso de Porto Pireu: Improviso ou cêna estudada? – O aparte de José Estêvão - A resposta brilhantíssima do grande escritor – Seu orgulho – A Câmara ante a sua oratória – A Consagração do orador. In Arquivo Nacional. Dir. de Rocha Martins. Lisboa: Empresa Nacional de Publicidade. Vol. 2, nº 110 (16 de Fevereiro de 1934), p. 916-917.

LEITÃO, Joaquim – Cabeça a Prémio (contos). 2ª ed. Porto: Companhia Portuguesa Editora, 1921. 278 [1] p. 1ª ed. em 1917; o conto que dá o nome ao livro refere-se a episódios da vida de José Estêvão.

LEMOS, Maximiano (dir.) – Enciclopédia Portuguesa Ilustrada: Dicionário Universal. Porto: Lemos & Cª, [1900-1909]. 11 vol. Ver vol. VI, p. 748.

LIMA, Jaime de Magalhães – José Estêvão. Coimbra: França Amado Editor, 1909. 166 p.

LIMA, Jaime de Magalhães – José Estêvão: Conferência lida na Biblioteca do Liceu de Aveiro, na sessão pública de homenagem a memória de José Estêvão em a noite de 17 de Dezembro de 1927. Aveiro: Edição da revista Labor, 1928. 45 p.

LIMA, Marcelino – Famílias faialenses: Subsídios para a historia da ilha do Faial. Horta: Tip. Minerva Insulana, 1922. 733, [2] p.

LIMA, Marcelino – A loucura do ideal: Miguelistas e liberais na ilha do Faial. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1931. 269 p. Ver p. 182-191.

LIMA, [Sebastião de] Magalhães – A Revolta: Processo da Monarquia. Lisboa: Tip. Nacional, 1886. 112 p. Ver p. 16.

LIMA, [Sebastião de] Magalhães – O Centenário de José Estêvão: Homenagem da Maçonaria Portuguesa. Lisboa: Tip. La Bécarre, 1910. 21 p. Discurso pronunciado no Teatro de Aveiro em nome da Maçonaria Portuguesa.

LIMA, [Sebastião de] Magalhães – Episódios da Minha Vida. Lisboa: Livraria Universal, [1924?]. 2 vol. Vol. 1. p. 71-73.

MACEDO, António Teixeira de – Traços de História Contemporânea: 1846-1847: Em presença de alguns apontamentos dos irmãos Passos (Manuel e José) e de vários documentos oficiais. Fixação e rev. texto de Fernando Marques da Costa. Lisboa: Edições Rolim, 1984. 244, [2] p.

MACEDO, Luís Pastor de; ARAÚJO, Norberto de – Casas da Câmara de Lisboa: do século XII à actualidade. Lisboa: Câmara Municipal, 1951. 220 p., [56] p. (Inventário de Lisboa; 5). Ver reprodução de retrato de José Estêvão, existente no Salão Nobre dos Paços do Concelho, entre as p. 148 e 149, com referência na p. 160.

MADAÍL, A. G. da Rocha – Apontamentos para a História das Relações de José Estêvão com Ílhavo. In Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. Vol. 28, n.º 112 (1962) p. 277-289.

MAGALHÃES, Joana Inês de Lemos Coelho de – Luís Magalhães: A sua evolução espiritual. In Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. Vol. 25, nº 99 (1959) p. 167-198.

MAGALHÃES, José Estêvão Coelho de – Vd. ESTÊVÃO, José

MAGALHÃES, Luís de – Discurso que o Dr. Luís de Magalhães proferiu em Aveiro, por ocasião da inauguração da estátua de José Estêvão, a 12 de Agosto de 1889; Discurso que o Dr. Luís de Magalhães proferiu em Aveiro, por ocasião do centenário de José Estêvão, a 26 de Dezembro de 1909. Nota preambular de Eduardo Cerqueira. In Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. Vol. 28, n.º 112 (1962), p. 258-275.

MAGALHÃES, Luís de – José Estêvão apreciado pelo filho. Aveiro: [Arquivo do Distrito de Aveiro], 1962. 24 p. Sep. Arq. Distrito Aveiro, 28.

MAGALHÃES, Luís de – Estudo, in ESTÊVÃO, José – Discursos Parlamentares. Aveiro: Câmara Municipal de Aveiro, 1983, p. VII-LI.

MAIA, Joaquim José da SilvaMemórias historicas, politicas e filosoficas da Revolução do Porto em Maio de 1828, e dos Emigrantes Portuguezes pela Hespanha, Inglaterra, França e Bélgica. Rio de Janeiro: Typ. Laemmert, 1841. XIV, 363p.

MARQUES, A. H. de Oliveira – Dicionário de Maçonaria Portuguesa, 2 vol. Lisboa: Editorial Delta, 1986.

MARQUES, Virgílio – O maçon José Estêvão na sua conduta profana: esboço de ensaio. Viseu: V. Marques, [D.L. 1966]. 40 p.

MARTELO, David, – Cerco do Porto, 1832-33: a cidade invicta. Lisboa: Prefácio, imp. 2001. 96 p. a 2 colns: il. (Batalhas de Portugal). ISBN 972-8563-48-5.

Martins, F[rancisco de] A[ssis] de Oliveira – José Estêvão Coelho de Magalhães no centenário da sua morte. Braga: Livraria Cruz, 1962. 13 p. Separata da Independência, 22

MARTINS, Oliveira – Portugal Contemporâneo. 2 vol. Lisboa: Europa-América, [D.L. 1982]. (Livros de Bolso; 313, 318).

MARTINS, Rocha – Lisboa: história das suas glórias e catástrofes. Lisboa: Ed. Inquérito, 1947-1948. 2 vol. Ver p. 803, foto do busto em oval, e p. 805, foto do monumento quando ainda estava em frente do Parlamento.

MATTOSO, José (dir.) – História de Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores, 1992-1993. 8 vol. ISBN 972-42-0586-X. Passim.

Melo, Manuel da Costa e (1988) – Memórias cívicas: 1913-1983. Coimbra: Livraria Almedina, 1988. 412 p.

MELO, [Manuel] Costa e (1994) – Gente de Toga e Beca: Fogachos da lareira forense. Pref. de António Almeida Santos. Aveiro: Câmara Municipal de Aveiro, 1994. 166 p.

MELO, [Manuel] Costa e (1997) – Memória de Aveiro em forma de saudades: Coisas, almas, factos e pessoas. Aveiro: Câmara Municipal de Aveiro, 1997. 213 p. ISBN 972-9137-32-3.

MONTALVOR, Luís de (dir.) – História do Regime Republicano em Portugal. Lisboa: Ática, 1929. 2 vol.

MOURA, Frederico de – Antologia Aveirense. In Aveiro e o seu Distrito. Aveiro: Junta Distrital de Aveiro. N.º 10 (1970), p. 32-41 (vd. p. 36).

MOURA, Frederico de – Ressonâncias. Aveiro: FEDRAVE, 1999. 173 p. ISBN 972-8046-11-1.

NEVES, Francisco Ferreira – Documentos para a história política do distrito de Aveiro (1835-1847). In Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. Vol. 3, nº 11 (1937), p. 233-245.

NEVES, Francisco Ferreira – Uma Carta de José Estêvão sobre a passagem da via férrea em Aveiro. In Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. Vol. 8, nº 30 (1942), p. 99-101.

NEVES, Francisco Ferreira – Correspondência dos Irmãos Passos para José Estêvão. In Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. Vol. 11, nº 42 (1945), p. 130-144.

NEVES, Francisco Ferreira – Baptismo e Morte de José Estêvão. In Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. Vol. 28, n.º 112 (1962), p. 243-246.

NEVES, Francisco Ferreira – Panorama social de Aveiro em 1842. Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. vol. 29, n.º 113 (1963), p. 31-40.

Neves, Francisco Ferreira – Visconde de Almeidinha João Carlos do Amaral Osório e Sousa (1822-1890): notas genealógicas e biográficas. In Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. Vol. 30, nº 119 (1964), p. 206-222.

NEVES, Francisco Ferreira – As ideias liberais de José Maria Teixeira de Queirós, pai do romancista Eça de Queirós. Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. Vol. 40, n.º 160 (1974), p. 280-296. Vd. p. 290.

NEVES, [General] Henrique das – Individualidades: traços característicos, episódios e anedotas autênticas de indivíduos que se evidenciaram. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1910.

NORONHA, Eduardo de – O último Marquês de Nisa: a sociedade aristocrática, política, artística, democrática e estúrdia de ontem: romance de costumes. Porto: Magalhães & Moniz, [19--?]. 484 p. Ver p. 279-295, capítulo XV, intitulado “O valor da palavra”: é sobre José Estêvão e tem retrato.

OLIVEIRA, Jacinto Augusto de Freitas – José Estêvão: esboço histórico. Lisboa: François Lallemant, 1863. 407 [1] p. O autor era casado com uma sobrinha de José Estêvão, filha de António Augusto Coelho de Magalhães.

