terça-feira, 27 de maio de 2008

JOÃO AFONSO DE AVEIRO (notas biográficas)

Discute-se ainda hoje quem de facto terá sido este João Afonso de Aveiro, que dá o nome a um poeta e a um navegador dos finais do século XV, havendo alguns autores que reúnem as duas facetas no mesmo indivíduo, enquanto outros optam por pessoas distintas.
A documentação conhecida permite-nos identificar apenas uma personagem com este nome. Referimo-nos ao filho de Afonso Domingues de Aveiro, o moço, cidadão de Coimbra, onde foi vereador (1424) e juiz (1426), e de sua mulher, uma senhora da família dos “Velhos”. Por sua vez, este Afonso Domingues era filho de outro Afonso Domingues, que também usava o apelido “Aveiro” e que aqui teria nascido.

Este último Afonso Domingues de Aveiro, o avô de João Afonso, casou com D. Maria Francisca, filha do alvazil geral de Coimbra Afonso Peres, tendo sido sobrejuiz em Coimbra e um dos procuradores às Cortes que se realizaram nesta cidade em 1385, nas quais o Mestre de Avis foi aclamado rei de Portugal. Foi também o cidadão indigitado por Coimbra para integrar o conselho privado de D. João I, embora se ignore se terá sido um dos escolhidos pelo monarca.
O primeiro Afonso Domingues de Aveiro era homem de grande fortuna, possuindo várias propriedades em Coimbra, Aveiro e Aradas, muitas das quais pertenciam a seus pais e a sua avó Maria Anes. O rol destes bens consta do testamento que fez em 1417 (vd. Madaíl, 1959: 156-159), através do qual vinculava todas as suas propriedades e muitos bens móveis à capela e morgado que instituiu na Igreja de S. Tiago em Coimbra, nomeando sua filha natural Maria Afonso, casada com Pedro de Alpoim, como primeira administradora deste vínculo. Tendo esta senhora morrido sem filhos, a administração da capela passou ao seu meio-irmão, o referido Afonso Domingues de Aveiro, o moço.
Afonso Domingues de Aveiro, o moço, teve pelo menos seis filhos: um outro Afonso Domingues de Aveiro, o terceiro administrador do vínculo, falecido sem geração, Catarina Velho, que morreu antes do pai, Isabel Velho, casada com Lopo de Alpoim, o velho, Branca Velho, Teresa Velho e o mais novo, o nosso João Afonso de Aveiro que, durante algum tempo, foi o quarto administrador da capela instituída por seu avô. João Afonso ter-se-ia apropriado da administração destes bens sem que para tanto tivesse legitimidade, que, em julgado, a irmã mais velha os conseguiu para si, transmitindo-os de imediato ao seu filho Lopo de Alpoim, o moço, que terá morrido cerca de 1488 e que, vinte anos antes, era juiz da relação de Coimbra.
A condição de último filho terá obrigado João Afonso de Aveiro a procurar, noutras paragens, um futuro mais promissor, o que, à partida, estaria facilitado pela formação recebida, na tradição de uma família que esteve sempre ligada aos altos cargos municipais de Coimbra.
Pensamos que este João Afonso reúne em si o poeta do Cancioneiro de Garcia de Resende e o fundador da feitoria de Gató (Benim), no Golfo da Guiné, e que terá sido, porventura, o proprietário dos ofícios que, mais à frente, fazemos convergir na sua pessoa.

Muito do que se tem escrito sobre a vida de João Afonso de Aveiro corresponde a uma leitura acrítica do que Barbosa Machado escreveu na sua Biblioteca Lusitana (vol. 2, p. 577), repetido mais tarde por Teófilo Braga na obra Poetas Palacianos. Ferreira Neves, um acrisolado estudioso das coisas aveirenses, chamava a atenção para muitas dessas incongruências, embora o eco das suas conclusões tenha sido quase nulo. Tudo indica que Barbosa Machado se enganou na filiação de João Afonso de Aveiro, e também quando lhe atribui a qualidade de criado de D. Diogo, o 4º duque de Beja e 5º duque de Viseu morto por D. João II em 1484.
Teófilo Braga, para além de seguir Barbosa Machado, acrescenta que João Afonso teria estado envolvido na conspiração que atentou contra a vida de D. João II, sendo esta a razão que o teria levado a ir «viver nas Ilhas». Para tanto estribou-se no título atribuído por Garcia de Resende a uma das poesias compiladas no seu Cancioneiro, poema que o seu autor, o coudel-mor Fernão da Silveira, dirige a João Afonso de Aveiro:

Trovas do coudel moor a Joam Afonsso daueiro, que se foy a viuer nas jlhas, e de laa escreueo que fyzesse algumas cousas por ele, em que entrou fallar a sua dama, e despachar outras com a senhora jfante, e co duque mas ysto veo no tempo da morte do duque.
Em nossa opinião, a explicação para este título poderá residir no conflito que opôs João Afonso a sua irmã Isabel Velho, pela posse da administração do vínculo instituído pelo seu avô, que veio a ser dirimido a favor desta última. O envolvimento de Fernão da Silveira, para além da amizade que o unia a João Afonso, poderia ter motivações parentais, considerando a possibilidade do coudel-mor do Reino ser parente de Catarina Álvares da Silveira, a mulher de João Caldeira, filho de Branca Velho e, por isso mesmo, sobrinho de João Afonso. Com efeito, este João Caldeira, vereador da Câmara de Coimbra em 1468, viria a ser o 8º administrador daquele vínculo.
Afastado da posse daqueles bens, João Afonso de Aveiro teria que procurar a sua independência nos altos cargos do Estado e na aventura marítima. Daí a hipótese de ser ele o cavaleiro João Afonso que, antes de 1463, ocupava o cargo de tesoureiro da moeda de Lisboa e que, nesse ano, foi provido no lugar de contador na cidade de Évora onde, por várias vezes, a Corte estanciou (Moreno, 1980: 894). Poderá ainda ser o João Afonso, cavaleiro da casa do rei, que, em 8 de Março de 1484, foi substituído por Rui Velho no cargo de almoxarife de Santarém (Moreno, 1980: 1081). As coincidências favorecem esta hipótese, se considerarmos que Rui Velho poderia ser seu parente, que sua mãe pertencia a esta família e, segundo Rui de Pina, ter sido nesse ano de 1484 que João Afonso de Aveiro chegou a Gató.
Não podemos, no entanto, ignorar as divergências a nível das fontes, no que se refere à saída de João Afonso para as «Ilhas», isto é, para terras ultramarinas. Se Rui de Pina aponta o ano de 1484, João de Barros (Década I, Liv. III, cap. 3) situa o acontecimento em 1486, informando que, de regresso a Portugal, trouxe consigo um embaixador do rei de Benim e uma amostra da pimenta africana. Mas as duas datas poderão corresponder a duas viagens, que nem seriam as únicas, caso haja correspondência entre o nosso biografado e o João Afonso comandante de um dos navios da frota de Diogo de Azambuja que, em 1481, viajou para o Golfo da Guiné com a missão de edificar a feitoria da Mina. a participação do navegador numa das frotas de Diogo Cão não tem qualquer suporte documental, fundando-se em leitura cabalística de alguns sinais das inscrições da chamada pedra de Ielala, encontrada nas cataratas do mesmo nome, no rio Zaire.
Se todas estas qualidades convergiram na mesma pessoa, João Afonso de Aveiro, nascido em Coimbra e com avós aveirenses, teria sido poeta, navegador e também homem de mercancia, ou D. João II não o teria encarregado de fundar e dirigir a feitoria de Gató ou Ugató. Devido à sua insalubridade, que teria estado na origem da morte de João Afonso em terras da Guiné, esta feitoria acabaria por ser abandonada ainda no reinado do Príncipe Perfeito.

