terça-feira, 27 de maio de 2008

JAIME DE MAGALHÃES LIMA 1859-1936 (biografia)

Jaime de Magalhães Lima foi daquelas personagens de multímoda mundividência que, pela extrema e variada riqueza interior, escapa a qualquer tentativa de arrumação em cacifo ideológico padronizado. Tocado por uma miríade de influências, cujas raízes mergulham no cristianismo de S. Francisco de Assis e nas doutrinas de Leão Tolstoi, passando pelo movimento Arts and Crafts de William Morris e John Ruskin1 e pela comunhão de ideais com alguns dos grandes vultos das nossas gerações oitocentistas, de que cumpre destacar Antero de Quental e Oliveira Martins, não deixou por isso de construir o seu próprio caminho, calcetando-o com um apurado sentido crí­tico e, sobretudo, com muita lucidez e tolerância, milímodas cumplicidades e um inco­mensurável respeito pelo Outro.

Filho de Sebastião de Carvalho Lima e de D. Leocádia Rodrigues de Magalhães, nasceu em Aveiro a 15 de Outubro de 1859, no palacete que seu pai mandara construir sobre as ruínas do Convento do Carmo, adquiridas em 1856 a Manuel José Mendes Leite, o fiel e eterno companheiro de José Estêvão e autor da iniciativa legislativa que terminou com a pena de morte para os crimes políticos (1852), gesto pioneiro a nível europeu. Nesse mesmo ano, o seu irmão Sebastião de Magalhães Lima, cujo percurso intelectual e político seria bem diferente, saía de Aveiro para frequentar o colégio alemão Roeder.

As questões políticas estariam quase sempre presentes no ambiente familiar da sua infância, pois o pai, para além de deputado, foi presidente da Câmara de Aveiro e da Junta Geral do Distrito, representando, na cidade dos canais, as cores do Partido Histórico, facção política surgida no início da Regeneração sob a liderança do duque de Loulé.

Tendo feito os preparatórios para os estudos superiores no Colégio Aveirense, iniciou o seu curso de Direito, na Universidade de Coimbra, no ano em que sua mãe falecia na residência da Rua do Carmo. Tinha dezasseis anos.

Frequentando a Universidade entre 1875 e 1880, será aqui influenciado pelo pensamento de Karl Krause, filósofo do Direito e discípulo de Schelling e de Fi­chte. O krau­sismo, cujos prosélitos conimbricenses foram sobretudo Costa Lobo, Rodrigues de Brito e Emídio Garcia, estará por detrás da concepção organicista da realidade social, comungada por Jaime Lima e presente no seu modelo de representação política. As ideias de Krause encontraram campo propício entre os críticos do individualismo liberal, muitos deles também liberais, mas que viam com mágoa e inquietação a facilidade com que se destruíam os equilíbrios da sociedade tradicional e os seus esteios axiológicos, como acontecia com Costa Lobo que, já em 1864, na sua tese de doutoramento, avançava para soluções corporativistas, apresentando a sociedade "como verdadeiro organismo […com] seus membros reciprocamente dependentes". Ao longo da segunda metade de Oitocentos o krausismo influenciará ainda muitos dos alunos da Faculdade de Direito de Coimbra, mercê dos magistérios de Rodrigues de Brito e Emídio Garcia.

A profunda amizade que une Jaime de Magalhães Lima a Luís de Magalhães, filho de José Estêvão, seu condiscípulo em Coimbra e futuro cunhado, relaciona-o com importantes nomes da Geração de 70 e com outras personalidades do meio cultural nortenho. Luís de Magalhães residia na quinta do Mosteiro, em Moreira da Maia, numa época em que Oliveira Martins se fixara no Porto, às Águas Férreas. Não muito longe, em Vila do Conde, demorava Antero de Quental e, um pouco mais além, na Quinta de Boamense, em Cabeçudos, nas proximidades de Famalicão, vivia Alberto Sampaio. Nas tertúlias do Porto, em Santo Ovídio, na casa de Oliveira Martins, na Quinta do Mosteiro2, na tebaida de Vila do Conde ou em Boamense, juntavam-se com frequência Luís de Magalhães, Jaime Lima, Antero de Quental, Oliveira Martins, Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão, Alberto Sampaio, António Feijó e tantos outros, residentes no Norte do país ou simplesmente por ali passando de visita.

Jaime Lima ficará indelevelmente ligado a muitos destes homens, com destaque para Antero, cujo idealismo e afinidades intelectuais propiciaram uma maior aproximação, por demais evidente na correspondência trocada e no tratamento familiar que adoptaram entre si, deixando "as excelências para aqueles com quem não temos outra comunhão senão a de pertencermos à mesma sociedade em geral — muito geral 3".

Em Coimbra, o convívio e as leituras trazem-lhe as primeiras hesitações religiosas, que igualmente tocarão o seu amigo Luís de Magalhães. Isso mesmo parece transparecer do poema publicado aos 64 anos, assomo de prestação de contas e prenunciação de uma partida que o destino marcou para cerca de treze anos depois:

[…]
Os anos de inocência e os da paixão;
os de orgulho sombrio e os da humildade;
os da fé;
e também esses, funestos, tenebrosos,
da Descrença e da Dúvida;
[…] 4

O teor de uma carta de Antero de Quental, datada de finais de 1886, dá-nos conta da superação desta crise, correspondendo, talvez, às primeiras aproximações de Magalhães Lima a S. Francisco de Assis e a Tolstoi:

Tudo isto, meu caro Magalhães Lima, veio, não sei bem como, para lhe dizer uma cousa muito simples, e é o que mais me alegrou na sua carta foi o dizer-me que começava a sentir, nestes últimos tempos, um renascimento dos antigos sentimentos religiosos, embora transformados, e uma invencível necessidade de idealismo.5

Um ano antes, em 1885, tinha sido publicada a tradução francesa da Religião de Leão Tolstoi que, como o próprio Jaime Lima confessa ao autor, apenas leu depois da visita que lhe fez, mas a influência tolstoiana já se fazia sentir através da leitura de outras das suas obras:

Li a sua "Religião" e voltarei a ler brevemente todas as suas obras traduzidas em francês. Ela (a "Religião") causou-me uma impressão tão profunda que resolvi dedicar-lhe um estudo que deverá ser publicado no próximo verão. […] Não estamos de acordo em muitos pontos, mas devo confessar-lhe que, há já bastante tempo, muitas vezes com a ajuda dos seus livros, me sinto voltar à religião e à humildade. É possível que as vicissitudes da minha vida tenham contribuído muito para isso; sempre estou convencido de que a vida não tem outra finalidade senão a virtude, e cada dia sinto mais sincero e profundo arrependimento das minhas faltas e dou a maior parte dos meus pensamentos ao amor de Deus.6

Por esta época, quando dobrava o quarto de século e a Europa estrebuchava de nacionalismos e imperialismos, com a Conferência Internacional de Berlim (1884) a traçar os primeiros contornos do domínio europeu em África, Jaime Lima inicia uma prolixa produção literária, através da qual procura intervir na sociedade portuguesa, ou simplesmente exercer um magistério democrático de divulgação das ideias que, colhidas aqui e ali, lhe parecem merecedoras de partilha. Esta ânsia de comunicar exprime-se em cerca de novecentos títulos, distribuídos por dezenas de jornais e revistas, trinta livros, quatro traduções-adaptações e vinte opúsculos de outras tantas conferências. Uma parte importante da sua colaboração em publicações periódicas terá o destino da produção literária de John Ruskin: a compilação posterior em pequenos volumes, porque,

para serem companheiros do coração, os livros hão-de ocultar-se, como tudo o que é amado do coração; irão connosco, unidos ao corpo, sem que olhares profanos os insultem com escárnio ou indiferença. […] Por isso, eu quero aos livros bons e pequeninos, como às violetas do meu jardim.7

A Província, órgão do Partido Progressista fundado no Porto por Oliveira Martins, será o primeiro jornal a acolher colaboração continuada de Jaime Lima, que se estende por alguns anos. São artigos literários, sobre autores nacionais e estrangeiros, peças versando temas agrícolas, mas também aparecem os assuntos de cariz económico e social ou de política nacional e internacional, muitos deles a propósito de obras publicadas em diferentes países da Europa.

Em 1888, quase a completar os 29 anos, durante os meses de Setembro e Outubro, faz uma grande viagem pela Europa, regressando pelo norte de África e sul de Espanha. Nesta longa peregrinação, cujo diário vai publicando no periódico de Oliveira Martins, visita Leão Tolstoi, na sua residência de Iasnaia Poliana, fortalecendo os vínculos que, desde há algum tempo, o prendiam ao pensamento do grande escritor russo. No regresso escreve a Tolstoi e carteia-se com Antero, comentando com o amigo as impressões recolhidas nas entrevistas que manteve com o autor de Guerra e Paz.