OLIVEIRA, Jacinto Augusto de Freitas – O Deus da Palavra: A José Estêvão. Lisboa: François Lallemant, [1866]. 24 p. Discurso pronunciado no dia 21 de Outubro de 1866 no acto solene da inauguração do retrato do grande tribuno no Liceu de Aveiro.

Oliveira, J[acinto] A[ugusto] de Freitas – Discurso de Freitas Oliveira acerca de José Estêvão em 1866. In Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. Vol. 35, nº 140 (1969), p. 262-272.

OLIVEIRA, Lopes d’ – História da República Portuguesa: a propaganda na monarquia constitucional. Lisboa: Ed. Inquérito, 1947. 384, [1] p.

ORTIGÃO, Ramalho – As farpas: o país e a sociedade portuguesa. Lisboa: Clássica Ed., 1942-1946. 15 vol. (Obras Completas de Ramalho Ortigão). Ver vol. XII (1871-1872), p. 111-114, em que o autor estabelece relação entre os dotes oratórios de José Estêvão e Rebelo da Silva.

OWEN, Hugh – O cerco do Porto: contado por uma testemunha. Pref. e notas Raul Brandão. 2ª ed. Porto: Renascença Portuguesa, 1920. 348 p.; il. (Biblioteca Histórica; 1).

PATO, Bulhão – A José Estêvão: versos de Bulhão Pato. Lisboa: Tip. Universal, 1866. 13 p. Versos de Bulhão Pato dedicados a José Estêvão. Estão publicados no Arquivo do Distrito de Aveiro, vol. 31, nº 123 (1965), p. 174-177. Estes versos foram lidos por José Maria Barbosa de Magalhães (tinha na altura 11 anos), em 21 de Outubro de 1866, aquando da inauguração do retrato a óleo de José Estêvão, na Biblioteca do Liceu de Aveiro.

PATO, Bulhão – Memórias. Lisboa: Tip. da Academia Real das Ciências, 1894-1907. 3 vol. Vd. vol. 2 (1894), p. 109-120, capítulo intitulado “José Estêvão na ilha do Faial: O dia dos seus anos”. Pode ser consultado em linha, no endereço http://purl.pt/248.

PATO, Bulhão – Sob os ciprestes: vida íntima de homens ilustres. 1ª ed. Lisboa: Livraria Bertrand, 1877. 366 p. (p. 137-191). Há uma edição mais recente, com notas, bibliografia e índice onomástico por Vitor Wladimiro Ferreira, editada em Lisboa pela Perspectivas & Realidades, [D.L. 1986]. 280,[1] p.

PÁTRIA (A). Diário republicano do Norte. Porto. Ano I, nº 74 (26 Dez. 1909). Director: Duarte Leite.

PEDROSO, Z[ófimo] Consiglieri – José Estêvão e a reacção religiosa. Lisboa: Tipografia Nacional, 1886. 32 p. (Propaganda Democrática: Publicação quinzenal para o povo; vol. 4). Fotografia de José Estêvão na p. 2.

PEREIRA, António Manuel – As Constituições Políticas Portuguesas (Além da Carta Constitucional e seus Actos Adicionais, as de 1822, 1838, 1911 e a Actual). Porto: edição do autor, 1961. 229 p.

PEREIRA, Augusto Xavier da Silva – Dicionário Jornalístico Português. Obra inédita; o manuscrito encontra-se na biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa.

PEREIRA, Esteves; RODRIGUES, Guilherme (dir.) – Portugal: Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico abrangendo a minuciosa descrição histórica e corográfica de todas as cidades, vilas e outras povoações do continente do Reino, Ilhas e Ultramar, monumentos e edifícios mais notáveis, tanto antigos como modernos; biografias dos portugueses ilustres antigos e contemporâneos, célebres por qualquer título, notáveis pelas suas acções, pelos seus escritos, pelas suas invenções ou descobertas; bibliografia antiga e moderna; indicação de todos os factos notáveis da história portuguesa, etc., etc. Obra ilustrada com centenares de fotogravuras e redigida segundo os trabalhos dos mais notáveis escritores por Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues. Lisboa: João Romano Torres, Editor, 1904-1915. 7 vol. (Dicionário Histórico Portugal). Ver vol. IV, p. 736-741.

PERES, Damião – História de Portugal. Barcelos: Portucalense Editora, 1935, vol. VII, passim.

PINHO, Manuel S. – A Revolta de Torres Novas: Apontamentos para a sua História. Torres Novas: Jornal O Almonda, [D.L. 1986]. 313 p. Edição fac-similada dos originais publicados em 1927 no jornal O Almonda.

POMBO, P.e Ruela – Portugal Constitucional: Dècada Primeira (1819-1828). Ed. póstuma. Bunheiro. 439 p. Perspectiva manifesta e claramente alinhada pelas posições reaccionárias do Miguelismo. ISBN 972-95380-1-8.

POVO DE AVEIRO (O). “Folha do Povo e para o Povo”. Aveiro. Ano VIII, nº 339 (12 Ago. 1889). Número comemorativo da inauguração da estátua de José Estêvão em Aveiro.

POVO OPERÁRIO (O). Aveiro: Tipografia da Vitalidade. Número único. (11 Ago. 1901). Comemorativo da “romagem democrática” de operários do Porto a Aveiro. Várias referências a José Estêvão.

PROGRESSO DE AVEIRO. Órgão do Partido Progressista no Distrito de Aveiro. Aveiro, Avenida Bento de Moura. Ano X, nº 473 (23 Dez. 1909). Director: Joaquim Peixinho; proprietário: Marques de Castilho; redactores: Dr. Álvaro de Moura e José Marques de Castilho; periodicidade: semanário, saía às quintas-feiras.

QUADROS, [José Reinaldo] Rangel de – Aveirenses notáveis. 1ª ed . Aveiro: Câmara Municipal, 2000. 447 p. (Apontamentos históricos). ISBN 972-47-0457-2. Ver p. 419-422.

Queirós, Amílcar de Barros – Os primeiros caminhos-de-ferro de Portugal: as linhas férreas do Leste e do Norte. In Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. Vol. 42, nº 166 (1976), p. 81-111; vol. 42, nº 167 (1976), p. 185-192.

RAMOS, Aníbal – Luís de Magalhães: Aveirense de sangue e de coração. In Boletim Municipal de Aveiro. Aveiro: Câmara Municipal. Nº 13/14 (Dez. 1989), p. 15-19.

RAMOS, Rui – A Segunda Fundação (1890-1926). In MATTOSO, José (dir.) – História de Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores, 1992-1993. ISBN 972-42-0586-X. Vol. VI (1993), p. 61, 69, 357, 358.

REBELO, Ernesto – Notas Açorianas: José Estêvão Coelho de Magalhães (1831). In Arquivo dos Açores. Ponta Delgada. Vol. VII (1885), p. 533-552; vol. VIII (1886), p. 5-19.

RIBEIRO, Maria Manuela Tavares – A Restauração da Carta Constitucional e a Revolta de 1844. In Revista de História das Ideias. Coimbra: Universidade de Coimbra. N.º 7 (1985), p. 183-241.

RIBEIRO, José SilvestreHistoria dos estabelecimentos científicos literários e artísticos de Portugal nos sucessivos reinados da monarquia. Lisboa: Academia Real das Ciências, 1871-1914. Menção aos serviços prestados por Passos Manuel e José Estêvão ao ensino artístico e profissional e à imprensa: veja-se nos vol.: 3, p. 54 e 379; vol. 5, p. 229; vol. 6, p. 85, 234, 279, 386 e 393; vol. 7, p. 55, 107 e 171; vol. 8, p. 51 e 93; vol. 9, p. 119; vol. 16, p. 99.

[RIVARA, Cunha] – Apontamentos sobre os oradores parlamentares em 1853 por um deputado. Lisboa: Tip. de A. J. F. Lopes, 1853. 30 p. Ver p. 23.

RODRIGUES, Lourenço – Anedotas e episódios da vida de pessoas célebres. Lisboa: Livraria Popular de Francisco Franco, [D.L. 1961]. 278, [6] p.

SÁ, Victor de (1979) – A Crise do Liberalismo e as primeiras manifestações das ideias socialistas em Portugal: 1820-1852. 3ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, [1979]. 346 [1] p. (Obras de Victor de Sá; 2). Tese de doutoramento.

SACRAMENTO, Mário – Diário. Porto: Limiar, 1975. 362 [1] p.

SALGADO, Heliodoro – A insurreição de Janeiro: história, filiação, causas e justificação do movimento revolucionário do Porto. Porto: Tip. da Empreaa Literária e Tipográfica, 1894. 224 p.