Bibliografia:

BRAGA, Teófilo (1871) – Poetas palacianos. Porto: Imprensa Portuguesa. p. 263, 271-272, 286 e 369.

CRISTO, António (1951) – João Afonso de Aveiro: Introdução a um estudo sobre o famoso navegador aveirense. Aveiro. Arquivo do Distrito de Aveiro. Vol. 17, n.º 65 (1951) 3-22.

CRISTO, António (1956) – O poeta João Afonso de Aveiro. Porto. 21, [3] p.

CRISTO, António (1960) – Alguns problemas sobre João Afonso de Aveiro. Braga. 126, [2] p.

FREITAS, Joaquim de Melo (1878) – Violetas. Porto: Imprensa Portuguesa. p. 311-317.

MACHADO, Diogo Barbosa – Bibliotheca lusitana historica, critica, e cronologica. Na qual se comprehende a noticia dos authores portuguezes, e das obras, que compuseraõ desde o tempo da promulgaçaõ da ley da graça até o tempo prezente. Lisboa, 1741-1759. 4 vol.

MADAÍL, António Gomes da Rocha (org. leitura e revisão) – Colectânea de documentos históricos. I. 959-1516. Aveiro: Câmara Municipal, 1959. p. 156-159.

MORENO, Humberto Baquero – A batalha de Alfarrobeira: antecedentes e significado histórico. Coimbra: Universidade, 1979-1980. p. 894 e 1081.

NEVES, Francisco Ferreira (1957) – Naturalidade e família de João Afonso de Aveiro: navegador e poeta do século XV. Aveiro. Arquivo do Distrito de Aveiro. Vol. 23 (1957) 65-84;

NEVES, Francisco Ferreira (1959) – Para a história da estátua de João Afonso de Aveiro. Aveiro. ADA. Vol. 25 (1959) 280-285.

RESENDE, Garcia de (1902) – Crónica de D. João II, contendo a interessantíssima Miscelânea. Lisboa, 1902.

terça-feira, 11 de março de 2008

TOPÓNIMOS DO TIPO PRONOME + PREPOSIÇÃO + NOME

A toponímia portuguesa, quando referida a nomes de pessoas, recorre por vezes a uma construção elíptica do tipo pronome + preposição (contraída ou não com artigo) + nome, com as principais ocorrências na Estremadura e Sul do País. O nome pode ser um antropónimo, uma metonímia ou um prosónimo, revestindo muitas vezes, neste último caso, uma descrição anedótica. Apresentamos alguns exemplos:

A-da-Beja, lugar da freguesia de S. Brás, concelho da Amadora;
A-da-Gorda, casas na freguesia de S. Miguel do Pinheiro, concelho de Mértola;
A-da-Gorda, lugar da freguesia de Santa Maria, concelho de Óbidos;
A-da-Perra, lugar da freguesia e concelho de Mafra;
A-da-Rainha, lugar da freguesia de Carvoeira, concelho de Torres Vedras;
A-da-Velha, lugar da freguesia de Fiães, concelho de Melgaço;
A-da-Velha, casas na freguesia de Castanheira, concelho de Trancoso;
A-da-Velha, ruínas na freguesia e concelho de Santiago do Cacém;
A-da-Velha, vértice geodésico na freguesia e concelho de Santiago do Cacém;
A-das-Lebres, lugar da freguesia e concelho de Loures;
A-das-Calças, casas na freguesia e concelho de Ourique;
A-das-Neves da Marinha, casas na freguesia e concelho de Castro Verde;
A-das-Neves da Marinha, vértice geodésico na freguesia e concelho de Castro Verde;
A-de-Bagão de Baixo, casas na freguesia e concelho de Vila do Bispo;
A-de-Bagão de Cima, casas na freguesia e concelho de Vila do Bispo;
A-de-Baguinha, lugar da freguesia de Sabugosa, concelho de Tondela;
A-de-Baracim, ilhéu na costa vicentina, concelho de Vila do Bispo;
A-de-Baraço, ilhéu na costa vicentina, concelho de Vila do Bispo;
A-de-Barros, lugar da freguesia de Rua, concelho de Moimenta da Beira;
A-de-Camondes, lugar da freguesia de Arranhó, concelho de Arruda dos Vinhos;
A-de-Flores, casas na freguesia de Benfeita, concelho de Arganil;
A-de-Formoso, lugar da freguesia de São João dos Montes, concelho de Vila Franca de Xira;
A-de-Frades
, região na freguesia de São Pedro de Solis, concelho de Mértola;
A-de-Freire, casas na freguesia de São João dos Montes, concelho de Vila Franca de Xira;
A-de-Galego, ruínas na freguesia de Benfeita, concelho de Arganil;
A-de-Galinhas, casas na freguesia e concelho de Sobral de Monte Agraço;
A-de-Marcos, casas na freguesia de Budens, concelho de Vila do Bispo;
A-de-Marinho, região na freguesia e concelho de Vila do Bispo;
A-de-Mateus, casas na freguesia de Longueira-Almograve, concelho de Odemira;
A-de-Mateus, região na freguesia de Longueira-Almograve, concelho de Odemira;
A-de-Moura, lugar da freguesia de Santana da Azinha, concelho da Guarda;
A-de-Ordem, casas na freguesia de Santa Cruz, concelho de Almodôvar;
A-de-Parceira, casas na freguesia de São João dos Montes, concelho de Vila Franca de Xira;
A-de-Pimenta , casas na freguesia de Cardosas, concelho de Arruda dos Vinhos;
A-de-Pires, região na freguesia da Senhora da Graça de Padrões, concelho de Almodôvar;
A-de-Rosa, casas na freguesia de São Pedro de Solis, concelho de Mértola;
A-de-Rosa, vértice geodésico na freguesia de São Pedro de Solis, concelho de Mértola;
A-do-Alho, vértice geodésico na freguesia de S. Sebastião, concelho de Lagos;
A-do Alho, lugar da freguesia de S. Sebastião, concelho de Lagos;
A-do-Baço, lugar da freguesia de Arranhó, concelho de Arruda dos Vinhos;
A-do-Barbas, lugar da freguesia de Maceira, concelho de Leiria;
A-do-Barrão, casas na freguesia e concelho de Vila Franca de Xira;
A-do-Barriga, lugar da freguesia e concelho de Arruda dos Vinhos;
A-do-Bispo, lugar da freguesia e concelho de Penedono;
A-do-Bispo, região na freguesia de Vilar, concelho de Moimenta da Beira;
A-do-Bispo, região na freguesia de Ferreirim, concelho de Sernancelhe;
A-do-Cavalo, lugar da freguesia de Moreira de Rei, concelho de Trancoso;
A-do-Coelho, casas na freguesia e concelho de Ourique;
A-do-Coelho Nova, casas na freguesia e concelho de Ourique;
A-do-Corvo, lugar da freguesia de Santa Bárbara de Padrões, concelho de Castro Verde;
A-do-Fernando, casas na freguesia de Valongo do Vouga, concelho de Águeda;
A-do-Fação, lugar da freguesia de Pêro Pinheiro, concelho de Sintra;
A-do-Freire, lugar da freguesia de Pedrógão, concelho de Torres Novas;
A-do-Freire, lugar da freguesia de Castro Laboreiro, concelho de Melgaço;
A-do-Galego, casas na freguesia de Póvoa de Cervães, concelho de Mangualde;
A-do-Longo, lugar da freguesia de São João das Lampas, concelho de Sintra;
A-do-Malhão, região na freguesia de Arcos, concelho de Tabuaço;
A-do-Marrel, região na freguesia da Aldeia das Dez, concelho de Oliveira do Hospital;
A-do-Mato, região na freguesia de Beselga, concelho de Penedono;
A-do-Meio Dia, casas na freguesia de Alpalhão, concelho de Nisa;
A-do-Monte, casas na freguesia da Matela, concelho de Penalva do Castelo;
A-do-Mourão, lugar da freguesia de Santiago dos Velhos, concelho de Arruda dos Vinhos;
A-do-Pipo, casas na freguesia de Terrugem, concelho de Sintra;
Adopisco, aglutinação de A-do-Pisco; lugar da freguesia de Sul, concelho de São Pedro do Sul;
Adopisco, aglutinação de A-do-Pisco; região na freguesia de Várzea de Tavares, concelho de Mangualde;
A-do-Pombo, região na freguesia de Várzea de Trevões, concelho de São João da Pesqueira;
A-do-Ramos, casas na freguesia de Mosteiros, concelho de Arronches;
A-do-Rio, casas na freguesia de Riba de Mouro, concelho de Monção;
A-do-Ruas, casas na freguesia de Santa Cruz, concelho de Almodôvar;
A-do-Sapo, casas na freguesia de São Pedro, concelho de Celorico da Beira;
A-do-Seixo, casas na freguesia de Pousada, concelho da Guarda;
A-do-Testa, casas na freguesia de Rosário, concelho de Almodôvar;
A-dos-Arcos, lugar da freguesia de Arranhó, concelho de Arruda dos Vinhos;
A-dos-Bispos, lugar da freguesia e concelho de Vila Franca de Xira;
A-dos-Cães, lugar da freguesia e concelho de Loures;
A-dos-Calvos, lugar da freguesia e concelho de Loures;
A-dos-Chancos, casas na freguesia de Santo Quintino, concelho de Sobral de Monte Agraço;
A-dos-Corvos, casas na freguesia de Santa Margarida da Serra, concelho de Grândola;
A-dos-Crivos, lugar da freguesia de Santa Maria e São Miguel, concelho de Sintra;

A-dos-Cunhados, freguesia do concelho de Torres Vedras. A origem da povoação deverá ter sido uma propriedade herdada por filho e genro.

A-dos-Currais, casas na freguesia e concelho de Ourique;
A-dos-Eiros, lugar da freguesia de Santiago dos Velhos, concelho de Arruda dos Vinhos;
A-dos-Ferreiros, casas na freguesia de Prados, concelho de Celorico da Beira;
A-dos-Ferreiros, lugar da freguesia de Cótimos, concelho de Trancoso;
A-dos-Ferreiros de Baixo, lugar da freguesia de Valongo do Vouga, concelho de Águeda;
A-dos-Ferreiros de Cima, lugar da freguesia de Préstimo, concelho de Águeda;
A-dos-Francos, lugar da freguesia de Rio de Mouro, concelho de Sintra.

A-dos-Francos, freguesia do concelho de Caldas da Rainha. A origem do topónimo deve recuar a um povoamento de colonos Francos, no início da nacionalidade ou, ainda antes, aquando da entrega das terras galegas e portucalenses aos nobres francos D. Raimundo e D. Henrique. O apelido "Franco" aparecerá por essa altura, na sequência da chegada de milícias francas ao reino de Leão e Castela, como podemos comprovar num documento de 1099, inserido no Livro Preto da Sé de Coimbra, onde nos aparece um "Johannes Francus" (LP-1, p. 72).

A-dos-Loucos, lugar da freguesia de São João dos Montes, concelho de Vila Franca de Xira;
A-dos-Matos, casas na freguesia de Santa Margarida da Serra, concelho de Grândola;
A-dos-Melros, lugar da freguesia de Calhandriz, concelho de Vila Franca de Xira;
A-dos-Milheiros, casas na freguesia e concelho de Sobral de Monre Agraço;
A-dos-Moinhos, região na freguesia de Vila Doeiro do Chão, concelho de Fornos de Algodres.