O cristianismo democrático e filantrópico de Tolstoi ajustava-se às preocupações sociais das elites intelectuais da época, o que explica o impacto do "santo laico" em toda a Europa e particularmente em França, país que visitou e onde tocou fundo a sua adesão às doutrinas de Proudhon. Jaime Lima contactou a obra de Tolstoi a partir do livro Le roman russe de Eugène-Melchior de Vogüé e das traduções francesas que se multiplicavam no último quartel de Oitocentos.

Esta longa deambulação pela Europa e a visita a Tolstoi parecem culminar uma fase importante da sua vida, à procura de um caminho e de decisões para o futuro. Regressado a Portugal anuncia a Antero de Quental o seu próximo casamento, que terá lugar em Condeixa. Jaime de Magalhães Lima casou em 23 de Julho de 1889 com D. Maria do Cardal de Lemos Pereira de Lacerda, filha de Francisco de Lemos Ramalho de Azeredo Coutinho, morgado da Casa de Condeixa, e irmã de D. Maria da Conceição de Lemos Pereira de Lacerda, casada desde Fevereiro de 1884 com Luís Coelho de Magalhães. Um pouco antes, em carta datada de 28 de Maio, Antero manifestava-lhe o seu regozijo:

Já me tardava vê-lo casado — e posso dizer-lhe agora que mais de uma vez tinha pensado nisso, e sentido até a tentação de lhe dar esse conselho; mas achava a matéria tão delicada, tão absolutamente do foro íntimo, que nunca me atrevi. Veja pois com que prazer recebi a notícia, que me dá! O dia do seu casamento será para mim um de verdadeira alegria. Não lhe citarei o famoso "não é bom que o homem esteja só" da Bíblia, ainda que há uma grande verdade nesse conceito; mas, tomando a coisa por outro lado, dir-lhe-ei que só é verdadeiramente livre aquele que sabe limitar voluntariamente a sua liberdade […] Entrou, meu caro amigo, num caminho em que todos os dias irá sentir o chão mais firme debaixo dos pés, mais lúcido o pensamento, mais serena a consciência. Vivendo cada vez mais para os outros, sentindo morrer em cada dia dentro de si mais uma parcela do eu egoísta que tanto nos ilude, tanto nos faz sofrer e errar, irá entrando gradualmente naquela região da impersonalidade que é a verdadeira beatitude.8

Os acontecimentos de 1890, e a forma como Portugal respondeu ao Ultimato inglês, desencadearam, um pouco por todo o país, um coro de lamentos e assuadas, quando não ferozes manifestações de nacionalismo ofendido. Republicanos e socialistas zurziram a instituição monárquica, enquanto a agressividade da imprensa, que nem a nova "lei da rolha" conseguia calar, e a denúncia da dependência económica e política de Portugal face à Inglaterra despertavam sentimentos anti-ingleses e faziam cair governo atrás de governo.

Jaime de Magalhães Lima acabará por entrar na política activa, já depois da recusa ao grito desesperado de Antero, que o pretendia no Porto como secretário-geral da Liga Patriótica do Norte a que presidia:

O Jaime é o homem, é o único. Há-de vir. O que se vai passar em Portugal é seriíssimo. Faça cada um o seu sacrifício no altar da Pátria. Eu sacrifico a minha saúde, que naufragará de todo no meio disto, e muito provavelmente o meu nome, que antes de 6 meses estará manchado. […] O Jaime fará também à Pátria e ao Bem o seu sacrifício. Venha.9

O malogro da iniciativa, que tentava uma ampla frente, suprapartidária, capaz de salvar a Pátria da decadência e da crise permanente em que vivia, aplicando um vasto programa que recuava ao diagnóstico da "Geração Nova" e das Conferências democráticas do Casino Lisbonense, terá contribuído para o desânimo de Antero e para o agravamento da misantropia que o conduziria ao suicídio, em 11 de Setembro de 1891. Jaime Lima, apesar de ter recusado o cargo de secretário-geral da Liga, lugar que foi preenchido pelo Conde de Resende, aderiu ao projecto e disso deu público testemunho na primeira página d’ A Província de 3 de Março de 1890.

Recém-casado, o escritor aveirense remete-se à vida familiar e ao estudo da obra de Tolstoi, reduzindo drasticamente, ao longo de alguns anos, a sua colaboração na imprensa. No entanto, é durante este período que o futuro "eremita" da quinta de S. Francisco se lança na política activa, começando por integrar, com Luís de Magalhães e Alberto Sampaio, o grupo dos chamados "governamentais", apoiantes do projecto "Vida Nova" corporalizado no pensamento e na pessoa de Oliveira Martins. O desiderato apontava para a salvação de Portugal e para a aplicação de um conjunto de medidas capazes de ultrapassar a bancarrota do Estado e a crise financeira, e estancar as falências que se sucediam em catadupa. Oliveira Martins conseguirá inverter esta tendência, durante os quatro meses em que sobraçou a pasta da Fazenda, mas o êxito não evitará a sua saída do governo e a consequente solidariedade dos amigos, que deixam de apoiar o Ministério de José Dias Ferreira.

A traição a Oliveira Martins custou a Dias Ferreira a chefia do governo, vingança cozinhada por alguns dos "governamentais" e consumada no regresso de um governo partidário regenerador, com Hintze Ribeiro na presidência e João Franco na pasta do Reino. Mas o Partido Regenerador não fugia à profunda desordem que campeava nos velhos partidos monárquicos, ele próprio com várias facções a digladiarem-se e com uma direcção bicéfala, em que pontificavam Hintze Ribeiro e João Franco, nem aos vícios arranjistas alimentados pelas benesses distribuídas em função dos acordos de caciques e chefes políticos.

Em 1892 Jaime Lima é eleito presidente da Câmara de Aveiro e, no ano se­guinte, deputado pelo Partido Regenerador, continuando, coerentemente, a defender as ideias de Oliveira Martins. Em 1894 perde mais este amigo e, dois anos depois, morre-lhe o pai. Novamente deputado por Aveiro, eleito em 1897, colabora na imprensa local e noutras publicações ligadas ao Partido Regenerador, apoiando, com Luís de Maga­lhães e Alberto Sampaio, as reformas franquistas da lei eleitoral, identificadas com os princípios do krausismo e da "representação orgânica" de Oliveira Martins, que ele próprio defendia desde há doze anos. Mas todas estas reformas foram caindo depois de 1896 e, no ano imediato, poucos meses depois da conquista do poder pelos pro­gressistas de José Luciano de Castro10, completava-se o desmantelamento de toda a estrutura eleitoral franquista.

Em 1901 acompanha João Franco na cisão do Partido Regenerador, passando a dirigir a estrutura aveirense do novo Partido Regenerador-Liberal. Contudo, por esta época, a organização local dos partidos continuava a ser quase inexistente, circunscrita a uma ou outra figura de projecção regional, o que lhe permitiu ler e escrever intensa­mente, apostando na divulgação de Ruskin, Channing, Wordsworth, Michelet ou S. Francisco de Assis, e multiplicando os artigos sobre o que foi uma das suas grandes paixões, a silvicultura teórica e experimental dos eucaliptos.

Com a queda do Franquismo, em 1908, afasta-se definitivamente da política e instala-se na Quinta do Vale do Suão, em Eixo, nos arredores de Aveiro, rebaptizada de Quinta de S. Francisco. Nesta opção pelo contacto permanente com a natureza, le­vada ao extremo de não permitir cortinados nas janelas do seu gabinete de trabalho, para poder ver as árvores e as aves, seguia duas das suas referências intelectuais mais queridas: Alexandre Herculano, afastado de Lisboa e recolhido em Vale de Lobos, e John Ruskin retirado na pequena quinta de Brantwood, perto de Coniston Lake.

Afastado da ribalta tumultuosa da vida política e usufruindo avidamente a mãe Natureza, iniciava aqui o último período da sua vida, sempre atento ao mundo exterior, ao qual descia vezes sem conta por exigência dos que queriam ouvir a sua voz res­peitada. Com efeito, ao longo deste período, sucedem-se as conferências e palestras sobre os mais variados assuntos e nos mais diversos locais. O refúgio de Eixo produz de imediato o seu primeiro S. Francisco de Assis11, leitura heterodoxa do catolicismo oficial que mereceria alguns reparos de D. João Evangelista de Lima Vidal, seu primo e bispo de Aveiro. O livro é acusado de inter­pretar a vida do Poverello à luz do protestantismo do hagiógrafo Paul Sabatier12 o que levará Jaime Lima a escrever um outro, publicado já depois da sua morte, em 1956.

Seguem-se duas traduções de Tolstoi e um estudo sobre Alexandre Hercula­no, acompanhados por uma pertinaz colaboração na imprensa, por onde perpassam os problemas de Portugal, da Europa e do Mundo. Devorador de livros e jornais, aprendeu o inglês como autodidacta, o que lhe permitiu o contacto com o mundo anglo-saxónico, recorrendo a um vasto leque de periódicos britânicos, fossem eles londrinos ou da imprensa regional13, mas também a um variado número de títulos publicados em Inglaterra, que encomendava e recebia no eremitério de Eixo.