SAMPAIO, Albino Forjaz (dir.) – História da literatura portuguesa ilustrada. Colab. de Afonso Lopes Vieira [et al.]. Paris-Lisboa: Aillaud; Bertrand, imp. 1929-1942. 4 vol. [4º v.]: Porto: Livr. Fernando Machado. Ver vol. IV, p. 313-314, capítulo “Oratória Parlamentar”.

SARABANDO, João – Eça e José Estêvão. In República. Lisboa. (1 Abril 1953).

SARABANDO, João – Na Praia da Costa Nova uma “Casa-Museu de José Estêvão” valorizaria a região, servindo a cultura e homenageando um grande português. In Norte Desportivo. Porto. (14 Dez. 1956).

[SARABANDO, João] – O centenário de José Estêvão vai ser assinalado com duas importantes obras. In República. Lisboa. (22 Mar. 1962).

[SARABANDO, João] – O centenário de José Estêvão e a participação da Casa-Museu nas comemorações. In República. Lisboa. (31 Mar. 1962).

SARAIVA, José Hermano, dir. – História de Portugal. Lisboa: Alfa, 1985, vol. 6, passim.

Serrão, Joel (sel.) – Liberalismo, Socialismo, Republicanismo: Antologia de Pensamento Político Português. 2.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1979. (Horizonte Universitário; 21). 1.ª edição em 1969.

SERRÃO, José Vicente – ESTÊVÃO, José Aveiro, 26/11/1809-4/11/1862). In PEREIRA, José Costa, coord. – Dicionário ilustrado de História de Portugal. 2 vol. Lisboa: Alfa, 1985-1986. Vol. I, p. 223-224.

SILVA, Francisco Xavier da – Patriotismo e dor: poesia á memoria de José Estêvão Coelho de Magalhães.

SILVA, Inocêncio Francisco da; ARANHA, Brito – Dicionário Bibliográfico Português. Estudos de Innocencio Francisco da Silva applicaveis a Portugal e ao Brasil. Continuados e ampliados por P. V. Brito Aranha. Revistos por Gomes de Brito e Álvaro Neves, Lisboa, Imprensa Nacional, 1858-1923. 23 vol. Veja-se tomo IV, p. 312, 468; tomo VII, p. 121, 147; tomo XII, p. 311; tomo XVII, p. 87; tomo XIX, p. 275. Existe versão electrónica editada pela Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses.

SILVA, Luís Augusto Rebelo da – Oradores portugueses: José Estêvão. In Revista Contemporânea de Portugal e Brasil. Lisboa: Tip. do Futuro. Vol. I (1859), p. 49-58.

SILVA, Luís Augusto Rebelo da – Prefácio. In MAGALHÃES, Mateus – Mulher Funesta (romance). Lisboa: Editor Silva Júnior, 1866. Mateus Luís Coelho de Magalhães, ou Mateus de Magalhães, era filho natural de José Estêvão.

SILVA, Luís Augusto Rebelo da – Os Varões Ilustres das três épocas constitucionais: Colecção de esboços e estudos biográficos. Lisboa: Livraria de António Maria Pereira, 1870. VIII, 267 p. Com retratos; contém as biografias do duque de Palmela, Manuel Fernandes Tomás, José Xavier Mouzinho da Silveira, José da Silva Carvalho, José Estêvão Coelho de Magalhães e Manuel da Silva Passos; estudos ampliados e retocados dos que tinham sido anteriormente impressos em publicações literárias periódicas. Ver p. 213-228.

SOARES, Joaquim Pedro Celestino – Origem e estado da questão entre José Estêvão Coelho de Magalhães e Joaquim Pedro Celestino Soares. Lisboa: Typ. de Manuel Jesus Coelho, 1849. 4 p. Foi distribuído com o jornal O Patriota.

SOARES, Joaquim Pedro Celestino – Quadros navais ou colecção dos folhetins marítimos do Patriota: seguidos de uma epopeia naval portuguesa. 2ª impressão. Lisboa: Imprensa Nacional, 1861-1869. 4 vol. O tomo IV contém: 27 - Origem e estado da questão entre José Estêvão Coelho de Magalhães e Joaquim Pedro Celestino Soares. 1.º e 2.º.

SOUSA, Eduardo de – José Estêvão. 1ª ed. Porto: Tip. de Artur José de Sousa & Irmão, 1894. Discurso pronunciado no Teatro Aveirense, na noite de 13 de Agosto de 1894. 19 p. Tem 2ª edição, do centenário, Porto, Livraria Moreira, 1909.

SOUSA, Eduardo de – José Estêvão (Edição do Centenário). 2ª ed. aum. Porto: Livraria Moreira Editora, 1909. Inclui o discurso pronunciado no Teatro Aveirense, na noite de 13 de Agosto de 1894. 35 p.

TAVARES, José – História do Liceu de Aveiro. In Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. Vol. 3, nº 9 (1937), p. 47-64; vol. 3, nº 10 1937), p. 137-150; vol. 3, nº 11 (1937) p. 221-231; vol. 3, nº 12 (1937), p. 273-280.

TAVARES, José – A Estátua de José Estêvão em Aveiro: Subsídios para a história do monumento. In Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. Vol. 5, nº 18 (1939), p. 127-137; vol. 5, nº 19 (1939), p. 227-230.

TAVARES, José – Subsídios para a História da criação do Asilo de Aveiro. In Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. Vol. 17, nº 68 (1951), p. 307-311.

TAVARES, José – Literatos do Distrito: Alexandre da Conceição. In Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. Vol. 20, nº 80 (1954), p. 245-250.

TAVARES, José – Aveiro e o Primeiro Centenário do Nascimento de José Estêvão. In Arquivo do Distrito de Aveiro. Vol. 28, n.º 112 (l962), p.247-257.

TAVARES, José – Primeiro Centenário do Falecimento de José Estêvão: 4 de Novembro de 1862 – 4 de Novembro de 1962. In Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. Vol. 28, n.º 112 (1962), p. 290-317.

TAVARES, José – Castilho e Bulhão Pato perante a memória de José Estêvão. In Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. Vol. 31, nº 123 (1965), p. 163-177. Fez-se separata.

TAVARES, José – Primeiro Centenário do Movimento Liberal de Aveiro. In Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. Vol. 35, nº 137 (1969), p. 3-36.

TAVARES, José – Discurso de Freitas de Oliveira acerca de José Estêvão, em 1866. In Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. Vol. 35, nº 140 (1969), p. 262-272.

TENGARRINHA, José – O centenário de José Estêvão. In Seara Nova. Lisboa. Ano 40, nº 1404-1405 (Out.-Nov. 1962) p. 238-239 e 252.

TENGARRINHA, José – Estudo introdutório, selecção e notas. In Estêvão, José – Obra Política. Lisboa: Portugália Editora, 1962-1963. 2 vol. (Colecção Portugália; 3 e 4). Tem uma copiosa “Bibliografia”, aqui integrada, nas p. 432-441.

TENGARRINHA, José – História da imprensa periódica portuguesa. Lisboa: Portugália Editora, 1965. 349, [1] p.

TENGARRINHA, José – A oratória e o jornalismo no Romantismo. In Centro de Estudos do Século XIX do Grémio Literário. Colóquio, 1, Lisboa, 1970 – Estética do Romantismo em Portugal: primeiro colóquio, 1970. Lisboa: Grémio Literário, [1974]. p. 186-190.

TENGARRINHA, José – Estudos de história contemporânea de Portugal. Lisboa: Caminho, imp. 1983. 275, [2] p.

TORGAL, Luís Reis; ROQUE, João Lourenço (coord.) – O Liberalismo. In MATTOSO, José (dir.) – História de Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores, 1992-1993. ISBN 972-42-0586-X. Vol. V (1993), p. 83, 104, 108, 111, 118, 119, 127, 190, 191, 208, 209, 227, 277, 410, 412, 413, 565, 566, 589, 693.

VIEIRA, Augusto José – Historia do Partido Republicano Português: Obra de propaganda republicana. Lisboa: Empresa de Publicações “A Democrata”, [1909]. Ver p. 127.

VIEIRA, Benedicta Maria Duque – A Revolução de Setembro e a discussão Constitucional de 1837. Lisboa: Edições Salamandra, 1987. 141, [1] p.

VILHENA, Júlio de – D. Pedro V e o seu reinado. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1921. 2 vol. (IX, 399; XI, 463 p.).

VITALIDADE. Semanário Regenerador-Liberal. Aveiro. Ano XIV, nº 767 (25 Dez. 1909). Director e proprietário: Acácio Rosa.

BIBLIOTECA NACIONAL – Arquivo da Cultura Portuguesa Contemporânea – Colecções ESTÊVÃO, José, 1809-1862 BN, cota Esp. N49.

