sábado, 20 de janeiro de 2007

Eixo: quase único em Portugal

Em Portugal, as ocorrências do topónimo Eixo ficam quase reduzidas à vila e freguesia do concelho de Aveiro. No aro desta freguesia encontramos também os microtopónimos Fonte de Eixo, Campo(s) de Eixo, nas margens do rio Vouga, Feira de Eixo, um espaço aberto, hoje já bastante urbanizado, integrando parte da chamada Serra de Eixo ou Monte de Eixo, onde, desde Outubro de 1855, "no dia 3 de cada mês" se realizava uma feira de gado vacum e suíno (Leal, 1874: vol. 3, p.13). Na vizinha freguesia de Eirol existiu "Mato de Eixo" e, na freguesia de Oliveirinha, "Quintãs de Eixo", nomes recolhidos do livro das matrizes do concelho, organizadas nos anos 20 do século passado (Rodrigues & Barreira, 1994: 184, 188). Na freguesia de Esgueira, em documento de 1446, assinalamos os topónimos "Carreira de Eixo", "Caminho do Porto de Eixo", "Azenha do Porto de Eixo" e "Porto de Eixo" (Silva, 1994: 272-314), entretanto já desaparecidos.
O significado de "campo" e "monte", no caso concreto da vila de Eixo, empoleirada na margem esquerda do Vouga, perto da respectiva foz, é-nos dado por um memorialista da terra. O povo, falando do território da freguesia, distingue três zonas, a que chama campo, seca e monte: o campo é o terreno de aluvião, sujeito às inundações do Vouga; a seca, "de natureza sílico-argilo-calcárea", é constituída pelas terras de semeadura não atingidas pelas inundações; o monte corresponde à zona argilosa, reservada a mato e pinheiro, actualmente substituído pelo eucalipto (Magalhães, 1960: 248).
Para além destas ocorrências do concelho de Aveiro, apenas detectámos um Casal do Vale de Eixo, no concelho de Cadaval, e um Vale do Eixo no concelho de Meda.
Na Galiza encontrámos Eixán, um lugar da paróquia de Astureses, no concelho de Boborás; O Eixo, nome de três lugares, um na paróquia de San Román de Vilaestrofe, no concelho de Cervo, outro na de Cordido, concelho da Foz, e o terceiro na de Fazouro, do mesmo concelho da Foz; com o mesmo nome temos também uma paróquia no concelho de Santiago de Compostela; O Eixo de Abaixo e O Eixo de Arriba, são dois lugares da referida paróquia de O Eixo do concelho de Santiago; Eixón corresponde a uma paróquia da invocação de San Xurxo, no concelho de A Pobra do Brollón, na província de Lugo; Valeixe, que parece ser a aglutinação de "Vale de Eixe", dá o nome a uma paróquia do concelho de A Cañiza, na província de Pontevedra. Por último, temos a Serra do Eixe, um alinhamento montanhoso da comarca de Valdeorras.

O topónimo Eixo apresenta algumas dificuldades de interpretação, devido às várias hipóteses credíveis, algumas a remontarem ao período pré-romano. Joaquim da Silveira e Joseph Piel consideram-no um antropotopónimo, apon­tando-lhe, no entanto, origens diferentes. Piel, que devia desconhecer a interpretação de Silveira, desenvolvida sob o pseudónimo de Th. Ramires (vd. Magalhães, 1960: 258), pretende fundar o topónimo Eixo nos nomes supostos de *Ascila ou *Ascilu, a partir do nome Asco bastante atestado, mas a explicação parece não agradar tão pouco ao autor, que des­taca o seu percurso forçado (Piel, 1937-1945: 84-85), no que estamos de acordo, já que nos parece muito precoce a queda do -l- intervocálico.
Para Silveira, Eixo derivaria do antropónimo Ascius (Ramires, 1904), hipótese foneticamente possível, e interpretação a considerar.
Por nós, consideramos igualmente a possibilidade de uma origem no antropónimo Arcius, que aparece com frequência nas regiões celtas da Península, na forma simples ou derivada, não havendo qualquer testemunho fora da Hispânia (Palomar Lapesa, 1957: 39 e 41). Mas também consideramos provável uma origem no antropónimo latino Axius que, sendo pouco vulgar na Península, explicaria o pequeno número de topónimos a ele ligados.
A possível evolução dos antropónimos atrás apontados, por Joseph Piel, Joaquim da Silveira e por nós próprios, exige, desde logo, uma explicação prévia, no que se refere ao latim ‑ci‑, pois só perante ela se poderão justificar os passos posteriores. Como afirma Silva Neto