Acompanhando com especial atenção a vida política da Alemanha, e atento ao crescendo do nacionalismo prussiano, quase adivinhou o eclodir da 1.ª Guerra Mundial. Crítico aceso do imperialismo alemão, acabará por rejeitar liminarmente o cesarismo bismarckiano e a política de alianças com a social-democracia marxista, responsabili­zados pela instabilidade política do velho continente:

Levou tempo a fazer e deu muito trabalho essa nova Alemanha. Para isso foi necessário arrasar, como alegremente se arrasou, até aos alicerces, aquela outra Alemanha gloriosa, dos tempos em que militarmente era vencida, a Ale­manha de Kant, de Lessing, de Goethe e de Beethoven, do tempo em que, toda impregnada de idealismo, de sabedoria, arte, ingenuidade, simplicidade e anseios de liberdade, tinha menos ciência de laboratório e mais ciência do co­ração, e não sabia mentir, intrigar, corromper e oprimir14.

Nos seus escritos sobre a guerra sobressai a admiração pela Grã-Bretanha e pelo seu papel civilizador, apresentados em contraponto da barbárie germânica e como paradigma das sociedades democráticas:

Se vemos um estupendo império, como o da Grã-Bretanha, englobando sob a mesma bandeira, irmãmente querida e amada, as raças mais diversas e as mais diversas aspirações, é porque para esse milagre político, sem precedente na história, se criou um povo em cujo génio, por uma arte que é maravilha de espontânea perfeição, se conciliam praticamente as maiores e desusadas li­berdades com a coincidência em uma unidade, para a qual provavelmente só se encontrará justificação na comunidade de amor à própria liberdade e no propósito íntimo de a manter e defender.15

Denunciada a guerra e equacionados os problemas da Europa, Jaime Lima en­trega-se de novo às grandes questões nacionais, procurando intervir na sociedade portuguesa com vista à sua transformação, à redescoberta dos seus valores e tradi­ções… da sua alma. Perdidos os velhos amigos da Geração de 70, encontrará novas cumplicidades, sem no entanto chegar à íntima comunhão experimentada com Antero ou Oliveira Martins. Portugal estava mudado, o que era por demais visível no cresci­mento de Lisboa e de outros centros urbanos, na transformação da paisagem, com a proliferação das chaminés de fumo a romperem aqui e ali, bem como no aumento de uma classe média de funcionários e profissões liberais. Os tempos eram outros e os homens também. Os intelectuais portugueses do primeiro terço do século XX procuravam, em desespero de causa pela pequenez do meio, o arrimo das capelinhas, mais interessados em dar visibilidade a cada um dos "grupinhos literários", como lhes chamava Jaime Cortesão, que em produzir obra de fundo. As revistas literárias, que se multiplicavam em Lisboa e no Porto, duravam o tempo da sua agressividade e das polémicas que sustentavam o mercado.

As ideias que germinavam em França, nas vésperas do primeiro conflito mundial, ameaçavam invadir Portugal, cujas elites intelectuais eram, desde há muito, francófilas. E fizeram-no, com António Sardinha e outros corifeus do Integralismo Lusitano. Aquilino Ribeiro, desde Paris, bem podia clamar, nas páginas d’ A Capital, contra o perigo da importação do bergsonismo e do ideário da Action Française, e para a necessidade de descobrirmos um caminho português para a democracia portuguesa. O tradicionalismo acabará por constituir um elo de ligação entre pensamentos e movimentos diferenciados que, a partir de determinada altura, apostam no rejuvenescimento da alma nacional e na afirmação da individualidade portuguesa. Aqui se encontrarão os últimos românticos, os integralistas, os saudosistas, lusitanistas e criacionistas da Renascença Portuguesa, os modernistas da revista Orpheu, os seareiros, os sebastianistas e tantas outras seitas da cultura lusa dos inícios do século, "ismos" que, alimentados por dissidências e trânsfugas, cresciam de costas voltadas para o pensamento político dominante e para a Universidade.

Jaime de Magalhães Lima, espírito sempre aberto e tolerante, não recusou a entrada nesta procela babilónica, preso que estava à vocação e missão proféticas de defesa dos valores, tradições, língua e arte portuguesas, cujos objectivos se prendiam, mais além, com a felicidade e a harmonia para a Pátria portuguesa:

Pudessem os deuses ouvir as minhas obstinadas e roucas orações e pelos seus eleitos mandassem aos homens, senão a felicidade e a paz que não são muito de esperar entre os clamores da psicologia e da história, ao menos uma transitória remissão das inquietações, uma pausa no sofrimento pela qual debalde vamos suspirando entre o copioso saber, forças inauditas e vastíssimas riquezas que a nossa era ostenta e a nossa jactância apregoa!… Tivesse eu a felicidade de pressentir, de longe que fosse, as bênçãos de um novo reino!… Isso em consciência me absolveria da impertinência dos zumbidos com que procuro atormentar os ouvidos estranhos.16

Concorre com os seus escritos, nalguns casos esporadicamente, para revistas de diferentes tendências, sejam elas a Atlântida, A Águia, Lusitânia, A Ilustração Moderna, Portucale, Ilustração ou a Seara Nova. Em 1918 é um dos co-fundadores da LAN – Liga de Acção Nacional, colaborando no respectivo órgão, a revista Pela Grei, cujo subtítulo, Revista para o Ressurgimento Nacional pela Formação e Intervenção de uma Opinião Pública Consciente, exprimia claramente os objectivos da associação17. Em 1923 integra o grupo de 40 fundadores da Revista dos Homens Livres, dinamizado pelos seareiros António Sérgio, Raul Proença e Jaime Cortesão, movidos pelo propósito de trazerem à sua causa intelectuais que não se revissem no projecto da Seara Nova. António Sardinha, que havia atacado a experiência de 1918, alcunhando-a de "anglo-saxonismo de importação", numa alusão às ideias de Reis Santos, adere agora a este grupo, com Pequito Rebelo, seu correligionário do Integralismo que o havia seguido na evolução anti-monárquica. A heterogeneidade do grupo estender-se-á igualmente a anarquistas, ex-franquistas, monárquicos conservadores e sebastianistas, mostrando quão forte era o mal-estar da intelectualidade portuguesa perante as realidades sociais e políticas do país. Jaime Lima desde há muito defendia esta unidade de acção, escrevendo, em 1905:

Que um punhado de crentes devotados guarde a tradição do povo e sua glória,— seu amor do trabalho, sua honradez, bondade resignada e paciência, desprendimento, austeridade,— e Portugal ressurgirá do aviltamento, como renascem a Irlanda, a Hungria, a Polónia e tantos outros povos oprimidos, ou pelos próprios erros e loucuras ou pela ambição cruel dos poderosos. Nunca uma só batalha se perdeu, quando foi combatida por justiça e nobreza.18

Quase panteísta, atrever-nos-íamos a dizer "panteísta-cristão", no êxtase que experimenta na adoração da natureza, percorre montes e vales, preferindo sentir a aspereza dos caminhos a percorrê-los sobre quatro rodas, ele que possui o primeiro automóvel de Aveiro:

Já não há caminhos, há transportes, qualquer coisa que se move na estrada mas parece desconhecê-la. Pelo menos, não deixa que os sentidos a conheçam. Viajar, nesta sujeição, não é calcar a terra, é repudiá-la19.

Estes gritos de amor à terra, plasma em que mergulha todo o seu pensamento e vida interior, são brados de cabouqueiro ecológico, de quem acredita

na terra, no seu poder de transposição paradisíaca, na felicidade e bem-aventurança que ela concede a quem a ama e serve, fielmente, em louvor e culto e humildade.20

A religião é, em Jaime de Magalhães Lima, o culminar de todo o seu viver, a síntese que encerra, superiormente, o Criador e a Criatura, englobando, nesta, toda a humanidade, todos os seres vivos, todas as areias, fragas, campos e serras. De fora parece quedar-se a cidade moderna, antro de vaidades e riquezas, artefacto industrial gerador de misérias morais e sociais, lugar onde "todos nos desconhecemos, evitamos e isolamos, quando não nos atropelamos"21. Sem se afastar de Deus, antes procurando-o, a religião limiana aproxima-se assim do pampsiquismo anteriano, tão bem descrito pelo poeta filósofo ao seu assumido discípulo22, e não se alimenta de

certos bolores das sacristias, superstições carunchosas e hipocrisias parasitárias, […nem de] batinas em debandada que, já esfarrapadas por diversas aventuras anteriores, cobriam mal a boçalidade de sacerdotes muito mais dedicados à sordidez e à impostura do que a Cristo.23

Esta religião, cantada em tantos livros de Jaime Lima, mas sobretudo nas Rogações de Eremita24 ou nos Salmos do Prisioneiro25, bem mais belos que os de David, é uma religião de amor,

que por amor dá o exemplo e do exemplo vai à compaixão, e ao perdão e à redenção dos ignorantes e transviados.26
A religião é só isto; ténue e invisível fio prendendo-nos à vida espiritual imperecível. Que importa encontrá-la no amor da árvore, da flor, do velho, da criança, do mísero, do mar ou da montanha? Viver é senti-lo.27

Tudo o resto gira em torno deste sentir religioso, e todo o seu pensamento, incida ele sobre a democracia, o liberalismo ou a ideia de nação, inscreve-se nesta matriz idealista, de abnegação e de renúncia no Outro. Como dizia numa carta a António Sérgio,

Entre o Santo e o filósofo, e, por maioria de razão, entre o Santo e o regedor, ainda que o regedor se chame Péricles ou Napoleão, ficarei com o Santo. Porque o Santo é o mais fiel intérprete de Deus, e a ordem do Mundo, como a ordem da alma, só em Deus encontrará filiação assaz consistente para a manter.28

Em 17 de Junho de 1934, pouco antes de completar 75 anos de vida, juntaram-se em Eixo centenas de pessoas, numa sentida homenagem a Jaime de Magalhães Lima. Entre os oradores destacavam-se Joaquim de Carvalho, insigne mestre da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e João da Silva Correia, director da Faculdade de Letras de Lisboa.