A colecção (5 Caixas com 733 documentos) é composta por um conjunto de documentos relativos à guerra da Patuleia, cartas dirigidas a José Estêvão e a familiares, assim como recortes e outros documentos sobre homenagens prestadas ao tribuno. Entrou na BN em Janeiro de 1983, integrando o Espólio de seu filho, Luís de Magalhães, adquirido por compra aos seus herdeiros.

terça-feira, 27 de Maio de 2008

JAIME DE MAGALHÃES LIMA 1859-1936 (biografia)

Jaime de Magalhães Lima foi daquelas personagens de multímoda mundividência que, pela extrema e variada riqueza interior, escapa a qualquer tentativa de arrumação em cacifo ideológico padronizado. Tocado por uma miríade de influências, cujas raízes mergulham no cristianismo de S. Francisco de Assis e nas doutrinas de Leão Tolstoi, passando pelo movimento Arts and Crafts de William Morris e John Ruskin1 e pela comunhão de ideais com alguns dos grandes vultos das nossas gerações oitocentistas, de que cumpre destacar Antero de Quental e Oliveira Martins, não deixou por isso de construir o seu próprio caminho, calcetando-o com um apurado sentido crí­tico e, sobretudo, com muita lucidez e tolerância, milímodas cumplicidades e um inco­mensurável respeito pelo Outro.

Filho de Sebastião de Carvalho Lima e de D. Leocádia Rodrigues de Magalhães, nasceu em Aveiro a 15 de Outubro de 1859, no palacete que seu pai mandara construir sobre as ruínas do Convento do Carmo, adquiridas em 1856 a Manuel José Mendes Leite, o fiel e eterno companheiro de José Estêvão e autor da iniciativa legislativa que terminou com a pena de morte para os crimes políticos (1852), gesto pioneiro a nível europeu. Nesse mesmo ano, o seu irmão Sebastião de Magalhães Lima, cujo percurso intelectual e político seria bem diferente, saía de Aveiro para frequentar o colégio alemão Roeder.

As questões políticas estariam quase sempre presentes no ambiente familiar da sua infância, pois o pai, para além de deputado, foi presidente da Câmara de Aveiro e da Junta Geral do Distrito, representando, na cidade dos canais, as cores do Partido Histórico, facção política surgida no início da Regeneração sob a liderança do duque de Loulé.

Tendo feito os preparatórios para os estudos superiores no Colégio Aveirense, iniciou o seu curso de Direito, na Universidade de Coimbra, no ano em que sua mãe falecia na residência da Rua do Carmo. Tinha dezasseis anos.

Frequentando a Universidade entre 1875 e 1880, será aqui influenciado pelo pensamento de Karl Krause, filósofo do Direito e discípulo de Schelling e de Fi­chte. O krau­sismo, cujos prosélitos conimbricenses foram sobretudo Costa Lobo, Rodrigues de Brito e Emídio Garcia, estará por detrás da concepção organicista da realidade social, comungada por Jaime Lima e presente no seu modelo de representação política. As ideias de Krause encontraram campo propício entre os críticos do individualismo liberal, muitos deles também liberais, mas que viam com mágoa e inquietação a facilidade com que se destruíam os equilíbrios da sociedade tradicional e os seus esteios axiológicos, como acontecia com Costa Lobo que, já em 1864, na sua tese de doutoramento, avançava para soluções corporativistas, apresentando a sociedade "como verdadeiro organismo […com] seus membros reciprocamente dependentes". Ao longo da segunda metade de Oitocentos o krausismo influenciará ainda muitos dos alunos da Faculdade de Direito de Coimbra, mercê dos magistérios de Rodrigues de Brito e Emídio Garcia.

A profunda amizade que une Jaime de Magalhães Lima a Luís de Magalhães, filho de José Estêvão, seu condiscípulo em Coimbra e futuro cunhado, relaciona-o com importantes nomes da Geração de 70 e com outras personalidades do meio cultural nortenho. Luís de Magalhães residia na quinta do Mosteiro, em Moreira da Maia, numa época em que Oliveira Martins se fixara no Porto, às Águas Férreas. Não muito longe, em Vila do Conde, demorava Antero de Quental e, um pouco mais além, na Quinta de Boamense, em Cabeçudos, nas proximidades de Famalicão, vivia Alberto Sampaio. Nas tertúlias do Porto, em Santo Ovídio, na casa de Oliveira Martins, na Quinta do Mosteiro2, na tebaida de Vila do Conde ou em Boamense, juntavam-se com frequência Luís de Magalhães, Jaime Lima, Antero de Quental, Oliveira Martins, Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão, Alberto Sampaio, António Feijó e tantos outros, residentes no Norte do país ou simplesmente por ali passando de visita.

Jaime Lima ficará indelevelmente ligado a muitos destes homens, com destaque para Antero, cujo idealismo e afinidades intelectuais propiciaram uma maior aproximação, por demais evidente na correspondência trocada e no tratamento familiar que adoptaram entre si, deixando "as excelências para aqueles com quem não temos outra comunhão senão a de pertencermos à mesma sociedade em geral — muito geral 3".

Em Coimbra, o convívio e as leituras trazem-lhe as primeiras hesitações religiosas, que igualmente tocarão o seu amigo Luís de Magalhães. Isso mesmo parece transparecer do poema publicado aos 64 anos, assomo de prestação de contas e prenunciação de uma partida que o destino marcou para cerca de treze anos depois:

[…]
Os anos de inocência e os da paixão;
os de orgulho sombrio e os da humildade;
os da fé;
e também esses, funestos, tenebrosos,
da Descrença e da Dúvida;
[…] 4

O teor de uma carta de Antero de Quental, datada de finais de 1886, dá-nos conta da superação desta crise, correspondendo, talvez, às primeiras aproximações de Magalhães Lima a S. Francisco de Assis e a Tolstoi:

Tudo isto, meu caro Magalhães Lima, veio, não sei bem como, para lhe dizer uma cousa muito simples, e é o que mais me alegrou na sua carta foi o dizer-me que começava a sentir, nestes últimos tempos, um renascimento dos antigos sentimentos religiosos, embora transformados, e uma invencível necessidade de idealismo.5

Um ano antes, em 1885, tinha sido publicada a tradução francesa da Religião de Leão Tolstoi que, como o próprio Jaime Lima confessa ao autor, apenas leu depois da visita que lhe fez, mas a influência tolstoiana já se fazia sentir através da leitura de outras das suas obras:

Li a sua "Religião" e voltarei a ler brevemente todas as suas obras traduzidas em francês. Ela (a "Religião") causou-me uma impressão tão profunda que resolvi dedicar-lhe um estudo que deverá ser publicado no próximo verão. […] Não estamos de acordo em muitos pontos, mas devo confessar-lhe que, há já bastante tempo, muitas vezes com a ajuda dos seus livros, me sinto voltar à religião e à humildade. É possível que as vicissitudes da minha vida tenham contribuído muito para isso; sempre estou convencido de que a vida não tem outra finalidade senão a virtude, e cada dia sinto mais sincero e profundo arrependimento das minhas faltas e dou a maior parte dos meus pensamentos ao amor de Deus.6

Por esta época, quando dobrava o quarto de século e a Europa estrebuchava de nacionalismos e imperialismos, com a Conferência Internacional de Berlim (1884) a traçar os primeiros contornos do domínio europeu em África, Jaime Lima inicia uma prolixa produção literária, através da qual procura intervir na sociedade portuguesa, ou simplesmente exercer um magistério democrático de divulgação das ideias que, colhidas aqui e ali, lhe parecem merecedoras de partilha. Esta ânsia de comunicar exprime-se em cerca de novecentos títulos, distribuídos por dezenas de jornais e revistas, trinta livros, quatro traduções-adaptações e vinte opúsculos de outras tantas conferências. Uma parte importante da sua colaboração em publicações periódicas terá o destino da produção literária de John Ruskin: a compilação posterior em pequenos volumes, porque,

para serem companheiros do coração, os livros hão-de ocultar-se, como tudo o que é amado do coração; irão connosco, unidos ao corpo, sem que olhares profanos os insultem com escárnio ou indiferença. […] Por isso, eu quero aos livros bons e pequeninos, como às violetas do meu jardim.7

A Província, órgão do Partido Progressista fundado no Porto por Oliveira Martins, será o primeiro jornal a acolher colaboração continuada de Jaime Lima, que se estende por alguns anos. São artigos literários, sobre autores nacionais e estrangeiros, peças versando temas agrícolas, mas também aparecem os assuntos de cariz económico e social ou de política nacional e internacional, muitos deles a propósito de obras publicadas em diferentes países da Europa.

Em 1888, quase a completar os 29 anos, durante os meses de Setembro e Outubro, faz uma grande viagem pela Europa, regressando pelo norte de África e sul de Espanha. Nesta longa peregrinação, cujo diário vai publicando no periódico de Oliveira Martins, visita Leão Tolstoi, na sua residência de Iasnaia Poliana, fortalecendo os vínculos que, desde há algum tempo, o prendiam ao pensamento do grande escritor russo. No regresso escreve a Tolstoi e carteia-se com Antero, comentando com o amigo as impressões recolhidas nas entrevistas que manteve com o autor de Guerra e Paz.