é dos mais importantes o tratamento de c e g antes de e e de i. Desde antes do período histórico do latim as guturais antes das vogais citadas não eram sons velares, mas pré-palatais pronunciados très en avant. Com efeito, a fonética histórica do latim evidencia que c e g impediram a passagem de e para o em casos como: scelus, gelu, celsus, etc. (1992: 202-203).

Pelo que fica dito, percebe-se como o latim ‑ci‑ já soava próximo de /chi/, o que seria mais notório quando antecedido de outra fricativa sibilante, como era o caso do s, o que levaria, no português antigo, à respectiva assimilação, num som que podíamos representar por /ssi/ e que, entre vogais, passava a ‑ix‑ /ich/, fenómeno presente na passagem do latim passione- ao português "paixão" (Huber, 1986: 120), explicando-se a hipótese de Joaquim Silveira pela sucessão Asciu- > *Ascio > *Assio > *Aixo > "Eixo".
O mesmo aconteceria com Arciu-, pois ‑rs‑ passava a ‑ss‑ por assimilação, como se patenteia em aversu, que deu "avesso" ou em ursu, de que resultou osso ou usso "urso" no português antigo (Idem: 145), pelo que, neste caso, a evolução seria quase idêntica à anterior: Arcius > *Arcio > *Assio > *Aixo > "Eixo". E outro tanto poderemos afirmar para Axiu-, cuja evolução daria Eixo, como o latim area- deu "eira".
É para este último antropónimo que nos inclinamos, mesmo tendo em conta a tardia ditongação da primeira sílaba de Eixo, apenas registada no final do século XII — Exso (1050), Exu (1081), Exo (1095), Hexo (1182), Eyxo (1183)—, pois esse atraso poderá firmar-se num possível superestrato, considerando os antropónimos hispano-árabes e moçárabes encontrados entre possessores locais, e também porque língua escrita e língua falada são realidades diferentes, podendo os testemunhos da primeira não coincidir com a segunda.
Mas haverá outras hipóteses a considerar, como seja uma origem na voz céltica exe "água" (Walter, 1996: 362), ou no vasco etxe "casa" (Goikoetxea, 2002: 167). A explicação, para a origem de Eixo (Exo), não ofereceria aqui qualquer dificuldade fonética e a presença de substratos pré-romanos na microtoponímia da zona, como o arcaísmo "Arrujo" ou "Balsa", favoreceriam estas hipóteses. Neste caso, a ditongação da primeira sílaba poderia explicar-se por etimologia popular, expressa através da atracção paronímica do apelativo "eixo".
A probabilidade ibero-basca, apresentada em segundo lugar, é tanto mais credível quanto sabemos ser a "casa" a uni­dade básica da sociedade vasconça (Entwistle, 1995: 34), equiparando-se ao papel desempenhado no noroeste ibérico pelas realidades expressas nos topónimos Casal, Vilar, Paço ou Quintã, entre outros. Em reforço desta interpretação temos um vale da Cantábria, entendido aqui o termo "vale" como uma unidade sócio-económica de povoamento, denominado Hecho e já documentado em 867. Em 1116 o referido vale de Hecho contava nove villas, uma das quais chamada Ecxo, nomes bem próximos das grafias acima apontadas para o nosso "Eixo" (Diez Herrera, 1993: 6-7; 15). Mas, neste caso, temos duas grafias distintas e coevas, que corresponderão, certamente, a diferentes etimologias.
Estas falas podem, no entanto, ter ainda uma outra origem, se ponderarmos o galês echen "manancial, fonte, nascente", mas também "família, linhagem, tribo" (Nodine, 2003), o que permitiria concluir por uma ocupação celta da região de Eixo, que poderia igualmente abarcar a zona de Aveiro.
Apesar de nos inclinarmos para o antropotopónimo com base no nome latino Axiu-, que corresponderia a uma villa de Axiu-, não queremos deixar de apresentar uma última interpretação, que tem em conta as já referidas formas Exso, Exu, Exo, Hexo e Eyxo, mas também a abundância do topónimo Eiche(n) na Alemanha renana, território ocupado durante séculos pelos chamados germanos ocidentais, entre os quais se contam os Suevos. A confluência destes factores permitem-nos aventar a hipótese de "Eixo" provir do suevo *eich "carvalho", do germânico *aiks (Wahrig, 1997: 392, s.v. Eiche), tendo presentes os fenómenos fonéticos da segunda mutação consonântica da língua alemã, protagonizada precisamente pelos referidos germanos ocidentais. Entre estas mutações, que foram absorvidas pelo alto-alemão, está a evolução da oclusiva forte k para a fricativa constritiva ch, /kch/, quando ocorria no interior das palavras, ou entre vogais, ou no fim da palavra depois de vogal, o que, sendo o caso, legitima a reconstrução *eich atrás apresentada, a qual, entre falantes aloglotas, soaria muito próximo do registo Exso, de 1050, o mais antigo certificado para "Eixo".