Viria a falecer ano e meio depois desta manifestação cívica, no dia 25 de Fevereiro de 1936, na sua Quinta do Vale do Suão, por ele crismada de S. Francisco de Assis.

1 O Movimento das Artes e Ofícios (Arts and Crafts Movement), fundado em 1888 na Inglaterra, defendia a produção manual, valorizando a prática artesanal da Idade Média e rejeitando a produção em série da época industrial. William Morris (1834-1896) e John Ruskin (1819-1900) foram dois dos seus principais mentores. Ruskin, "um violento tory da velha escola", como ele próprio se definia na primeira página de Praeterita, a sua autobiografia, ou o "inovador retrógrado" na boca dos seus adversários, nem por isso deixou de inspirar os fundadores do Partido Trabalhista inglês (1906), com a mensagem política de duas das suas obras, Unto this Last e Sesame and Lilies, ou de contribuir para a formação do líder nacional indiano Mohandas Karamchand Gandhi. As características do reformismo social inglês, em que se integravam homens como Morris ou Ruskin, vestia capa evangélica e pretendia reconciliar-se com a lição social do cristianismo primitivo, aproximando-se, por isso, do franciscanismo. Ver COMPAGNON, Antoine – A hue et à dia [Prefácio]. In RUSKIN, John – Sésame et les Lys. Bruxelles: Editions Complexe, 1987, p. 7-24.

2 Eça de Queirós, que casara no Porto com uma irmã do 6º conde de Resende, é visita da Quinta do Mosteiro, aquando das suas passagens por Portugal. Esta propriedade, onde ainda hoje residem duas trinetas de José Estêvão, serviu-lhe de cenário para a sua quinta de Refaldes da Correspondência de Fradique.

3 Carta de Antero de Quental a Jaime Lima, datada de 13 de Outubro de 1886; ver RAMOS, Aníbal (1976a) – Cartas de Antero de Quental a Jaime de Magalhães Lima segundo o texto original. Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. vol. 42, nº 165 (1976), p. 7.

4 LIMA, Jaime de Magalhães – Côro dos coveiros. Porto: Edições Ilustradas Marques Abreu, 1923. p. 19.

5 Ver supra, nº 3, p. 11-12.

6 Esta carta, datada de 15 de Março de 1889, encontra-se no Museu de Tolstoi, em Moscovo, e foi publicada em RAMOS, Aníbal – Leão Tolstoi, Jaime de Magalhães Lima, William B. Edgerton e o "Arquivo do Distrito de Aveiro". Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. Vol. 42, n.º 167 (1976), p. 173-174.

7 LIMA, Jaime de Magalhães – Vozes do meu lar. Coimbra: França Amado, 1902, p. 73.

8 Ver supra nº 3, p. 20-21.

9 Carta de Antero datada de Vila do Conde, 9 de Fevereiro de 1890. Ver supra nº 3, p. 23.

10 Este estadista, que marcou toda a vida política portuguesa nos vinte anos que antecederam a República, nasceu em Oliveirinha, concelho de Aveiro. Aos 17 anos, com Manuel Firmino de Almeida Maia, fundou O Campeão do Vouga, o primeiro jornal aveirense, que começou a publicar-se em 14 de Fevereiro de 1852 e que, em 12 de Novembro de 1859, passou a intitular-se Campeão das Províncias. Foi seu primeiro redactor principal José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, pai de Eça de Queirós.

11 LIMA, Jaime de Magalhães – S. Francisco de Assis: Servo e menor. Coimbra: França Amado, 1908.

12 Paul Sabatier (1858-1928), teólogo e pastor protestante francês, é o autor de uma Vida de S. Francisco de Assis, escrita em resposta a uma missão intelectual quase imposta pelo seu mestre Ernesto Renan. A obra, publicada em França em 1893 e traduzida em várias línguas, é considerada uma das melhores biografias do Poverello e fruto de um trabalho árduo e sério de investigação, com base em documentos inéditos descobertos nos arquivos italianos. A importância e o impacto desta obra, bem como o currículo de Sabatier, professor de História Eclesiástica na Faculdade de Teologia da Universidade de Estrasburgo, cidadão honorário de Assis, membro da Academia Real de Roma, presidente honorário da Sociedade Internacional de Estudos Franciscanos e doutor "honoris causa" pelas Universidades de Oxford, Aberdeen e Edimburgo, não evitou a sua inclusão no Index.

13 Alguns títulos de periódicos ingleses, respigados de citações na sua obra: The Christian Commonwealth, Daily Chronicle, Glasgow Herald, Hibbert Journal, Manchester Guardian, Millgate Monthly, Spectator, Times.

14 LIMA, Jaime de Magalhães – A guerra: Depoimentos de herejes. Coimbra: F. França Amado, 1915, p. 11.

15 Idem, p. 20.

16 LIMA, Jaime de Magalhães (1986) – Entre pastores e nas serras. [Aveiro]: Portucel, 1986, p. 16.

17 Afirmava Sérgio, na Pela Grei de Janeiro de 1918: "O ideal da Democracia, em suma, é o governo da nação por elites naturais, criadoras da opinião pública e executantes da opinião pública; o governo da persuasão pelo escol da inteligência." In SÉRGIO, António – Ensaios I. 3.ª ed. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1980. p. 232.

18 LIMA, Jaime de Magalhães – Via redemptora. Coimbra: França Amado, 1905. p. 172-173.

19 LIMA (1986), p. 17-18.

20 LIMA, Jaime de Magalhães – Apóstolos da Terra. Coimbra: Typographia França Amado, 1906, p. VII.

21 LIMA, Jaime de Magalhães – O amor das nossas coisas e alguns que bem o serviram: Ramalho, Camilo, Eça, Antero, Oliveira Martins, Manuel da Silva Gaio, Lopes Vieira e Correa de Oliveira. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1933, p. 56.

22 Carta de Antero de Quental a Jaime de Magalhães Lima, datada de Vila do Conde, 14 de Novembro de 1886. Ver supra, nº 3, p. 12.

23 Ver supra, nº 21, p. 6.

24 LIMA, Jaime de Magalhães – Rogações de Eremita. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, [1910]. 123 p.

25 LIMA, Jaime de Magalhães – Salmos do Prisioneiro. Coimbra: F. França Amado, 1915. 59 p.

26 LIMA, Jaime de Magalhães – S. Francisco de Assis: servo e menor. Coimbra: França Amado, 1908, p. 63.

27 Ver supra, nº 7, p. 202-203.

28 LIMA, Jaime de Magalhães – Santos, filósofos e regedores. In Lusitânia. Lisboa. Vol. 2 (1924), p. 122. Carta de Jaime Lima a António Sérgio.

JOÃO AFONSO DE AVEIRO (notas biográficas)

Discute-se ainda hoje quem de facto terá sido este João Afonso de Aveiro, que dá o nome a um poeta e a um navegador dos finais do século XV, havendo alguns autores que reúnem as duas facetas no mesmo indivíduo, enquanto outros optam por pessoas distintas.
A documentação conhecida permite-nos identificar apenas uma personagem com este nome. Referimo-nos ao filho de Afonso Domingues de Aveiro, o moço, cidadão de Coimbra, onde foi vereador (1424) e juiz (1426), e de sua mulher, uma senhora da família dos “Velhos”. Por sua vez, este Afonso Domingues era filho de outro Afonso Domingues, que também usava o apelido “Aveiro” e que aqui teria nascido.