A-dos-Negros, freguesia do concelho de Óbidos. A origem do topónimo tanto pode ser um povoamento de magrebinos, como corresponder a uma propriedade de uma família de alcunha "Negro". Neste último caso poderemos estar perante uma ligação à família dos "Negros", do rabi-mor afonso-henriquino Yahia ben Yaisch.

A-dos-Neves, casas na freguesia de Rosário, concelho de Almodôvar;
A-dos-Potes, lugar da freguesia de Alverca do Ribatejo, concelho de Vila Franca de Xira;
A-dos-Pretos, lugar da freguesia de Maceira, concelho de Leiria;
A-dos-Ralhados, casas na freguesia de Algueirão-Mem Martins, concelho de Sintra;
A-dos-Ruivos, lugar da freguesia do Carvalhal, concelho de Bombarral;
A-dos-Ruivos, vértice geodésico na freguesia do Carvalhal, concelho de Bombarral;
Alto do A-do-Bácoro, monte na freguesia de Macieira, concelho de Sernancelhe;
As-do-Carvalhal, região na freguesia de Lapa dos Dinheiros, concelho de Seia;
As-do-Marco, região na freguesia da Granja, concelho de Penedono;
As-do-Neto, casas na freguesia de Vila Franca do Deão, concelho da Guarda;
Barranco do A-de-Marinho, ribeira na freguesia e concelho de Vila do Bispo;
Barranco do A-de-Pinho, ribeira na freguesia do Salvador, concelho de Serpa;
Cabeço da A-da-Cal, monte na freguesia de Lorvão, concelho de Penacova;
Casa Nova de A-da-Velha, casas na freguesia e concelho de Santiago do Cacém;
Lage do A-do-Sol, ponta na freguesia de Sagres, concelho de Vila do Bispo;
Monte da A-dos-Grandes, lugar da freguesia de Santa Cruz, concelho de Almodôvar;
Monte Novo A-do-Coelho, casas na freguesia e concelho de Ourique;
Ponta do A-do-Sol, ponta na freguesia de Sagres, concelho de Vila do Bispo;
Ponte de A-de-Matos, ponte na freguesia de São João das Lampas, concelho de Sintra;
Ribeira de A-dos-Potes
, ribeira na freguesia de Alverca do Ribatejo, concelho de Vila Franca de Xira.

REGRESSO

Depois de uma longa pausa, imposta por mudança de residência e demora na ligação ao ciberespaço, volto ao convívio dos meus leitores, ainda que em ritmo lento, imposto por afazeres e compromissos assumidos. As minhas mais cordiais saudações.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

CHOROSA e outros fitotopónimos terminados em -OSA

Penso que Gundibaldo terá razão, quando integra o topónimo Chorosa (lugar da freguesia de Febres, concelho de Cantanhede) na série da postagem anterior. Estaremos, tudo o indica, perante um fitotopónimo que qualifica uma região em que, na altura própria, seria notória a abundância de flores.

O mesmo não acontecerá com um outro Chorosa, que identifica umas casas na freguesia da Conceição, no concelho de Tavira. Se não for alcunha de proprietária ou moradora (neste caso com conotações a choro e não a flores), poderá corresponder a um assentamento de pessoas oriundas do lugar homónimo do concelho de Cantanhede. A conclusão assenta no facto do romance moçárabe ignorar a palatalização dos grupos iniciais CL-, PL- e FL-, enquanto a evolução flore- > chor já tinha regredido aquando da conquista do Algarve no século XIII, em parte por acção erudita, em parte para evitar confusão com “choro” e seus derivados.

Aproveitamos para fornecer alguns fitotopónimos com origem na substantivação de adjectivos formados através do sufixo latino -osus, a, um, adjectivos que, originalmente, qualificavam a terra ou terreno, com a noção abundancial. É uma pequena amostra, que pode ser completada com a consulta das Cartas Militares de 1:25000. Pela novidade, chamo a atenção para a entrada “Candosa”.

Abrunhosa
abrunho + -osa; de a- + latim prunum,iameixa” através de *pruneu-

Afeitosa
a- + feto ou feito + -osa; do latim filictu- “lugar onde há fetos

Ameixiosa
ameixia” forma antiga de ameixa + -osa; do lat. *(d)amascina-, por (d)amascéna-, “ameixa de Damasco”

Amieirosa
amieiro
+ -osa; latim vulgar *amoenarìum, de amoena (arbor)árvore amena

Brunhoso
brunho
+ -oso; do latim prunum,iameixa” através de *pruneu-; ver também Abrunhosa

Cadavosa
de
cádava + -osa; “cádava: conjunto de troncos de árvores e de pés de mato, que permanece de pé após as queimadas” e que serve para lenha. Origem desconhecida.

Candosa
de candano + -osa (candanosa > candaosa > candosa, com todas as formas documentadas); *candano (> candão > “cando”), terá sido um apelativo que entretanto se perdeu, mas que continua vivo num vasto conjunto de topónimos portugueses e galegos, entre os quais podemos destacar Canda, Candaídos, Candaira, Candais, Candal, Candam, Candanedos, Candanes, Candão, Candaria, Candedo, Candedos, Candeeira, Candeeiras, Candeeiro, Candeeiros, Candela, Candelhe, Candelo, Candieira, Candieiras, Candieirinha, Candieiro, Candieiros, Cando, Candos, Candosa, Candoso, etc. Para Almeida Fernandes (1999: 135-137) o vocábulo *candano seria «de raíz pré-romana cand-, relativo aos terrenos rochosos» (idem, p. 136).

Pela nossa parte, considerando a importância do xilocombustível na vida material das sociedades pré-industriais, inclinamo-nos para uma raíz indo-europeia, que integraria estes nomes na fitotoponímia. Com efeito, em asturiano encontramos a voz cándana, “cana grande e seca, especialmente quando fica branca por se ter queimado”; encontramos também a fala cándanu, com o significado de «ramo seco de qualquer árvore, que caia ao chão; ramo seco esbranquiçado; cana seca; árvore seca”. Para legitimar a opção indo-europeia e a respectiva semântica, relacionada com a madeira como combustível, podemos recorrer à raíz sânscrita cand "brilhar" (Huet, 2007: 143), da qual deriva o verbo latino candere “queimar, estar em brasa, aquecer até se tornar branco, brilhar de brancura”, enquanto lembramos a existência dos vocábulos sânscritos candana “árvore ou madeira de sândalo” (ibidem) e skandha “tronco de árvore” (idem, p. 436).