Para terminar importa deixar um aviso aos incautos. Corre em letra de imprensa (Gaspar, 1998: 21) uma interpretação absolutamente estapafúrdia, que arruma os trabalhos de Joaquim da Silveira e de Joseph Piel nas "hipóteses etimológicas […] menos eruditas ou mesmo ingénuas" (Idem: p. 23). Convenhamos que é necessária muita lábia, para rotular desta forma dois conceituados linguistas, nomeadamente quando se trata do autor de uma obra que deixa muito a desejar. A obra em questão organiza-se sob a forma de calendário ou anais, fornecendo ao investigador um conjunto de informações importantes, como ponto de partida para trabalhos de história local. Quando o autor pretende fazer história, o que acontece, por exemplo, no primeiro capítulo, e também nalgumas entradas, continua, à semelhança de publicações anteriores, a semear incongruências e erros graves, consequência directa da bibliografia consultada, alguma por demais ultrapassada, mas também de contributos pessoais prejudicados por uma marcada ausência de conhecimentos científicos nesta área do saber.

Bibliografia:
DIEZ HERRERA, Carmen (1993) — El "valle" unidad de organización social del espacio en la Edad Media. Estudos Medievais. Porto: Centro de Estudos Humanísticos. N.º 10 (1993), p. 3-32.
ENTWISTLE, William J. (1995) — Las lenguas de España: Castellano, Catalán, Vasco y Gallego-Portugués. Madrid: Ediciones Istmo. 443 p. (Colección Fundamentos; 30). ISBN 84-7090-018-8.
GASPAR, João Gonçalves — Eixo na história. Eixo: Paróquia de Santo Isidoro, 1998. 346 p. ISBN 972-97845-0-7
Goikoetxea, Jon Akordagoikoetxea (dir.) (2002) — Hiztegi Handia: Castellano-Euskara / Euskara-Gaztelania [Grande Dicionário Castelhano-Vasco / Vasco-Castelhano]. Barcelona: Spes Editorial. X, [4], 547, IV, 481 p. (Vox). ISBN 84-8332-348-6.
HUBER, Joseph (1986) – Gramática do português antigo. Introd. de Luis Lindley Cintra. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. 417 p.
LEAL, Augusto Soares d' Azevedo Barbosa de Pinho; FERREIRA, Pedro Augusto (1873-) — Portugal antigo e moderno: diccionario geographico, estatistico, chorographico, heraldico, archeologico, historico, biographico e etymologico de todas as cidades, villas e freguesias de Portugal e grande numero de aldeias. Lisboa: Livraria Editora de Mattos Moreira, 1873-1890. 12 vol.
LOPEZ-MENDIZABAL, Isaac (1976) – Diccionario Vasco-Castellano. 6ª ed. San Sebastian: Editorial Auñamendi. 450 p. (Colección Azkue; 9). ISBN 84-7025-104-X.