Este último Afonso Domingues de Aveiro, o avô de João Afonso, casou com D. Maria Francisca, filha do alvazil geral de Coimbra Afonso Peres, tendo sido sobrejuiz em Coimbra e um dos procuradores às Cortes que se realizaram nesta cidade em 1385, nas quais o Mestre de Avis foi aclamado rei de Portugal. Foi também o cidadão indigitado por Coimbra para integrar o conselho privado de D. João I, embora se ignore se terá sido um dos escolhidos pelo monarca.
O primeiro Afonso Domingues de Aveiro era homem de grande fortuna, possuindo várias propriedades em Coimbra, Aveiro e Aradas, muitas das quais pertenciam a seus pais e a sua avó Maria Anes. O rol destes bens consta do testamento que fez em 1417 (vd. Madaíl, 1959: 156-159), através do qual vinculava todas as suas propriedades e muitos bens móveis à capela e morgado que instituiu na Igreja de S. Tiago em Coimbra, nomeando sua filha natural Maria Afonso, casada com Pedro de Alpoim, como primeira administradora deste vínculo. Tendo esta senhora morrido sem filhos, a administração da capela passou ao seu meio-irmão, o referido Afonso Domingues de Aveiro, o moço.
Afonso Domingues de Aveiro, o moço, teve pelo menos seis filhos: um outro Afonso Domingues de Aveiro, o terceiro administrador do vínculo, falecido sem geração, Catarina Velho, que morreu antes do pai, Isabel Velho, casada com Lopo de Alpoim, o velho, Branca Velho, Teresa Velho e o mais novo, o nosso João Afonso de Aveiro que, durante algum tempo, foi o quarto administrador da capela instituída por seu avô. João Afonso ter-se-ia apropriado da administração destes bens sem que para tanto tivesse legitimidade, que, em julgado, a irmã mais velha os conseguiu para si, transmitindo-os de imediato ao seu filho Lopo de Alpoim, o moço, que terá morrido cerca de 1488 e que, vinte anos antes, era juiz da relação de Coimbra.
A condição de último filho terá obrigado João Afonso de Aveiro a procurar, noutras paragens, um futuro mais promissor, o que, à partida, estaria facilitado pela formação recebida, na tradição de uma família que esteve sempre ligada aos altos cargos municipais de Coimbra.
Pensamos que este João Afonso reúne em si o poeta do Cancioneiro de Garcia de Resende e o fundador da feitoria de Gató (Benim), no Golfo da Guiné, e que terá sido, porventura, o proprietário dos ofícios que, mais à frente, fazemos convergir na sua pessoa.

Muito do que se tem escrito sobre a vida de João Afonso de Aveiro corresponde a uma leitura acrítica do que Barbosa Machado escreveu na sua Biblioteca Lusitana (vol. 2, p. 577), repetido mais tarde por Teófilo Braga na obra Poetas Palacianos. Ferreira Neves, um acrisolado estudioso das coisas aveirenses, chamava a atenção para muitas dessas incongruências, embora o eco das suas conclusões tenha sido quase nulo. Tudo indica que Barbosa Machado se enganou na filiação de João Afonso de Aveiro, e também quando lhe atribui a qualidade de criado de D. Diogo, o 4º duque de Beja e 5º duque de Viseu morto por D. João II em 1484.
Teófilo Braga, para além de seguir Barbosa Machado, acrescenta que João Afonso teria estado envolvido na conspiração que atentou contra a vida de D. João II, sendo esta a razão que o teria levado a ir «viver nas Ilhas». Para tanto estribou-se no título atribuído por Garcia de Resende a uma das poesias compiladas no seu Cancioneiro, poema que o seu autor, o coudel-mor Fernão da Silveira, dirige a João Afonso de Aveiro:

Trovas do coudel moor a Joam Afonsso daueiro, que se foy a viuer nas jlhas, e de laa escreueo que fyzesse algumas cousas por ele, em que entrou fallar a sua dama, e despachar outras com a senhora jfante, e co duque mas ysto veo no tempo da morte do duque.
Em nossa opinião, a explicação para este título poderá residir no conflito que opôs João Afonso a sua irmã Isabel Velho, pela posse da administração do vínculo instituído pelo seu avô, que veio a ser dirimido a favor desta última. O envolvimento de Fernão da Silveira, para além da amizade que o unia a João Afonso, poderia ter motivações parentais, considerando a possibilidade do coudel-mor do Reino ser parente de Catarina Álvares da Silveira, a mulher de João Caldeira, filho de Branca Velho e, por isso mesmo, sobrinho de João Afonso. Com efeito, este João Caldeira, vereador da Câmara de Coimbra em 1468, viria a ser o 8º administrador daquele vínculo.
Afastado da posse daqueles bens, João Afonso de Aveiro teria que procurar a sua independência nos altos cargos do Estado e na aventura marítima. Daí a hipótese de ser ele o cavaleiro João Afonso que, antes de 1463, ocupava o cargo de tesoureiro da moeda de Lisboa e que, nesse ano, foi provido no lugar de contador na cidade de Évora onde, por várias vezes, a Corte estanciou (Moreno, 1980: 894). Poderá ainda ser o João Afonso, cavaleiro da casa do rei, que, em 8 de Março de 1484, foi substituído por Rui Velho no cargo de almoxarife de Santarém (Moreno, 1980: 1081). As coincidências favorecem esta hipótese, se considerarmos que Rui Velho poderia ser seu parente, que sua mãe pertencia a esta família e, segundo Rui de Pina, ter sido nesse ano de 1484 que João Afonso de Aveiro chegou a Gató.
Não podemos, no entanto, ignorar as divergências a nível das fontes, no que se refere à saída de João Afonso para as «Ilhas», isto é, para terras ultramarinas. Se Rui de Pina aponta o ano de 1484, João de Barros (Década I, Liv. III, cap. 3) situa o acontecimento em 1486, informando que, de regresso a Portugal, trouxe consigo um embaixador do rei de Benim e uma amostra da pimenta africana. Mas as duas datas poderão corresponder a duas viagens, que nem seriam as únicas, caso haja correspondência entre o nosso biografado e o João Afonso comandante de um dos navios da frota de Diogo de Azambuja que, em 1481, viajou para o Golfo da Guiné com a missão de edificar a feitoria da Mina. a participação do navegador numa das frotas de Diogo Cão não tem qualquer suporte documental, fundando-se em leitura cabalística de alguns sinais das inscrições da chamada pedra de Ielala, encontrada nas cataratas do mesmo nome, no rio Zaire.
Se todas estas qualidades convergiram na mesma pessoa, João Afonso de Aveiro, nascido em Coimbra e com avós aveirenses, teria sido poeta, navegador e também homem de mercancia, ou D. João II não o teria encarregado de fundar e dirigir a feitoria de Gató ou Ugató. Devido à sua insalubridade, que teria estado na origem da morte de João Afonso em terras da Guiné, esta feitoria acabaria por ser abandonada ainda no reinado do Príncipe Perfeito.

Bibliografia:

BRAGA, Teófilo (1871) – Poetas palacianos. Porto: Imprensa Portuguesa. p. 263, 271-272, 286 e 369.

CRISTO, António (1951) – João Afonso de Aveiro: Introdução a um estudo sobre o famoso navegador aveirense. Aveiro. Arquivo do Distrito de Aveiro. Vol. 17, n.º 65 (1951) 3-22.

CRISTO, António (1956) – O poeta João Afonso de Aveiro. Porto. 21, [3] p.

CRISTO, António (1960) – Alguns problemas sobre João Afonso de Aveiro. Braga. 126, [2] p.

FREITAS, Joaquim de Melo (1878) – Violetas. Porto: Imprensa Portuguesa. p. 311-317.

MACHADO, Diogo Barbosa – Bibliotheca lusitana historica, critica, e cronologica. Na qual se comprehende a noticia dos authores portuguezes, e das obras, que compuseraõ desde o tempo da promulgaçaõ da ley da graça até o tempo prezente. Lisboa, 1741-1759. 4 vol.

MADAÍL, António Gomes da Rocha (org. leitura e revisão) – Colectânea de documentos históricos. I. 959-1516. Aveiro: Câmara Municipal, 1959. p. 156-159.

MORENO, Humberto Baquero – A batalha de Alfarrobeira: antecedentes e significado histórico. Coimbra: Universidade, 1979-1980. p. 894 e 1081.

NEVES, Francisco Ferreira (1957) – Naturalidade e família de João Afonso de Aveiro: navegador e poeta do século XV. Aveiro. Arquivo do Distrito de Aveiro. Vol. 23 (1957) 65-84;

NEVES, Francisco Ferreira (1959) – Para a história da estátua de João Afonso de Aveiro. Aveiro. ADA. Vol. 25 (1959) 280-285.