O cristianismo democrático e filantrópico de Tolstoi ajustava-se às preocupações sociais das elites intelectuais da época, o que explica o impacto do "santo laico" em toda a Europa e particularmente em França, país que visitou e onde tocou fundo a sua adesão às doutrinas de Proudhon. Jaime Lima contactou a obra de Tolstoi a partir do livro Le roman russe de Eugène-Melchior de Vogüé e das traduções francesas que se multiplicavam no último quartel de Oitocentos.

Esta longa deambulação pela Europa e a visita a Tolstoi parecem culminar uma fase importante da sua vida, à procura de um caminho e de decisões para o futuro. Regressado a Portugal anuncia a Antero de Quental o seu próximo casamento, que terá lugar em Condeixa. Jaime de Magalhães Lima casou em 23 de Julho de 1889 com D. Maria do Cardal de Lemos Pereira de Lacerda, filha de Francisco de Lemos Ramalho de Azeredo Coutinho, morgado da Casa de Condeixa, e irmã de D. Maria da Conceição de Lemos Pereira de Lacerda, casada desde Fevereiro de 1884 com Luís Coelho de Magalhães. Um pouco antes, em carta datada de 28 de Maio, Antero manifestava-lhe o seu regozijo:

Já me tardava vê-lo casado — e posso dizer-lhe agora que mais de uma vez tinha pensado nisso, e sentido até a tentação de lhe dar esse conselho; mas achava a matéria tão delicada, tão absolutamente do foro íntimo, que nunca me atrevi. Veja pois com que prazer recebi a notícia, que me dá! O dia do seu casamento será para mim um de verdadeira alegria. Não lhe citarei o famoso "não é bom que o homem esteja só" da Bíblia, ainda que há uma grande verdade nesse conceito; mas, tomando a coisa por outro lado, dir-lhe-ei que só é verdadeiramente livre aquele que sabe limitar voluntariamente a sua liberdade […] Entrou, meu caro amigo, num caminho em que todos os dias irá sentir o chão mais firme debaixo dos pés, mais lúcido o pensamento, mais serena a consciência. Vivendo cada vez mais para os outros, sentindo morrer em cada dia dentro de si mais uma parcela do eu egoísta que tanto nos ilude, tanto nos faz sofrer e errar, irá entrando gradualmente naquela região da impersonalidade que é a verdadeira beatitude.8

Os acontecimentos de 1890, e a forma como Portugal respondeu ao Ultimato inglês, desencadearam, um pouco por todo o país, um coro de lamentos e assuadas, quando não ferozes manifestações de nacionalismo ofendido. Republicanos e socialistas zurziram a instituição monárquica, enquanto a agressividade da imprensa, que nem a nova "lei da rolha" conseguia calar, e a denúncia da dependência económica e política de Portugal face à Inglaterra despertavam sentimentos anti-ingleses e faziam cair governo atrás de governo.

Jaime de Magalhães Lima acabará por entrar na política activa, já depois da recusa ao grito desesperado de Antero, que o pretendia no Porto como secretário-geral da Liga Patriótica do Norte a que presidia:

O Jaime é o homem, é o único. Há-de vir. O que se vai passar em Portugal é seriíssimo. Faça cada um o seu sacrifício no altar da Pátria. Eu sacrifico a minha saúde, que naufragará de todo no meio disto, e muito provavelmente o meu nome, que antes de 6 meses estará manchado. […] O Jaime fará também à Pátria e ao Bem o seu sacrifício. Venha.9

O malogro da iniciativa, que tentava uma ampla frente, suprapartidária, capaz de salvar a Pátria da decadência e da crise permanente em que vivia, aplicando um vasto programa que recuava ao diagnóstico da "Geração Nova" e das Conferências democráticas do Casino Lisbonense, terá contribuído para o desânimo de Antero e para o agravamento da misantropia que o conduziria ao suicídio, em 11 de Setembro de 1891. Jaime Lima, apesar de ter recusado o cargo de secretário-geral da Liga, lugar que foi preenchido pelo Conde de Resende, aderiu ao projecto e disso deu público testemunho na primeira página d’ A Província de 3 de Março de 1890.

Recém-casado, o escritor aveirense remete-se à vida familiar e ao estudo da obra de Tolstoi, reduzindo drasticamente, ao longo de alguns anos, a sua colaboração na imprensa. No entanto, é durante este período que o futuro "eremita" da quinta de S. Francisco se lança na política activa, começando por integrar, com Luís de Magalhães e Alberto Sampaio, o grupo dos chamados "governamentais", apoiantes do projecto "Vida Nova" corporalizado no pensamento e na pessoa de Oliveira Martins. O desiderato apontava para a salvação de Portugal e para a aplicação de um conjunto de medidas capazes de ultrapassar a bancarrota do Estado e a crise financeira, e estancar as falências que se sucediam em catadupa. Oliveira Martins conseguirá inverter esta tendência, durante os quatro meses em que sobraçou a pasta da Fazenda, mas o êxito não evitará a sua saída do governo e a consequente solidariedade dos amigos, que deixam de apoiar o Ministério de José Dias Ferreira.

A traição a Oliveira Martins custou a Dias Ferreira a chefia do governo, vingança cozinhada por alguns dos "governamentais" e consumada no regresso de um governo partidário regenerador, com Hintze Ribeiro na presidência e João Franco na pasta do Reino. Mas o Partido Regenerador não fugia à profunda desordem que campeava nos velhos partidos monárquicos, ele próprio com várias facções a digladiarem-se e com uma direcção bicéfala, em que pontificavam Hintze Ribeiro e João Franco, nem aos vícios arranjistas alimentados pelas benesses distribuídas em função dos acordos de caciques e chefes políticos.

Em 1892 Jaime Lima é eleito presidente da Câmara de Aveiro e, no ano se­guinte, deputado pelo Partido Regenerador, continuando, coerentemente, a defender as ideias de Oliveira Martins. Em 1894 perde mais este amigo e, dois anos depois, morre-lhe o pai. Novamente deputado por Aveiro, eleito em 1897, colabora na imprensa local e noutras publicações ligadas ao Partido Regenerador, apoiando, com Luís de Maga­lhães e Alberto Sampaio, as reformas franquistas da lei eleitoral, identificadas com os princípios do krausismo e da "representação orgânica" de Oliveira Martins, que ele próprio defendia desde há doze anos. Mas todas estas reformas foram caindo depois de 1896 e, no ano imediato, poucos meses depois da conquista do poder pelos pro­gressistas de José Luciano de Castro10, completava-se o desmantelamento de toda a estrutura eleitoral franquista.

Em 1901 acompanha João Franco na cisão do Partido Regenerador, passando a dirigir a estrutura aveirense do novo Partido Regenerador-Liberal. Contudo, por esta época, a organização local dos partidos continuava a ser quase inexistente, circunscrita a uma ou outra figura de projecção regional, o que lhe permitiu ler e escrever intensa­mente, apostando na divulgação de Ruskin, Channing, Wordsworth, Michelet ou S. Francisco de Assis, e multiplicando os artigos sobre o que foi uma das suas grandes paixões, a silvicultura teórica e experimental dos eucaliptos.

Com a queda do Franquismo, em 1908, afasta-se definitivamente da política e instala-se na Quinta do Vale do Suão, em Eixo, nos arredores de Aveiro, rebaptizada de Quinta de S. Francisco. Nesta opção pelo contacto permanente com a natureza, le­vada ao extremo de não permitir cortinados nas janelas do seu gabinete de trabalho, para poder ver as árvores e as aves, seguia duas das suas referências intelectuais mais queridas: Alexandre Herculano, afastado de Lisboa e recolhido em Vale de Lobos, e John Ruskin retirado na pequena quinta de Brantwood, perto de Coniston Lake.

Afastado da ribalta tumultuosa da vida política e usufruindo avidamente a mãe Natureza, iniciava aqui o último período da sua vida, sempre atento ao mundo exterior, ao qual descia vezes sem conta por exigência dos que queriam ouvir a sua voz res­peitada. Com efeito, ao longo deste período, sucedem-se as conferências e palestras sobre os mais variados assuntos e nos mais diversos locais. O refúgio de Eixo produz de imediato o seu primeiro S. Francisco de Assis11, leitura heterodoxa do catolicismo oficial que mereceria alguns reparos de D. João Evangelista de Lima Vidal, seu primo e bispo de Aveiro. O livro é acusado de inter­pretar a vida do Poverello à luz do protestantismo do hagiógrafo Paul Sabatier12 o que levará Jaime Lima a escrever um outro, publicado já depois da sua morte, em 1956.

Seguem-se duas traduções de Tolstoi e um estudo sobre Alexandre Hercula­no, acompanhados por uma pertinaz colaboração na imprensa, por onde perpassam os problemas de Portugal, da Europa e do Mundo. Devorador de livros e jornais, aprendeu o inglês como autodidacta, o que lhe permitiu o contacto com o mundo anglo-saxónico, recorrendo a um vasto leque de periódicos britânicos, fossem eles londrinos ou da imprensa regional13, mas também a um variado número de títulos publicados em Inglaterra, que encomendava e recebia no eremitério de Eixo.