Carvalhosa
de
carvalho + -osa; região coberta de carvalhos. Discute-se a origem desta fala, por certo pré-romana. Em 958 já aparece documentada sob a grafia carbalio.

Edrosa, Edroso
do latim *hederosa, *hederosu, de hedera > héera > hera; ver também Odrosa

Encinosa
de enzinha + -osa; região coberta de azinheiras. Do latim vulgar ilicína feminino derivado do latim clássico ílex, ìcis “azinheira” (árvore).

Ervedosa
de êrvedo + -osa; região coberta de medronheiros. Do latim *erbìtu-, por arbùtu-, “medronheiro”.

Espargosa
de espargo + -osa; região coberta de espargos. Do latim asparagu-, e este do grego άσπάραγος “espargo”.

Falgarosa, Falgaroso
de felga/*falga + -eira + -osa; região coberta de fetos. Do latim *filica (de filix) > felga (=feto)

Falgueirosa, Ribeira de
de felga/*falga + -eira + -osa; em região coberta de fetos. Do latim *filica (de filix) > felga (=feto)

Feitosa
de feto ou feito + -osa; do latim filictu- “lugar onde há fetos”; ver também Afeitosa

Folgosa
de felga + -osa; região coberta de fetos. Do latim *filica- (de filix) > felga (=feto). *Felgosa > Folgosa por assimilação.

Freixosa
de freixo + -osa; região coberta de freixos. Do latim fraxinu- “freixo”

Funchosa
de funcho + -osa; região coberta de funchos. Do latim fenuculu-, por feniculu- “funcho”

Gestosa
de giesta + -osa > gestosa, por crase a desfazer o hiato (prevaleceu o -e-); região coberta de giestas. Do latim genesta- ou genista- “giesta, giesteira”

Gistosa
de giesta + -osa > gestosa, por crase a desfazer o hiato (prevaleceu o -i-); região coberta de giestas. Do latim genesta- ou genista- “giesta, giesteira”

Juncosa
de junco + -osa; região onde abunda o junco. Do latim juncu- “junco”

Lourosa
de louro + -osa; região onde abundam os loureiros. Do latim lauru- (> louro) “loureiro”

Matosa
de mata + -osa; região coberta de plantas silvestres de porte diverso. Do latim tardio matta- “esteira de junco; porção de plantas que cobre certa porção de terreno”; o vocábulo “mata” já ocorre no século VI, na Península Ibérica.

Matagosa
de mata + -g- + -osa; região coberta de plantas silvestres de porte diverso. Do latim tardio matta- “esteira de junco; porção de plantas que cobre certa porção de terreno”

Murtosa
de murta + -osa; região onde abunda a murta, “designação comum a várias plantas de diferentes géneros e famílias, especialmente do género Myrtus, Myrcia e Eugenia, da família das mirtáceas. Do latim murta-, por myrta-, do grego μύρτος

Odrosa
por Edrosa, do latim *hederosa, de hedera > héera > português “hera”. Ver Edrosa

Ortigosa
de ortiga (=urtiga) + -osa; região abundante em urtigas. Do latim urtica- “urtiga”

Pampilhosa
de pampilho + -osa; região abundante em pampilhos, “nome vulgar extensivo a várias plantas (em especial à também chamada malmequer), da família das Compostas, algumas das quais muito frequentes em Portugal”. Do latim *pampiniculus- ? (< pampinu- “parra, folhagem da videira” + -iculus, sufixo nominal diminutivo)

Sabugosa
de sabugo (=sabugueiro) + -osa; região em que abundam os sabugueiros. Do latim sabucu- “sabugueiro”

Teixosa
de teixo + -osa; região abundante em teixos, “designação comum às árvores e arbustos, perenes e dióicos, do género Taxus, da família das taxáceas. Do latim taxu- “teixo”

Zambujosa
de zambujo (=zambujeiro) + -osa; região coberta por mata de zambujeiros. Do hispano-árabe az-zabbúdj “oliveira brava”

Bibliografia
FERNANDES, A. de Almeida (1999) – Toponímia Portuguesa: Exame a um dicionário. Arouca: Associação para a Defesa da Cultura Arouquense. 251 p. ISBN 972-9474-09-5.
GALMÉS DE FUENTES, Álvaro (1983) –
Dialectología mozárabe. Madrid: Editorial Gredos. 380 p. ISBN 84-249-0916-X.
HUET, Gérard (2007) –
Héritage du Sanskrit: Dictionnaire sanskrit-français. Versão 223. Em linha no endereço http://sanskrit.inria.fr/Dico.pdf. (26 de Novembro de 2007).

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

CHORENSE, CHORENTE, CHORIDA, CHORIDO, CHORIO, CHORIOS, CHURIA

Em Portugal:
CHORENSE
(freguesia do concelho de Terras de Bouro); CHORENTE (freguesia do concelho de Barcelos; região na freguesia de Rabal, concelho de Bragança); CHORIDA (vértice geodésico, a 1087 metros de altitude, na freguesia de Candemil, concelho de Amarante); CHORIDO (casas na freguesia de Nespereira, concelho de Gouveia; região na freguesia de S. Vicente, concelho de Abrantes); CHORIO (casas na freguesia de Rossas, concelho de Arouca); CHORIOS (região na freguesia de Roge, concelho de Vale de Cambra); CHURIA (casas na freguesia de Caparrosa, concelho de Tondela); PONTE DO CHORIDO (ponte na freguesia de S. Pedro, concelho de Gouveia).

Na Galiza:
CHORIDE (lugar na freguesia de Figueredo, concelho de Cesuras); CHORENTE (vários lugares e uma freguesia); CHURIZ (lugar da freguesia de Caraño, concelho de Pol); A CHURÍA (lugar da freguesia de Muíño, concelho de Zas); CHURÍO (freguesia do concelho de Irixoa)


Ao contrário do que faço habitualmente, procurei o topónimo CHORIOS na Carta Militar 1/25000 inscrevendo todas as suas letras na janela de «Pesquisa livre». Daqui resultou uma única ocorrência, que tratei na postagem anterior.
A achega de Calidónia levou-me a nova pesquisa, agora a partir de «chori» e churi», o que revelou outras ocorrências, do que poderão ser topónimos com o mesmo étimo, derivados do substantivo latino flore- “flor” > «chor», agora com algumas incursões na antroponímia, confirmando a interpretação aventada na última postagem. Vejamos!