RESENDE, Garcia de (1902) – Crónica de D. João II, contendo a interessantíssima Miscelânea. Lisboa, 1902.

terça-feira, 11 de março de 2008

TOPÓNIMOS DO TIPO PRONOME + PREPOSIÇÃO + NOME

A toponímia portuguesa, quando referida a nomes de pessoas, recorre por vezes a uma construção elíptica do tipo pronome + preposição (contraída ou não com artigo) + nome, com as principais ocorrências na Estremadura e Sul do País. O nome pode ser um antropónimo, uma metonímia ou um prosónimo, revestindo muitas vezes, neste último caso, uma descrição anedótica. Apresentamos alguns exemplos:

A-da-Beja, lugar da freguesia de S. Brás, concelho da Amadora;
A-da-Gorda, casas na freguesia de S. Miguel do Pinheiro, concelho de Mértola;
A-da-Gorda, lugar da freguesia de Santa Maria, concelho de Óbidos;
A-da-Perra, lugar da freguesia e concelho de Mafra;
A-da-Rainha, lugar da freguesia de Carvoeira, concelho de Torres Vedras;
A-da-Velha, lugar da freguesia de Fiães, concelho de Melgaço;
A-da-Velha, casas na freguesia de Castanheira, concelho de Trancoso;
A-da-Velha, ruínas na freguesia e concelho de Santiago do Cacém;
A-da-Velha, vértice geodésico na freguesia e concelho de Santiago do Cacém;
A-das-Lebres, lugar da freguesia e concelho de Loures;
A-das-Calças, casas na freguesia e concelho de Ourique;
A-das-Neves da Marinha, casas na freguesia e concelho de Castro Verde;
A-das-Neves da Marinha, vértice geodésico na freguesia e concelho de Castro Verde;
A-de-Bagão de Baixo, casas na freguesia e concelho de Vila do Bispo;
A-de-Bagão de Cima, casas na freguesia e concelho de Vila do Bispo;
A-de-Baguinha, lugar da freguesia de Sabugosa, concelho de Tondela;
A-de-Baracim, ilhéu na costa vicentina, concelho de Vila do Bispo;
A-de-Baraço, ilhéu na costa vicentina, concelho de Vila do Bispo;
A-de-Barros, lugar da freguesia de Rua, concelho de Moimenta da Beira;
A-de-Camondes, lugar da freguesia de Arranhó, concelho de Arruda dos Vinhos;
A-de-Flores, casas na freguesia de Benfeita, concelho de Arganil;
A-de-Formoso, lugar da freguesia de São João dos Montes, concelho de Vila Franca de Xira;
A-de-Frades
, região na freguesia de São Pedro de Solis, concelho de Mértola;
A-de-Freire, casas na freguesia de São João dos Montes, concelho de Vila Franca de Xira;
A-de-Galego, ruínas na freguesia de Benfeita, concelho de Arganil;
A-de-Galinhas, casas na freguesia e concelho de Sobral de Monte Agraço;
A-de-Marcos, casas na freguesia de Budens, concelho de Vila do Bispo;
A-de-Marinho, região na freguesia e concelho de Vila do Bispo;
A-de-Mateus, casas na freguesia de Longueira-Almograve, concelho de Odemira;
A-de-Mateus, região na freguesia de Longueira-Almograve, concelho de Odemira;
A-de-Moura, lugar da freguesia de Santana da Azinha, concelho da Guarda;
A-de-Ordem, casas na freguesia de Santa Cruz, concelho de Almodôvar;
A-de-Parceira, casas na freguesia de São João dos Montes, concelho de Vila Franca de Xira;
A-de-Pimenta , casas na freguesia de Cardosas, concelho de Arruda dos Vinhos;
A-de-Pires, região na freguesia da Senhora da Graça de Padrões, concelho de Almodôvar;
A-de-Rosa, casas na freguesia de São Pedro de Solis, concelho de Mértola;
A-de-Rosa, vértice geodésico na freguesia de São Pedro de Solis, concelho de Mértola;
A-do-Alho, vértice geodésico na freguesia de S. Sebastião, concelho de Lagos;
A-do Alho, lugar da freguesia de S. Sebastião, concelho de Lagos;
A-do-Baço, lugar da freguesia de Arranhó, concelho de Arruda dos Vinhos;
A-do-Barbas, lugar da freguesia de Maceira, concelho de Leiria;
A-do-Barrão, casas na freguesia e concelho de Vila Franca de Xira;
A-do-Barriga, lugar da freguesia e concelho de Arruda dos Vinhos;
A-do-Bispo, lugar da freguesia e concelho de Penedono;
A-do-Bispo, região na freguesia de Vilar, concelho de Moimenta da Beira;
A-do-Bispo, região na freguesia de Ferreirim, concelho de Sernancelhe;
A-do-Cavalo, lugar da freguesia de Moreira de Rei, concelho de Trancoso;
A-do-Coelho, casas na freguesia e concelho de Ourique;
A-do-Coelho Nova, casas na freguesia e concelho de Ourique;
A-do-Corvo, lugar da freguesia de Santa Bárbara de Padrões, concelho de Castro Verde;
A-do-Fernando, casas na freguesia de Valongo do Vouga, concelho de Águeda;
A-do-Fação, lugar da freguesia de Pêro Pinheiro, concelho de Sintra;
A-do-Freire, lugar da freguesia de Pedrógão, concelho de Torres Novas;
A-do-Freire, lugar da freguesia de Castro Laboreiro, concelho de Melgaço;
A-do-Galego, casas na freguesia de Póvoa de Cervães, concelho de Mangualde;
A-do-Longo, lugar da freguesia de São João das Lampas, concelho de Sintra;
A-do-Malhão, região na freguesia de Arcos, concelho de Tabuaço;
A-do-Marrel, região na freguesia da Aldeia das Dez, concelho de Oliveira do Hospital;
A-do-Mato, região na freguesia de Beselga, concelho de Penedono;
A-do-Meio Dia, casas na freguesia de Alpalhão, concelho de Nisa;
A-do-Monte, casas na freguesia da Matela, concelho de Penalva do Castelo;
A-do-Mourão, lugar da freguesia de Santiago dos Velhos, concelho de Arruda dos Vinhos;
A-do-Pipo, casas na freguesia de Terrugem, concelho de Sintra;
Adopisco, aglutinação de A-do-Pisco; lugar da freguesia de Sul, concelho de São Pedro do Sul;
Adopisco, aglutinação de A-do-Pisco; região na freguesia de Várzea de Tavares, concelho de Mangualde;
A-do-Pombo, região na freguesia de Várzea de Trevões, concelho de São João da Pesqueira;
A-do-Ramos, casas na freguesia de Mosteiros, concelho de Arronches;
A-do-Rio, casas na freguesia de Riba de Mouro, concelho de Monção;
A-do-Ruas, casas na freguesia de Santa Cruz, concelho de Almodôvar;
A-do-Sapo, casas na freguesia de São Pedro, concelho de Celorico da Beira;
A-do-Seixo, casas na freguesia de Pousada, concelho da Guarda;
A-do-Testa, casas na freguesia de Rosário, concelho de Almodôvar;
A-dos-Arcos, lugar da freguesia de Arranhó, concelho de Arruda dos Vinhos;
A-dos-Bispos, lugar da freguesia e concelho de Vila Franca de Xira;
A-dos-Cães, lugar da freguesia e concelho de Loures;
A-dos-Calvos, lugar da freguesia e concelho de Loures;
A-dos-Chancos, casas na freguesia de Santo Quintino, concelho de Sobral de Monte Agraço;
A-dos-Corvos, casas na freguesia de Santa Margarida da Serra, concelho de Grândola;
A-dos-Crivos, lugar da freguesia de Santa Maria e São Miguel, concelho de Sintra;

A-dos-Cunhados, freguesia do concelho de Torres Vedras. A origem da povoação deverá ter sido uma propriedade herdada por filho e genro.

A-dos-Currais, casas na freguesia e concelho de Ourique;
A-dos-Eiros, lugar da freguesia de Santiago dos Velhos, concelho de Arruda dos Vinhos;
A-dos-Ferreiros, casas na freguesia de Prados, concelho de Celorico da Beira;
A-dos-Ferreiros, lugar da freguesia de Cótimos, concelho de Trancoso;
A-dos-Ferreiros de Baixo, lugar da freguesia de Valongo do Vouga, concelho de Águeda;
A-dos-Ferreiros de Cima, lugar da freguesia de Préstimo, concelho de Águeda;
A-dos-Francos, lugar da freguesia de Rio de Mouro, concelho de Sintra.

A-dos-Francos, freguesia do concelho de Caldas da Rainha. A origem do topónimo deve recuar a um povoamento de colonos Francos, no início da nacionalidade ou, ainda antes, aquando da entrega das terras galegas e portucalenses aos nobres francos D. Raimundo e D. Henrique. O apelido "Franco" aparecerá por essa altura, na sequência da chegada de milícias francas ao reino de Leão e Castela, como podemos comprovar num documento de 1099, inserido no Livro Preto da Sé de Coimbra, onde nos aparece um "Johannes Francus" (LP-1, p. 72).

A-dos-Loucos, lugar da freguesia de São João dos Montes, concelho de Vila Franca de Xira;
A-dos-Matos, casas na freguesia de Santa Margarida da Serra, concelho de Grândola;
A-dos-Melros, lugar da freguesia de Calhandriz, concelho de Vila Franca de Xira;
A-dos-Milheiros, casas na freguesia e concelho de Sobral de Monre Agraço;
A-dos-Moinhos, região na freguesia de Vila Doeiro do Chão, concelho de Fornos de Algodres.