Acompanhando com especial atenção a vida política da Alemanha, e atento ao crescendo do nacionalismo prussiano, quase adivinhou o eclodir da 1.ª Guerra Mundial. Crítico aceso do imperialismo alemão, acabará por rejeitar liminarmente o cesarismo bismarckiano e a política de alianças com a social-democracia marxista, responsabili­zados pela instabilidade política do velho continente:

Levou tempo a fazer e deu muito trabalho essa nova Alemanha. Para isso foi necessário arrasar, como alegremente se arrasou, até aos alicerces, aquela outra Alemanha gloriosa, dos tempos em que militarmente era vencida, a Ale­manha de Kant, de Lessing, de Goethe e de Beethoven, do tempo em que, toda impregnada de idealismo, de sabedoria, arte, ingenuidade, simplicidade e anseios de liberdade, tinha menos ciência de laboratório e mais ciência do co­ração, e não sabia mentir, intrigar, corromper e oprimir14.

Nos seus escritos sobre a guerra sobressai a admiração pela Grã-Bretanha e pelo seu papel civilizador, apresentados em contraponto da barbárie germânica e como paradigma das sociedades democráticas:

Se vemos um estupendo império, como o da Grã-Bretanha, englobando sob a mesma bandeira, irmãmente querida e amada, as raças mais diversas e as mais diversas aspirações, é porque para esse milagre político, sem precedente na história, se criou um povo em cujo génio, por uma arte que é maravilha de espontânea perfeição, se conciliam praticamente as maiores e desusadas li­berdades com a coincidência em uma unidade, para a qual provavelmente só se encontrará justificação na comunidade de amor à própria liberdade e no propósito íntimo de a manter e defender.15

Denunciada a guerra e equacionados os problemas da Europa, Jaime Lima en­trega-se de novo às grandes questões nacionais, procurando intervir na sociedade portuguesa com vista à sua transformação, à redescoberta dos seus valores e tradi­ções… da sua alma. Perdidos os velhos amigos da Geração de 70, encontrará novas cumplicidades, sem no entanto chegar à íntima comunhão experimentada com Antero ou Oliveira Martins. Portugal estava mudado, o que era por demais visível no cresci­mento de Lisboa e de outros centros urbanos, na transformação da paisagem, com a proliferação das chaminés de fumo a romperem aqui e ali, bem como no aumento de uma classe média de funcionários e profissões liberais. Os tempos eram outros e os homens também. Os intelectuais portugueses do primeiro terço do século XX procuravam, em desespero de causa pela pequenez do meio, o arrimo das capelinhas, mais interessados em dar visibilidade a cada um dos "grupinhos literários", como lhes chamava Jaime Cortesão, que em produzir obra de fundo. As revistas literárias, que se multiplicavam em Lisboa e no Porto, duravam o tempo da sua agressividade e das polémicas que sustentavam o mercado.

As ideias que germinavam em França, nas vésperas do primeiro conflito mundial, ameaçavam invadir Portugal, cujas elites intelectuais eram, desde há muito, francófilas. E fizeram-no, com António Sardinha e outros corifeus do Integralismo Lusitano. Aquilino Ribeiro, desde Paris, bem podia clamar, nas páginas d’ A Capital, contra o perigo da importação do bergsonismo e do ideário da Action Française, e para a necessidade de descobrirmos um caminho português para a democracia portuguesa. O tradicionalismo acabará por constituir um elo de ligação entre pensamentos e movimentos diferenciados que, a partir de determinada altura, apostam no rejuvenescimento da alma nacional e na afirmação da individualidade portuguesa. Aqui se encontrarão os últimos românticos, os integralistas, os saudosistas, lusitanistas e criacionistas da Renascença Portuguesa, os modernistas da revista Orpheu, os seareiros, os sebastianistas e tantas outras seitas da cultura lusa dos inícios do século, "ismos" que, alimentados por dissidências e trânsfugas, cresciam de costas voltadas para o pensamento político dominante e para a Universidade.

Jaime de Magalhães Lima, espírito sempre aberto e tolerante, não recusou a entrada nesta procela babilónica, preso que estava à vocação e missão proféticas de defesa dos valores, tradições, língua e arte portuguesas, cujos objectivos se prendiam, mais além, com a felicidade e a harmonia para a Pátria portuguesa:

Pudessem os deuses ouvir as minhas obstinadas e roucas orações e pelos seus eleitos mandassem aos homens, senão a felicidade e a paz que não são muito de esperar entre os clamores da psicologia e da história, ao menos uma transitória remissão das inquietações, uma pausa no sofrimento pela qual debalde vamos suspirando entre o copioso saber, forças inauditas e vastíssimas riquezas que a nossa era ostenta e a nossa jactância apregoa!… Tivesse eu a felicidade de pressentir, de longe que fosse, as bênçãos de um novo reino!… Isso em consciência me absolveria da impertinência dos zumbidos com que procuro atormentar os ouvidos estranhos.16

Concorre com os seus escritos, nalguns casos esporadicamente, para revistas de diferentes tendências, sejam elas a Atlântida, A Águia, Lusitânia, A Ilustração Moderna, Portucale, Ilustração ou a Seara Nova. Em 1918 é um dos co-fundadores da LAN – Liga de Acção Nacional, colaborando no respectivo órgão, a revista Pela Grei, cujo subtítulo, Revista para o Ressurgimento Nacional pela Formação e Intervenção de uma Opinião Pública Consciente, exprimia claramente os objectivos da associação17. Em 1923 integra o grupo de 40 fundadores da Revista dos Homens Livres, dinamizado pelos seareiros António Sérgio, Raul Proença e Jaime Cortesão, movidos pelo propósito de trazerem à sua causa intelectuais que não se revissem no projecto da Seara Nova. António Sardinha, que havia atacado a experiência de 1918, alcunhando-a de "anglo-saxonismo de importação", numa alusão às ideias de Reis Santos, adere agora a este grupo, com Pequito Rebelo, seu correligionário do Integralismo que o havia seguido na evolução anti-monárquica. A heterogeneidade do grupo estender-se-á igualmente a anarquistas, ex-franquistas, monárquicos conservadores e sebastianistas, mostrando quão forte era o mal-estar da intelectualidade portuguesa perante as realidades sociais e políticas do país. Jaime Lima desde há muito defendia esta unidade de acção, escrevendo, em 1905:

Que um punhado de crentes devotados guarde a tradição do povo e sua glória,— seu amor do trabalho, sua honradez, bondade resignada e paciência, desprendimento, austeridade,— e Portugal ressurgirá do aviltamento, como renascem a Irlanda, a Hungria, a Polónia e tantos outros povos oprimidos, ou pelos próprios erros e loucuras ou pela ambição cruel dos poderosos. Nunca uma só batalha se perdeu, quando foi combatida por justiça e nobreza.18

Quase panteísta, atrever-nos-íamos a dizer "panteísta-cristão", no êxtase que experimenta na adoração da natureza, percorre montes e vales, preferindo sentir a aspereza dos caminhos a percorrê-los sobre quatro rodas, ele que possui o primeiro automóvel de Aveiro:

Já não há caminhos, há transportes, qualquer coisa que se move na estrada mas parece desconhecê-la. Pelo menos, não deixa que os sentidos a conheçam. Viajar, nesta sujeição, não é calcar a terra, é repudiá-la19.