CHORENSE, que deveria grafar-se «Chorence», corresponde a um antropotopónimo, formado a partir do nome do possessor de uma antiga «vila», no caso uma villa Florentii (genitivo de Florentius). O patronímico deste nome aparece-nos num documento de 1018, grafado Florenci (Livro Preto da Sé de Coimbra, vol. 1, p. 256).

CHORENTE, com ocorrências em Portugal e na Galiza, corresponde, como o anterior, a um antropotopónimo, formado a partir do nome do possessor de uma propriedade, fosse ela um fundus, um vicus ou uma villa. Nalguns dos múltiplos casos identificaria uma villa Florenti (genitivo de Florentus).

CHORIDE, na Galiza, é um outro antropotopónimo que, por certo, identificaria uma villa Floridi ou Floridii (genitivos respectivamente de Floridus e de Floridius). No Livro Preto da Sé de Coimbra, em vários documentos dos séculos XI-XII, encontramos este antropónimo, sob as grafias Floridi, Florido, Florit, Florite, Floriti, Florito. Na Galiza está atestada a forma Floridius. Não esqueçamos que estas grafias estão alatinadas, já que estamos perante documentos escritos em latim medieval. No linguajar dos íncolas o grupo consonântico fl- já teria dado lugar a ch-. A regressão posterior deve-se a formação erudita, na maioria dos casos de responsabilidade eclesiástica.

CHURIZ, na Galiza, corresponderá certamente a um outro antropotopónimo, que identificaria uma villa *Flori(d)ici ou *Florici (genitivos respectivamente de *Floridicus e de *Floricus, hipocorísticos de Floridius e de Florus).

Os topónimos CHORIO e CHORIOS estão explicados na postagen anterior, com CHORIDA e CHORIDO a atestar a forma intermédia, antes da queda do -d- intervocálico. Almeida Fernandes também faz derivar estes topónimos do latim flore-, quando estuda a ocorrência «Chorio» no concelho de Arouca. As grafias CHURIO, CHURIA e CHURIZ mais não fazem que acompanhar a evolução da pronúncia popular, em que o o do latim vulgar passa a u antes do i da sílaba seguinte (Huber, 1986: 64). Atente-se como o povo pronuncia “flurido” em vez de “florido”.

Em nossa opinião não há nada que possa legitimar a origem destes topónimos na “família chorro/jorro”, não só pela difícil evolução -rr- > -r-, mas também porque aquelas onomatopeias do castelhano só entraram no português na segunda metade do século XVI.

Bibliografia:
COSTA, Avelino de Jesus da; VENTURA, Leontina; VELOSO, M. Teresa (eds.) (1977-1979) – Livro Preto da Sé de Coimbra. Coimbra: Arquivo da Universidade de Coimbra. 3 vol. Citados por LP-1, LP-2 e LP-3.
EGU – Enciclopedia Galega Universal. Ed. de Bieito Ledo Cabido. Vigo: Ir Indo Edicións, 1999-2006. 16 vol. ISBN 84-7680-288-9.
FERNANDES, A. de Almeida (1999) –
Toponímia Portuguesa: Exame a um dicionário. Arouca: Associação para a Defesa da Cultura Arouquense. 251 p. ISBN 972-9474-09-5.
FERNANDES, A. de Almeida; SILVA, Filomeno (1995) –
Toponímia Arouquense. Arouca: Associação para a Defesa da Cultura Arouquense. 576 p. ISBN 972-9474-13-3. Vide p. 72-73, s.v. “Chorio”.
HUBER, Joseph (1986) –
Gramática do Português Antigo. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. XV, 417 p.
LIVRO PRETO da Sé de Coimbra. (1977-1979) Ed. de COSTA, Avelino de Jesus da; VENTURA, Leontina; VELOSO, M. Teresa. Coimbra: Arquivo da Universidade de Coimbra. 3 vol. Citados como LP-1, LP-2 e LP-3.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

CHORIOS

CHORIOS (freguesia de Roge, concelho de Vale de Cambra)
O topónimo há-de ser antiquíssimo, com formação nos primórdios do galaico-português, aquando da palatalização, genuinamente popular, dos grupos consonânticos cl- > ch- (ex: clamare > chamar), fl- > ch- (ex: flamma > chama) e pl- > ch- (ex: plaga > chaga).
O que ele esconde é que será mais difícil de descobrir. Falta-nos o testemunho do documento medieval que poderia abrir alguma pista. Fiquemos pela aparências da forma actual.
Poderemos estar perante a substantivação de um adjectivo que qualificasse o terreno ou campo. Se fosse Cheiras, Chieiras, Chairos, Chaira, Chairas, etc., teria origem no adjectivo latino planarius, -a, -um "aplanado", com total correspondência na orografia local.
Mas, para CHORIOS, só vislumbro uma explicação, um antigo adjectivo derivado de chor (antigo português, forma popular de "flor", do latim flore-, ainda viva na Galiza). Refiro-me a *choridos (= floridos), que daria "chorios" depois da queda do -d- intervocálico.
Também poderemos estar perante um substantivo, se considerarmos a voz galega chorida para a flor do tojo ou da giesta. Neste caso a fala "Chorios" corresponderia a um campo de tojos e giestas.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

CHECOSLOVÁQUIA: 20 de Agosto de 1968

K. au poteau!

Choro por ti, Checoslováquia,
caminhos de assombros,
encruzilhada de medos
terra calcada por todos os ditadores do Erro,
chave da Europa à mercê dos ladrões!
Que culpa terás de ser mais evoluída?!

de teres a capitação de 1200 dólares,
e, a URSS, a de 980 apenas?...
Choro por ti, Checoslováquia,
irmã gémea e lutuosa do Vietname, —
os dois pinhais da Azambuja!
Meu amigo Zdenek,
que traduziste o Camões e o Eça,
e vieste ao meu encontro numa rua de Aveiro,
só porque tinhas, lá longe,
um mau retrato meu! —
Que posso fazer pelos teus?!
Choro por ti, Checoslováquia,

vítima da cupidez nazista
e dos seus post-justiceiros, — os filisteus estalineptos!
Se tiver de morrer «errado»,
morrerei como tu, Checoslováquia,
socialista socialienado!...
Foram cem os erros (já) do socialismo!?
Fossem cem mil — e socialistas seríamos!
Choro por ti, Checoslováquia:
manda que o faça o futuro!,
exige que o reprima o presente,

ironia trágica e pútrida!
Escarro vivo

de cintilantes sóis,
noite gelada
de rumorosa manhã…

Fátuo ser
!
Poteau...
K!