A-dos-Negros, freguesia do concelho de Óbidos. A origem do topónimo tanto pode ser um povoamento de magrebinos, como corresponder a uma propriedade de uma família de alcunha "Negro". Neste último caso poderemos estar perante uma ligação à família dos "Negros", do rabi-mor afonso-henriquino Yahia ben Yaisch.

A-dos-Neves, casas na freguesia de Rosário, concelho de Almodôvar;
A-dos-Potes, lugar da freguesia de Alverca do Ribatejo, concelho de Vila Franca de Xira;
A-dos-Pretos, lugar da freguesia de Maceira, concelho de Leiria;
A-dos-Ralhados, casas na freguesia de Algueirão-Mem Martins, concelho de Sintra;
A-dos-Ruivos, lugar da freguesia do Carvalhal, concelho de Bombarral;
A-dos-Ruivos, vértice geodésico na freguesia do Carvalhal, concelho de Bombarral;
Alto do A-do-Bácoro, monte na freguesia de Macieira, concelho de Sernancelhe;
As-do-Carvalhal, região na freguesia de Lapa dos Dinheiros, concelho de Seia;
As-do-Marco, região na freguesia da Granja, concelho de Penedono;
As-do-Neto, casas na freguesia de Vila Franca do Deão, concelho da Guarda;
Barranco do A-de-Marinho, ribeira na freguesia e concelho de Vila do Bispo;
Barranco do A-de-Pinho, ribeira na freguesia do Salvador, concelho de Serpa;
Cabeço da A-da-Cal, monte na freguesia de Lorvão, concelho de Penacova;
Casa Nova de A-da-Velha, casas na freguesia e concelho de Santiago do Cacém;
Lage do A-do-Sol, ponta na freguesia de Sagres, concelho de Vila do Bispo;
Monte da A-dos-Grandes, lugar da freguesia de Santa Cruz, concelho de Almodôvar;
Monte Novo A-do-Coelho, casas na freguesia e concelho de Ourique;
Ponta do A-do-Sol, ponta na freguesia de Sagres, concelho de Vila do Bispo;
Ponte de A-de-Matos, ponte na freguesia de São João das Lampas, concelho de Sintra;
Ribeira de A-dos-Potes
, ribeira na freguesia de Alverca do Ribatejo, concelho de Vila Franca de Xira.

REGRESSO

Depois de uma longa pausa, imposta por mudança de residência e demora na ligação ao ciberespaço, volto ao convívio dos meus leitores, ainda que em ritmo lento, imposto por afazeres e compromissos assumidos. As minhas mais cordiais saudações.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

CHOROSA e outros fitotopónimos terminados em -OSA

Penso que Gundibaldo terá razão, quando integra o topónimo Chorosa (lugar da freguesia de Febres, concelho de Cantanhede) na série da postagem anterior. Estaremos, tudo o indica, perante um fitotopónimo que qualifica uma região em que, na altura própria, seria notória a abundância de flores.

O mesmo não acontecerá com um outro Chorosa, que identifica umas casas na freguesia da Conceição, no concelho de Tavira. Se não for alcunha de proprietária ou moradora (neste caso com conotações a choro e não a flores), poderá corresponder a um assentamento de pessoas oriundas do lugar homónimo do concelho de Cantanhede. A conclusão assenta no facto do romance moçárabe ignorar a palatalização dos grupos iniciais CL-, PL- e FL-, enquanto a evolução flore- > chor já tinha regredido aquando da conquista do Algarve no século XIII, em parte por acção erudita, em parte para evitar confusão com “choro” e seus derivados.

Aproveitamos para fornecer alguns fitotopónimos com origem na substantivação de adjectivos formados através do sufixo latino -osus, a, um, adjectivos que, originalmente, qualificavam a terra ou terreno, com a noção abundancial. É uma pequena amostra, que pode ser completada com a consulta das Cartas Militares de 1:25000. Pela novidade, chamo a atenção para a entrada “Candosa”.

Abrunhosa
abrunho + -osa; de a- + latim prunum,iameixa” através de *pruneu-

Afeitosa
a- + feto ou feito + -osa; do latim filictu- “lugar onde há fetos

Ameixiosa
ameixia” forma antiga de ameixa + -osa; do lat. *(d)amascina-, por (d)amascéna-, “ameixa de Damasco”

Amieirosa
amieiro
+ -osa; latim vulgar *amoenarìum, de amoena (arbor)árvore amena

Brunhoso
brunho
+ -oso; do latim prunum,iameixa” através de *pruneu-; ver também Abrunhosa

Cadavosa
de
cádava + -osa; “cádava: conjunto de troncos de árvores e de pés de mato, que permanece de pé após as queimadas” e que serve para lenha. Origem desconhecida.

Candosa
de candano + -osa (candanosa > candaosa > candosa, com todas as formas documentadas); *candano (> candão > “cando”), terá sido um apelativo que entretanto se perdeu, mas que continua vivo num vasto conjunto de topónimos portugueses e galegos, entre os quais podemos destacar Canda, Candaídos, Candaira, Candais, Candal, Candam, Candanedos, Candanes, Candão, Candaria, Candedo, Candedos, Candeeira, Candeeiras, Candeeiro, Candeeiros, Candela, Candelhe, Candelo, Candieira, Candieiras, Candieirinha, Candieiro, Candieiros, Cando, Candos, Candosa, Candoso, etc. Para Almeida Fernandes (1999: 135-137) o vocábulo *candano seria «de raíz pré-romana cand-, relativo aos terrenos rochosos» (idem, p. 136).

Pela nossa parte, considerando a importância do xilocombustível na vida material das sociedades pré-industriais, inclinamo-nos para uma raíz indo-europeia, que integraria estes nomes na fitotoponímia. Com efeito, em asturiano encontramos a voz cándana, “cana grande e seca, especialmente quando fica branca por se ter queimado”; encontramos também a fala cándanu, com o significado de «ramo seco de qualquer árvore, que caia ao chão; ramo seco esbranquiçado; cana seca; árvore seca”. Para legitimar a opção indo-europeia e a respectiva semântica, relacionada com a madeira como combustível, podemos recorrer à raíz sânscrita cand "brilhar" (Huet, 2007: 143), da qual deriva o verbo latino candere “queimar, estar em brasa, aquecer até se tornar branco, brilhar de brancura”, enquanto lembramos a existência dos vocábulos sânscritos candana “árvore ou madeira de sândalo” (ibidem) e skandha “tronco de árvore” (idem, p. 436).

Carvalhosa
de
carvalho + -osa; região coberta de carvalhos. Discute-se a origem desta fala, por certo pré-romana. Em 958 já aparece documentada sob a grafia carbalio.

Edrosa, Edroso
do latim *hederosa, *hederosu, de hedera > héera > hera; ver também Odrosa

Encinosa
de enzinha + -osa; região coberta de azinheiras. Do latim vulgar ilicína feminino derivado do latim clássico ílex, ìcis “azinheira” (árvore).

Ervedosa
de êrvedo + -osa; região coberta de medronheiros. Do latim *erbìtu-, por arbùtu-, “medronheiro”.

Espargosa
de espargo + -osa; região coberta de espargos. Do latim asparagu-, e este do grego άσπάραγος “espargo”.

Falgarosa, Falgaroso
de felga/*falga + -eira + -osa; região coberta de fetos. Do latim *filica (de filix) > felga (=feto)

Falgueirosa, Ribeira de
de felga/*falga + -eira + -osa; em região coberta de fetos. Do latim *filica (de filix) > felga (=feto)

Feitosa
de feto ou feito + -osa; do latim filictu- “lugar onde há fetos”; ver também Afeitosa

Folgosa
de felga + -osa; região coberta de fetos. Do latim *filica- (de filix) > felga (=feto). *Felgosa > Folgosa por assimilação.

Freixosa
de freixo + -osa; região coberta de freixos. Do latim fraxinu- “freixo”

Funchosa
de funcho + -osa; região coberta de funchos. Do latim fenuculu-, por feniculu- “funcho”

Gestosa
de giesta + -osa > gestosa, por crase a desfazer o hiato (prevaleceu o -e-); região coberta de giestas. Do latim genesta- ou genista- “giesta, giesteira”

Gistosa
de giesta + -osa > gestosa, por crase a desfazer o hiato (prevaleceu o -i-); região coberta de giestas. Do latim genesta- ou genista- “giesta, giesteira”

Juncosa
de junco + -osa; região onde abunda o junco. Do latim juncu- “junco”

Lourosa
de louro + -osa; região onde abundam os loureiros. Do latim lauru- (> louro) “loureiro”

Matosa
de mata + -osa; região coberta de plantas silvestres de porte diverso. Do latim tardio matta- “esteira de junco; porção de plantas que cobre certa porção de terreno”; o vocábulo “mata” já ocorre no século VI, na Península Ibérica.