MADAÍL, António Gomes da Rocha, ed. (1959) — Milenário de Aveiro: Colectânea de documentos históricos I (959-1516). Aveiro: Câmara Municipal. 330 p.
MAGALHÃES, Carlos Vidal Coelho de (1960) — A antiga vila de Eixo: apontamentos para uma monografia. Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro: Francisco Ferreira Neves. Vol. 26, nº 104 (1960), p. 243-290. Trabalho datado de cerca de 1948.
NODINE, Mark H. (2003) – Welsh to English Lexicon. Dicionário on-line de Galês-Inglês, no endereço: http://www.cs.cf.ac.uk/fun/welsh/LexiconForms.html
PALOMAR LAPESA, Manuel (1957) — La onomástica personal pre-latina de la antigua Lusitania: estudio lingüístico. Salamanca: Colegio Trilingüe de la Universidad, 1957. 168 p. (Theses et Stvdia Philologica Salmanticensia; n.º 10).
PIEL, Joseph M. (1937-1945) — Os nomes germânicos na toponímia portuguesa. Lisboa: Centro de Estudos Filológicos. 220 p., 2 vol. Separata de: Boletim de Filologia, vol. 2 (1933) a vol. 7 (1944).
RAMIRES, Th. [pseudónimo de Joaquim da Silveira], in Correio do Vouga. Eixo. N.º 9 (1 Abril 1904) (apud Magalhães, 1960: 258).
RODRIGUES, Manuel Ferreira; BARREIRA, Manuel — Toponímia do concelho de Aveiro: elementos para o seu estudo. Estudos Aveirenses: Revista do ISCIA. Aveiro: FEDRAV. ISSN 0872-4873. Vol. 3 (1994), p. 167-194.
SILVA, Maria João Branco Marques da (1994) — Esgueira: a vida de uma aldeia do século XV. Cascais: Patrimónia. 344 p. (Dissertações). ISBN 972-744-000-2.
SILVA NETO, Serafim (1992) — História da língua portuguesa. 6ª ed. Rio de Janeiro-Lisboa: Presença/DinaLivro. 670 p. (Colecção Linguagem; 11). ISBN 1-85-252-008-5.
VIEIRA, Venâncio Dias de Figueiredo (1984) — Memória sobre a vila de Eixo. Boletim Municipal de Aveiro. Aveiro: Câmara Municipal. [ISSN 0873-335X]. Nº 3 (Abril 1984), p. 30-64. Memória redigida cerca de 1870.
WALTER, Henriette (1996) — A aventura das línguas do ocidente: a sua origem, a sua história, a sua geografia. Lisboa: Terramar, [1996]. 496 p. ISBN 972-710-137-2.
WAHRIG, Gerhard (1997) — Deutsches Wörterbuch: mit einem, Lexikon der Deustschen Sprachlehre. Gütersloh: Bertelsmann Lexikon Verlag. 1420 p. ISBN 3-577-10677-8.

1 comentário:

Antonio Rafael Carvalho disse...

Parabens pela temática do blog. A toponimia é muito importante para o estudo de uma região porque representa uma marca de um determinado passado que foi necessário manter.