Mário Sacramento, 1968


1968: «PRIMAVERA DE PRAGA» Quando a Checoslováquia pretendeu enveredar por um socialismo de rosto humano, atento às liberdades individuais, a URSS e os tanques do Pacto de Varsóvia responderam com a invasão de 20 de Agosto de 1968. Mário Sacramento deixou a sua amargura nas páginas do seu Diário, que viria a ser publicado em 1975, exprobrado desses escritos. As páginas «censuradas», em que se inclui o poema K. au poteau! foram publicados em 1990 no semanário O Jornal, por vontade expressa da viúva de Mário Sacramento [Sacramento, Mário – K. au poteau! O Jornal (5 Jan.1990) p. 31].


Interpretação do título do poema:

Коммунизм [Kommuniem «comunismo»]

Au poteau! À morte! (grito de ameaça)

Poteau du condamné; poteau d'exécution: poste a que se amarra alguém que vai ser fuzilado.

No poema corresponde ao sentido figurado da expressão mettre [ou exposer] quelqu'un au poteau, isto é, expor alguém ao desprezo público, à indignação pública.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

ANDOEIROS: o barro das marinhas de Aveiro

ANDOEIRO (microtopónimo da freguesia de S. Bernardo, concelho de Aveiro), ANDOEIROS (microtopónimos nas freguesias de Esgueira e Vera Cruz do concelho de Aveiro), AGRA DOS ANDOEIROS (na freguesia de Esgueira, concelho de Aveiro), ENCOSTA DOS ANDOEIROS (na freguesia de Esgueira, concelho de Aveiro) RUA DOS ANDOEIROS (no lugar das Agras, freguesia da Vera Cruz, concelho de Aveiro).

«Andoeiro», de «ândoa» + -eiro, é o sítio onde existe a «ândoa», apelativo aveirense para uma espécie de barro azulado que se extraía junto à Ria e servia para aplicar no fundo dos cristalizadores das marinhas. Os dicionários registam a forma «andoa» que não aparece em Aveiro, sendo certo que esta fala é uma loquela da salicultura aveirense, não aflorando em nenhuma outra região do País, nem nas restantes línguas românicas.
A voz «andoa», que os nossos dicionaristas consideram de «origem obscura», poderá ser uma forma regressiva do verbo «andoar», e não a origem deste verbo, geralmente explicado como uma formação de «andoa + -ar».
A nossa conjectura assenta no facto de fazer pouco sentido a permanência de uma voz para «barro», circunscrita à zona das marinhas de Aveiro, sem que lhe encontremos uma possível etimologia, mesmo a nível de substratos.
Em nossa opinião estamos perante uma metonímia, em que um verbo, designando uma determinada operação da safra salineira, passaria a designar o material utilizado, através de um novo substantivo, obtido desse mesmo verbo por derivação regressiva.
O dicionarizado «andoa», sendo paroxítono, exigiria a forma *andona, o que a fala proparoxítona aveirense dispensa, pelo que o nosso ponto de partida, para tentar encontrar uma possível origem para esta fala, será a voz «ândoa», como se pronuncia localmente (Dias, 1996: 24).
E, para chegarmos ao nosso objectivo, nada melhor que dar a palavra a um profundo conhecedor das saliculturas nacional, internacional e aveirense em particular, para que a voz do especialista** nos explique o que seria esse «andoar»:

A operação denominada andoar, consiste em estender uma camada fina de andoa por sobre o fundo dos cristalisadores, um pouco gretado pela retracção do terreno, apezar das repetidas circiadellas que se lhe deram. Para se andoar uma salina pulverisa-se primeiro o barro sobre o pavimento duro das eiras, e leva-se em seguida para a parte superior dos meios de baixo, onde os marnotos fazem com elle caldeirinhas, casulas, que enchem com a água dos meios de cima. N’esta água dilue-se a própria andoa até ficar em massa muito rara. Chegada a este ponto dá-se com ella uma barrela aos cristalizadores; quer dizer, estende-se pela sua superfície em camada muito fina. Tal é a primeira operação que se pratica no dia em que se deita a marinha (Alcoforado, 1877: 64; mantivemos a grafia do original).
Enriquecidos pelas explicações de Maia Alcoforado, estamos agora melhor preparados, para procurar uma resposta credível, que ilumine a obscuridade dos nossos dicionários.
O latim popular carregou-se de neologismos que, em muitos casos «são formações derivadas com auxílio de prefixos e sufixos», neste último caso com recurso privilegiado aos sufixos diminutivos. Isto mesmo acontece em relação aos verbos, frequentemente alargados por meio dos sufixos -ulare, -icare, -itare e -escere. Foram fenómenos deste tipo os responsáveis, por exemplo, da substituição do latim clássico miscere «misturar» pelo latim popular misculare (Vasconcelos, 1977: 245), precisamente o tipo de formação que irá explicar o verbo «andoar» da loquela marnoteira, cuja grafia correcta, como veremos, deveria ser «anduar».
Quanto a nós, «andoar» provirá do latim *pandulare (<pandere «estender»), depois da aférese do p- inicial, que podia resultar do cruzamento de *panduar com «andar», e da queda do -l- intervocálico. Teríamos, assim, *(p)andu(l)ar(e) > «anduar», com a grafia correcta, donde, por derivação regressiva, teria saído a fala «ândua» e não «ândoa», referida ao material usado pelos marnotos na operação de «anduar» [estender a andar, andar a estender], acima descrita por Alcoforado. A aférese do p- também podia atribuir-se ao substrato celta, mas não podemos esquecer que o lusitano é uma das poucas línguas célticas, ou pré-célticas, a preservar o p- inicial (Schmitd, 1985: 338).
Na Figueira da Foz esta operação é designada pelo verbo «barrar», de «barro» + -ar (Nogueira, 1935: 83).