Matagosa
de mata + -g- + -osa; região coberta de plantas silvestres de porte diverso. Do latim tardio matta- “esteira de junco; porção de plantas que cobre certa porção de terreno”

Murtosa
de murta + -osa; região onde abunda a murta, “designação comum a várias plantas de diferentes géneros e famílias, especialmente do género Myrtus, Myrcia e Eugenia, da família das mirtáceas. Do latim murta-, por myrta-, do grego μύρτος

Odrosa
por Edrosa, do latim *hederosa, de hedera > héera > português “hera”. Ver Edrosa

Ortigosa
de ortiga (=urtiga) + -osa; região abundante em urtigas. Do latim urtica- “urtiga”

Pampilhosa
de pampilho + -osa; região abundante em pampilhos, “nome vulgar extensivo a várias plantas (em especial à também chamada malmequer), da família das Compostas, algumas das quais muito frequentes em Portugal”. Do latim *pampiniculus- ? (< pampinu- “parra, folhagem da videira” + -iculus, sufixo nominal diminutivo)

Sabugosa
de sabugo (=sabugueiro) + -osa; região em que abundam os sabugueiros. Do latim sabucu- “sabugueiro”

Teixosa
de teixo + -osa; região abundante em teixos, “designação comum às árvores e arbustos, perenes e dióicos, do género Taxus, da família das taxáceas. Do latim taxu- “teixo”

Zambujosa
de zambujo (=zambujeiro) + -osa; região coberta por mata de zambujeiros. Do hispano-árabe az-zabbúdj “oliveira brava”

Bibliografia
FERNANDES, A. de Almeida (1999) – Toponímia Portuguesa: Exame a um dicionário. Arouca: Associação para a Defesa da Cultura Arouquense. 251 p. ISBN 972-9474-09-5.
GALMÉS DE FUENTES, Álvaro (1983) –
Dialectología mozárabe. Madrid: Editorial Gredos. 380 p. ISBN 84-249-0916-X.
HUET, Gérard (2007) –
Héritage du Sanskrit: Dictionnaire sanskrit-français. Versão 223. Em linha no endereço http://sanskrit.inria.fr/Dico.pdf. (26 de Novembro de 2007).

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

CHORENSE, CHORENTE, CHORIDA, CHORIDO, CHORIO, CHORIOS, CHURIA

Em Portugal:
CHORENSE
(freguesia do concelho de Terras de Bouro); CHORENTE (freguesia do concelho de Barcelos; região na freguesia de Rabal, concelho de Bragança); CHORIDA (vértice geodésico, a 1087 metros de altitude, na freguesia de Candemil, concelho de Amarante); CHORIDO (casas na freguesia de Nespereira, concelho de Gouveia; região na freguesia de S. Vicente, concelho de Abrantes); CHORIO (casas na freguesia de Rossas, concelho de Arouca); CHORIOS (região na freguesia de Roge, concelho de Vale de Cambra); CHURIA (casas na freguesia de Caparrosa, concelho de Tondela); PONTE DO CHORIDO (ponte na freguesia de S. Pedro, concelho de Gouveia).

Na Galiza:
CHORIDE (lugar na freguesia de Figueredo, concelho de Cesuras); CHORENTE (vários lugares e uma freguesia); CHURIZ (lugar da freguesia de Caraño, concelho de Pol); A CHURÍA (lugar da freguesia de Muíño, concelho de Zas); CHURÍO (freguesia do concelho de Irixoa)


Ao contrário do que faço habitualmente, procurei o topónimo CHORIOS na Carta Militar 1/25000 inscrevendo todas as suas letras na janela de «Pesquisa livre». Daqui resultou uma única ocorrência, que tratei na postagem anterior.
A achega de Calidónia levou-me a nova pesquisa, agora a partir de «chori» e churi», o que revelou outras ocorrências, do que poderão ser topónimos com o mesmo étimo, derivados do substantivo latino flore- “flor” > «chor», agora com algumas incursões na antroponímia, confirmando a interpretação aventada na última postagem. Vejamos!

CHORENSE, que deveria grafar-se «Chorence», corresponde a um antropotopónimo, formado a partir do nome do possessor de uma antiga «vila», no caso uma villa Florentii (genitivo de Florentius). O patronímico deste nome aparece-nos num documento de 1018, grafado Florenci (Livro Preto da Sé de Coimbra, vol. 1, p. 256).

CHORENTE, com ocorrências em Portugal e na Galiza, corresponde, como o anterior, a um antropotopónimo, formado a partir do nome do possessor de uma propriedade, fosse ela um fundus, um vicus ou uma villa. Nalguns dos múltiplos casos identificaria uma villa Florenti (genitivo de Florentus).

CHORIDE, na Galiza, é um outro antropotopónimo que, por certo, identificaria uma villa Floridi ou Floridii (genitivos respectivamente de Floridus e de Floridius). No Livro Preto da Sé de Coimbra, em vários documentos dos séculos XI-XII, encontramos este antropónimo, sob as grafias Floridi, Florido, Florit, Florite, Floriti, Florito. Na Galiza está atestada a forma Floridius. Não esqueçamos que estas grafias estão alatinadas, já que estamos perante documentos escritos em latim medieval. No linguajar dos íncolas o grupo consonântico fl- já teria dado lugar a ch-. A regressão posterior deve-se a formação erudita, na maioria dos casos de responsabilidade eclesiástica.

CHURIZ, na Galiza, corresponderá certamente a um outro antropotopónimo, que identificaria uma villa *Flori(d)ici ou *Florici (genitivos respectivamente de *Floridicus e de *Floricus, hipocorísticos de Floridius e de Florus).

Os topónimos CHORIO e CHORIOS estão explicados na postagen anterior, com CHORIDA e CHORIDO a atestar a forma intermédia, antes da queda do -d- intervocálico. Almeida Fernandes também faz derivar estes topónimos do latim flore-, quando estuda a ocorrência «Chorio» no concelho de Arouca. As grafias CHURIO, CHURIA e CHURIZ mais não fazem que acompanhar a evolução da pronúncia popular, em que o o do latim vulgar passa a u antes do i da sílaba seguinte (Huber, 1986: 64). Atente-se como o povo pronuncia “flurido” em vez de “florido”.

Em nossa opinião não há nada que possa legitimar a origem destes topónimos na “família chorro/jorro”, não só pela difícil evolução -rr- > -r-, mas também porque aquelas onomatopeias do castelhano só entraram no português na segunda metade do século XVI.

Bibliografia:
COSTA, Avelino de Jesus da; VENTURA, Leontina; VELOSO, M. Teresa (eds.) (1977-1979) – Livro Preto da Sé de Coimbra. Coimbra: Arquivo da Universidade de Coimbra. 3 vol. Citados por LP-1, LP-2 e LP-3.
EGU – Enciclopedia Galega Universal. Ed. de Bieito Ledo Cabido. Vigo: Ir Indo Edicións, 1999-2006. 16 vol. ISBN 84-7680-288-9.
FERNANDES, A. de Almeida (1999) –
Toponímia Portuguesa: Exame a um dicionário. Arouca: Associação para a Defesa da Cultura Arouquense. 251 p. ISBN 972-9474-09-5.
FERNANDES, A. de Almeida; SILVA, Filomeno (1995) –
Toponímia Arouquense. Arouca: Associação para a Defesa da Cultura Arouquense. 576 p. ISBN 972-9474-13-3. Vide p. 72-73, s.v. “Chorio”.
HUBER, Joseph (1986) –
Gramática do Português Antigo. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. XV, 417 p.
LIVRO PRETO da Sé de Coimbra. (1977-1979) Ed. de COSTA, Avelino de Jesus da; VENTURA, Leontina; VELOSO, M. Teresa. Coimbra: Arquivo da Universidade de Coimbra. 3 vol. Citados como LP-1, LP-2 e LP-3.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

CHORIOS

CHORIOS (freguesia de Roge, concelho de Vale de Cambra)
O topónimo há-de ser antiquíssimo, com formação nos primórdios do galaico-português, aquando da palatalização, genuinamente popular, dos grupos consonânticos cl- > ch- (ex: clamare > chamar), fl- > ch- (ex: flamma > chama) e pl- > ch- (ex: plaga > chaga).
O que ele esconde é que será mais difícil de descobrir. Falta-nos o testemunho do documento medieval que poderia abrir alguma pista. Fiquemos pela aparências da forma actual.
Poderemos estar perante a substantivação de um adjectivo que qualificasse o terreno ou campo. Se fosse Cheiras, Chieiras, Chairos, Chaira, Chairas, etc., teria origem no adjectivo latino planarius, -a, -um "aplanado", com total correspondência na orografia local.
Mas, para CHORIOS, só vislumbro uma explicação, um antigo adjectivo derivado de chor (antigo português, forma popular de "flor", do latim flore-, ainda viva na Galiza). Refiro-me a *choridos (= floridos), que daria "chorios" depois da queda do -d- intervocálico.
Também poderemos estar perante um substantivo, se considerarmos a voz galega chorida para a flor do tojo ou da giesta. Neste caso a fala "Chorios" corresponderia a um campo de tojos e giestas.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007