Estes gritos de amor à terra, plasma em que mergulha todo o seu pensamento e vida interior, são brados de cabouqueiro ecológico, de quem acredita

na terra, no seu poder de transposição paradisíaca, na felicidade e bem-aventurança que ela concede a quem a ama e serve, fielmente, em louvor e culto e humildade.20

A religião é, em Jaime de Magalhães Lima, o culminar de todo o seu viver, a síntese que encerra, superiormente, o Criador e a Criatura, englobando, nesta, toda a humanidade, todos os seres vivos, todas as areias, fragas, campos e serras. De fora parece quedar-se a cidade moderna, antro de vaidades e riquezas, artefacto industrial gerador de misérias morais e sociais, lugar onde "todos nos desconhecemos, evitamos e isolamos, quando não nos atropelamos"21. Sem se afastar de Deus, antes procurando-o, a religião limiana aproxima-se assim do pampsiquismo anteriano, tão bem descrito pelo poeta filósofo ao seu assumido discípulo22, e não se alimenta de

certos bolores das sacristias, superstições carunchosas e hipocrisias parasitárias, […nem de] batinas em debandada que, já esfarrapadas por diversas aventuras anteriores, cobriam mal a boçalidade de sacerdotes muito mais dedicados à sordidez e à impostura do que a Cristo.23

Esta religião, cantada em tantos livros de Jaime Lima, mas sobretudo nas Rogações de Eremita24 ou nos Salmos do Prisioneiro25, bem mais belos que os de David, é uma religião de amor,

que por amor dá o exemplo e do exemplo vai à compaixão, e ao perdão e à redenção dos ignorantes e transviados.26
A religião é só isto; ténue e invisível fio prendendo-nos à vida espiritual imperecível. Que importa encontrá-la no amor da árvore, da flor, do velho, da criança, do mísero, do mar ou da montanha? Viver é senti-lo.27

Tudo o resto gira em torno deste sentir religioso, e todo o seu pensamento, incida ele sobre a democracia, o liberalismo ou a ideia de nação, inscreve-se nesta matriz idealista, de abnegação e de renúncia no Outro. Como dizia numa carta a António Sérgio,

Entre o Santo e o filósofo, e, por maioria de razão, entre o Santo e o regedor, ainda que o regedor se chame Péricles ou Napoleão, ficarei com o Santo. Porque o Santo é o mais fiel intérprete de Deus, e a ordem do Mundo, como a ordem da alma, só em Deus encontrará filiação assaz consistente para a manter.28

Em 17 de Junho de 1934, pouco antes de completar 75 anos de vida, juntaram-se em Eixo centenas de pessoas, numa sentida homenagem a Jaime de Magalhães Lima. Entre os oradores destacavam-se Joaquim de Carvalho, insigne mestre da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e João da Silva Correia, director da Faculdade de Letras de Lisboa.

Viria a falecer ano e meio depois desta manifestação cívica, no dia 25 de Fevereiro de 1936, na sua Quinta do Vale do Suão, por ele crismada de S. Francisco de Assis.

1 O Movimento das Artes e Ofícios (Arts and Crafts Movement), fundado em 1888 na Inglaterra, defendia a produção manual, valorizando a prática artesanal da Idade Média e rejeitando a produção em série da época industrial. William Morris (1834-1896) e John Ruskin (1819-1900) foram dois dos seus principais mentores. Ruskin, "um violento tory da velha escola", como ele próprio se definia na primeira página de Praeterita, a sua autobiografia, ou o "inovador retrógrado" na boca dos seus adversários, nem por isso deixou de inspirar os fundadores do Partido Trabalhista inglês (1906), com a mensagem política de duas das suas obras, Unto this Last e Sesame and Lilies, ou de contribuir para a formação do líder nacional indiano Mohandas Karamchand Gandhi. As características do reformismo social inglês, em que se integravam homens como Morris ou Ruskin, vestia capa evangélica e pretendia reconciliar-se com a lição social do cristianismo primitivo, aproximando-se, por isso, do franciscanismo. Ver COMPAGNON, Antoine – A hue et à dia [Prefácio]. In RUSKIN, John – Sésame et les Lys. Bruxelles: Editions Complexe, 1987, p. 7-24.

2 Eça de Queirós, que casara no Porto com uma irmã do 6º conde de Resende, é visita da Quinta do Mosteiro, aquando das suas passagens por Portugal. Esta propriedade, onde ainda hoje residem duas trinetas de José Estêvão, serviu-lhe de cenário para a sua quinta de Refaldes da Correspondência de Fradique.

3 Carta de Antero de Quental a Jaime Lima, datada de 13 de Outubro de 1886; ver RAMOS, Aníbal (1976a) – Cartas de Antero de Quental a Jaime de Magalhães Lima segundo o texto original. Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. vol. 42, nº 165 (1976), p. 7.

4 LIMA, Jaime de Magalhães – Côro dos coveiros. Porto: Edições Ilustradas Marques Abreu, 1923. p. 19.

5 Ver supra, nº 3, p. 11-12.

6 Esta carta, datada de 15 de Março de 1889, encontra-se no Museu de Tolstoi, em Moscovo, e foi publicada em RAMOS, Aníbal – Leão Tolstoi, Jaime de Magalhães Lima, William B. Edgerton e o "Arquivo do Distrito de Aveiro". Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. Vol. 42, n.º 167 (1976), p. 173-174.

7 LIMA, Jaime de Magalhães – Vozes do meu lar. Coimbra: França Amado, 1902, p. 73.

8 Ver supra nº 3, p. 20-21.

9 Carta de Antero datada de Vila do Conde, 9 de Fevereiro de 1890. Ver supra nº 3, p. 23.

10 Este estadista, que marcou toda a vida política portuguesa nos vinte anos que antecederam a República, nasceu em Oliveirinha, concelho de Aveiro. Aos 17 anos, com Manuel Firmino de Almeida Maia, fundou O Campeão do Vouga, o primeiro jornal aveirense, que começou a publicar-se em 14 de Fevereiro de 1852 e que, em 12 de Novembro de 1859, passou a intitular-se Campeão das Províncias. Foi seu primeiro redactor principal José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, pai de Eça de Queirós.

11 LIMA, Jaime de Magalhães – S. Francisco de Assis: Servo e menor. Coimbra: França Amado, 1908.

12 Paul Sabatier (1858-1928), teólogo e pastor protestante francês, é o autor de uma Vida de S. Francisco de Assis, escrita em resposta a uma missão intelectual quase imposta pelo seu mestre Ernesto Renan. A obra, publicada em França em 1893 e traduzida em várias línguas, é considerada uma das melhores biografias do Poverello e fruto de um trabalho árduo e sério de investigação, com base em documentos inéditos descobertos nos arquivos italianos. A importância e o impacto desta obra, bem como o currículo de Sabatier, professor de História Eclesiástica na Faculdade de Teologia da Universidade de Estrasburgo, cidadão honorário de Assis, membro da Academia Real de Roma, presidente honorário da Sociedade Internacional de Estudos Franciscanos e doutor "honoris causa" pelas Universidades de Oxford, Aberdeen e Edimburgo, não evitou a sua inclusão no Index.

13 Alguns títulos de periódicos ingleses, respigados de citações na sua obra: The Christian Commonwealth, Daily Chronicle, Glasgow Herald, Hibbert Journal, Manchester Guardian, Millgate Monthly, Spectator, Times.

14 LIMA, Jaime de Magalhães – A guerra: Depoimentos de herejes. Coimbra: F. França Amado, 1915, p. 11.

15 Idem, p. 20.

16 LIMA, Jaime de Magalhães (1986) – Entre pastores e nas serras. [Aveiro]: Portucel, 1986, p. 16.

17 Afirmava Sérgio, na Pela Grei de Janeiro de 1918: "O ideal da Democracia, em suma, é o governo da nação por elites naturais, criadoras da opinião pública e executantes da opinião pública; o governo da persuasão pelo escol da inteligência." In SÉRGIO, António – Ensaios I. 3.ª ed. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1980. p. 232.

18 LIMA, Jaime de Magalhães – Via redemptora. Coimbra: França Amado, 1905. p. 172-173.

19 LIMA (1986), p. 17-18.

20 LIMA, Jaime de Magalhães – Apóstolos da Terra. Coimbra: Typographia França Amado, 1906, p. VII.

21 LIMA, Jaime de Magalhães – O amor das nossas coisas e alguns que bem o serviram: Ramalho, Camilo, Eça, Antero, Oliveira Martins, Manuel da Silva Gaio, Lopes Vieira e Correa de Oliveira. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1933, p. 56.

22 Carta de Antero de Quental a Jaime de Magalhães Lima, datada de Vila do Conde, 14 de Novembro de 1886. Ver supra, nº 3, p. 12.

23 Ver supra, nº 21, p. 6.

24 LIMA, Jaime de Magalhães – Rogações de Eremita. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, [1910]. 123 p.

25 LIMA, Jaime de Magalhães – Salmos do Prisioneiro. Coimbra: F. França Amado, 1915. 59 p.

26 LIMA, Jaime de Magalhães – S. Francisco de Assis: servo e menor. Coimbra: França Amado, 1908, p. 63.

27 Ver supra, nº 7, p. 202-203.

28 LIMA, Jaime de Magalhães – Santos, filósofos e regedores. In Lusitânia. Lisboa. Vol. 2 (1924), p. 122. Carta de Jaime Lima a António Sérgio.

JOÃO AFONSO DE AVEIRO (notas biográficas)

Discute-se ainda hoje quem de facto terá sido este João Afonso de Aveiro, que dá o nome a um poeta e a um navegador dos finais do século XV, havendo alguns autores que reúnem as duas facetas no mesmo indivíduo, enquanto outros optam por pessoas distintas.
A documentação conhecida permite-nos identificar apenas uma personagem com este nome. Referimo-nos ao filho de Afonso Domingues de Aveiro, o moço, cidadão de Coimbra, onde foi vereador (1424) e juiz (1426), e de sua mulher, uma senhora da família dos “Velhos”. Por sua vez, este Afonso Domingues era filho de outro Afonso Domingues, que também usava o apelido “Aveiro” e que aqui teria nascido.

Este último Afonso Domingues de Aveiro, o avô de João Afonso, casou com D. Maria Francisca, filha do alvazil geral de Coimbra Afonso Peres, tendo sido sobrejuiz em Coimbra e um dos procuradores às Cortes que se realizaram nesta cidade em 1385, nas quais o Mestre de Avis foi aclamado rei de Portugal. Foi também o cidadão indigitado por Coimbra para integrar o conselho privado de D. João I, embora se ignore se terá sido um dos escolhidos pelo monarca.
O primeiro Afonso Domingues de Aveiro era homem de grande fortuna, possuindo várias propriedades em Coimbra, Aveiro e Aradas, muitas das quais pertenciam a seus pais e a sua avó Maria Anes. O rol destes bens consta do testamento que fez em 1417 (vd. Madaíl, 1959: 156-159), através do qual vinculava todas as suas propriedades e muitos bens móveis à capela e morgado que instituiu na Igreja de S. Tiago em Coimbra, nomeando sua filha natural Maria Afonso, casada com Pedro de Alpoim, como primeira administradora deste vínculo. Tendo esta senhora morrido sem filhos, a administração da capela passou ao seu meio-irmão, o referido Afonso Domingues de Aveiro, o moço.
Afonso Domingues de Aveiro, o moço, teve pelo menos seis filhos: um outro Afonso Domingues de Aveiro, o terceiro administrador do vínculo, falecido sem geração, Catarina Velho, que morreu antes do pai, Isabel Velho, casada com Lopo de Alpoim, o velho, Branca Velho, Teresa Velho e o mais novo, o nosso João Afonso de Aveiro que, durante algum tempo, foi o quarto administrador da capela instituída por seu avô. João Afonso ter-se-ia apropriado da administração destes bens sem que para tanto tivesse legitimidade, que, em julgado, a irmã mais velha os conseguiu para si, transmitindo-os de imediato ao seu filho Lopo de Alpoim, o moço, que terá morrido cerca de 1488 e que, vinte anos antes, era juiz da relação de Coimbra.
A condição de último filho terá obrigado João Afonso de Aveiro a procurar, noutras paragens, um futuro mais promissor, o que, à partida, estaria facilitado pela formação recebida, na tradição de uma família que esteve sempre ligada aos altos cargos municipais de Coimbra.
Pensamos que este João Afonso reúne em si o poeta do Cancioneiro de Garcia de Resende e o fundador da feitoria de Gató (Benim), no Golfo da Guiné, e que terá sido, porventura, o proprietário dos ofícios que, mais à frente, fazemos convergir na sua pessoa.

Muito do que se tem escrito sobre a vida de João Afonso de Aveiro corresponde a uma leitura acrítica do que Barbosa Machado escreveu na sua Biblioteca Lusitana (vol. 2, p. 577), repetido mais tarde por Teófilo Braga na obra Poetas Palacianos. Ferreira Neves, um acrisolado estudioso das coisas aveirenses, chamava a atenção para muitas dessas incongruências, embora o eco das suas conclusões tenha sido quase nulo. Tudo indica que Barbosa Machado se enganou na filiação de João Afonso de Aveiro, e também quando lhe atribui a qualidade de criado de D. Diogo, o 4º duque de Beja e 5º duque de Viseu morto por D. João II em 1484.
Teófilo Braga, para além de seguir Barbosa Machado, acrescenta que João Afonso teria estado envolvido na conspiração que atentou contra a vida de D. João II, sendo esta a razão que o teria levado a ir «viver nas Ilhas». Para tanto estribou-se no título atribuído por Garcia de Resende a uma das poesias compiladas no seu Cancioneiro, poema que o seu autor, o coudel-mor Fernão da Silveira, dirige a João Afonso de Aveiro:

Trovas do coudel moor a Joam Afonsso daueiro, que se foy a viuer nas jlhas, e de laa escreueo que fyzesse algumas cousas por ele, em que entrou fallar a sua dama, e despachar outras com a senhora jfante, e co duque mas ysto veo no tempo da morte do duque.
Em nossa opinião, a explicação para este título poderá residir no conflito que opôs João Afonso a sua irmã Isabel Velho, pela posse da administração do vínculo instituído pelo seu avô, que veio a ser dirimido a favor desta última. O envolvimento de Fernão da Silveira, para além da amizade que o unia a João Afonso, poderia ter motivações parentais, considerando a possibilidade do coudel-mor do Reino ser parente de Catarina Álvares da Silveira, a mulher de João Caldeira, filho de Branca Velho e, por isso mesmo, sobrinho de João Afonso. Com efeito, este João Caldeira, vereador da Câmara de Coimbra em 1468, viria a ser o 8º administrador daquele vínculo.
Afastado da posse daqueles bens, João Afonso de Aveiro teria que procurar a sua independência nos altos cargos do Estado e na aventura marítima. Daí a hipótese de ser ele o cavaleiro João Afonso que, antes de 1463, ocupava o cargo de tesoureiro da moeda de Lisboa e que, nesse ano, foi provido no lugar de contador na cidade de Évora onde, por várias vezes, a Corte estanciou (Moreno, 1980: 894). Poderá ainda ser o João Afonso, cavaleiro da casa do rei, que, em 8 de Março de 1484, foi substituído por Rui Velho no cargo de almoxarife de Santarém (Moreno, 1980: 1081). As coincidências favorecem esta hipótese, se considerarmos que Rui Velho poderia ser seu parente, que sua mãe pertencia a esta família e, segundo Rui de Pina, ter sido nesse ano de 1484 que João Afonso de Aveiro chegou a Gató.
Não podemos, no entanto, ignorar as divergências a nível das fontes, no que se refere à saída de João Afonso para as «Ilhas», isto é, para terras ultramarinas. Se Rui de Pina aponta o ano de 1484, João de Barros (Década I, Liv. III, cap. 3) situa o acontecimento em 1486, informando que, de regresso a Portugal, trouxe consigo um embaixador do rei de Benim e uma amostra da pimenta africana. Mas as duas datas poderão corresponder a duas viagens, que nem seriam as únicas, caso haja correspondência entre o nosso biografado e o João Afonso comandante de um dos navios da frota de Diogo de Azambuja que, em 1481, viajou para o Golfo da Guiné com a missão de edificar a feitoria da Mina. a participação do navegador numa das frotas de Diogo Cão não tem qualquer suporte documental, fundando-se em leitura cabalística de alguns sinais das inscrições da chamada pedra de Ielala, encontrada nas cataratas do mesmo nome, no rio Zaire.
Se todas estas qualidades convergiram na mesma pessoa, João Afonso de Aveiro, nascido em Coimbra e com avós aveirenses, teria sido poeta, navegador e também homem de mercancia, ou D. João II não o teria encarregado de fundar e dirigir a feitoria de Gató ou Ugató. Devido à sua insalubridade, que teria estado na origem da morte de João Afonso em terras da Guiné, esta feitoria acabaria por ser abandonada ainda no reinado do Príncipe Perfeito.

Bibliografia:

BRAGA, Teófilo (1871) – Poetas palacianos. Porto: Imprensa Portuguesa. p. 263, 271-272, 286 e 369.

CRISTO, António (1951) – João Afonso de Aveiro: Introdução a um estudo sobre o famoso navegador aveirense. Aveiro. Arquivo do Distrito de Aveiro. Vol. 17, n.º 65 (1951) 3-22.

CRISTO, António (1956) – O poeta João Afonso de Aveiro. Porto. 21, [3] p.

CRISTO, António (1960) – Alguns problemas sobre João Afonso de Aveiro. Braga. 126, [2] p.

FREITAS, Joaquim de Melo (1878) – Violetas. Porto: Imprensa Portuguesa. p. 311-317.

MACHADO, Diogo Barbosa – Bibliotheca lusitana historica, critica, e cronologica. Na qual se comprehende a noticia dos authores portuguezes, e das obras, que compuseraõ desde o tempo da promulgaçaõ da ley da graça até o tempo prezente. Lisboa, 1741-1759. 4 vol.

MADAÍL, António Gomes da Rocha (org. leitura e revisão) – Colectânea de documentos históricos. I. 959-1516. Aveiro: Câmara Municipal, 1959. p. 156-159.

MORENO, Humberto Baquero – A batalha de Alfarrobeira: antecedentes e significado histórico. Coimbra: Universidade, 1979-1980. p. 894 e 1081.

NEVES, Francisco Ferreira (1957) – Naturalidade e família de João Afonso de Aveiro: navegador e poeta do século XV. Aveiro. Arquivo do Distrito de Aveiro. Vol. 23 (1957) 65-84;

NEVES, Francisco Ferreira (1959) – Para a história da estátua de João Afonso de Aveiro. Aveiro. ADA. Vol. 25 (1959) 280-285.

RESENDE, Garcia de (1902) – Crónica de D. João II, contendo a interessantíssima Miscelânea. Lisboa, 1902.