ALCOFORADO, M[anuel] da Maia (1877-1878) – A indústria do sal. Museu Technologico. Lisboa: Lallement Frères Typ. N.º 2 (Jul.1877) a N.º 7 (Jan.1878), p. 29-124.
DIAS, Diamantino (1996) – Glossário: Designações relacionadas com as marinhas de sal da Ria de Aveiro. Aveiro: Câmara Municipal. 97 p. ISBN 972-9137-24-2.
GEPB: ver Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
GRANDE ENCICLOPÉDIA Portuguesa e Brasileira. Lisboa-Rio de Janeiro: Editorial Enciclopédia, [1935-1960]. 40 vol.
NOGUEIRA, R. de Sá (1935) – Subsídios para o estudo da linguagem das salinas. Lisboa: [s.n.]. p. 75-144, [2], [8 ilust.]. Separata de «A Língua Portuguesa», vol. 4.
SCHMIDT, Karl Horst (1985) – A contribution to the identification of Lusitanian. In HOZ, Javier de, edit. – Actas del III Coloquio sobre lenguas y culturas paleohispanicas (Lisboa, 5-8 Noviembre 1980). Salamanca: Ediciones Universidad. p. 319-341.
VASCONCELOS, Carolina Michaëlis de (1977) – Lições de Filologia Portuguesa: segundo as prelecções feitas aos cursos de 1911/1912 e de 1912/1913, seguidas das lições práticas de português arcaico. Lisboa: Dinalivro, [1977]. 441 p.


** Manuel da Maia Alcoforado, o autor a que nos referimos, foi um brilhante aluno da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, que não ascendeu à cátedra por entretanto ter sido vítima de doença grave. Foi o fundador e autor da revista Museu Technologico, tendo falecido antes de poder terminar o programa que impusera a si próprio. A maior parte dos números publicados tratam da salicultura nacional e estrangeira, com especial aprofundamento da de Aveiro, onde tinha salinas, e da de outras regiões do País que expressamente visitou, mostrando o significado que para ele tinha a ciência (vd. GEPB, 15: 954-955, s.v. «MAIA ALCOFORADO, Manuel da»).

sexta-feira, 6 de julho de 2007

DOSSÃOS, LAÇÕES, DEZA, DOZÓN, PORTO DO SON [Porto Dozón]

DOSSÃOS (freguesia do concelho de Vila Verde, distrito de Braga); LAÇÕES (lugar da freguesia e concelho de Oliveira de Azeméis, distrito de Aveiro).
DEZA (comarca e rio da Galiza); DOZÓN (lugar da freguesia de Dozón, concelho de Dozón, província de Pontevedra; freguesia do concelho de Dozón; concelho da província de Pontevedra); PORTO DE SON (lugar da freguesia de Noal, concelho de Porto de Son, província da Corunha; concelho da província da Corunha).

Pede-me um leitor que interprete a origem do topónimo “Lações”, actualmente inserido na área urbana da cidade de Oliveira de Azeméis, no distrito de Aveiro. A pesquisa efectuada, e a sua ligação a “Dossãos”, permitem-me dar mais uma achega à postagem publicada por Calidónia no seu blogue, no passado dia 2 de Maio.

No Minho, identificando uma freguesia do concelho de Vila Verde, no distrito de Braga, temos o topónimo Dossãos que deveria ser Doçãos, se considerarmos as ocorrências registadas documentalmente: Dezaos em 1220 e 1258; Duçães em 1290; de Çãaes [por Doçãaes] em 1320; Daçaaes em 1371; Doçãaos em 1400 e 1424; Doçãos em 1528 (Costa, 1959: vol. 2, p. 180).
Na freguesia e concelho de Oliveira de Azeméis, no distrito de Aveiro, temos também um "Lações" que é uma evolução popular de Doçãos, correspondendo ao topónimo Dezanos que aparece citado num documento de 922 (LP-1, p. 120; DC25), entre Vila Chã e as vilas de Santiago de Riba-Ul e Oliveira. A sequência textual facilita a identificação dos topónimos, que se integravam no território de Abranca (actual Cristelo, na freguesia da Branca?):

«De Abranca alias ecclesias prenominatas Sancto Petro de Villa Plana cum suos dextros integros et suas adiectiones. Et villa de Dezanos per suos terminos antiquos et sua ecclesia vocabulo Sancti Michaelis et suos dextros integros. Et in Ripa de Ul ecclesia Sancti Iacobi et suos dextros integros et villa Olivaria ecclesia vocabulo Sancti Michaelis cum suos dextros integros et suas adiectiones.»

Tradução: «[Do território] de Branca [Cristelo, freguesia da Branca] outras igrejas chamadas São Pedro de Vila Chã [Vila Chã de S. Roque, freguesia que ainda hoje tem S. Pedro por orago], com os seus destros [ou passais, correspondendo a parcelas de terreno cultivadas pertencentes à paróquia] íntegros [livres de quaisquer encargos] e as suas pertenças. E a vila de Dezanos [actual “Lações”], pelos seus termos antigos e a sua igreja chamada S. Miguel, e seus destros íntegros. E em Riba de Ul a igreja de S. Tiago [actual Santiago de Riba-Ul] e seus destros íntegros e na vila [de] Oliveira [de Azeméis] a igreja chamada de S. Miguel [continua a ser o orago desta freguesia] com os seus destros íntegros e as suas pertenças.»

Com alguma lógica, A. de Almeida Fernandes (1999: 245, s.v. “Doções”) considera que estes topónimos têm por base dezanos, o gentílico do território medieval galego de Deza, actual comarca do mesmo nome, apontada como origem dos migrantes fundadores das duas povoações portuguesas, uma no território portucalense (“Dossãos”) e a outra na terra de Santa Maria (Dezanos, actual “Lações”).
Curiosamente, a evolução d- > l-, detectada na passagem de Dezanos a “Lações, é um fenómeno que encontramos episodicamente na evolução do latim arcaico para o latim clássico, como nos casos de dacruma > lacrima “lágrima”, dautia > lautia “presentes oferecidos aos embaixadores”, dingua > lingua “língua”. Também se verificam alguns casos em que -d- e -l- alternam em formas com uma origem comum, como no latim odor “odor” e olor “olor” (de oleo), udus “húmido” e uligo “humidade”, sedeo “eu estou sentado” e solium “assento, trono” (por alternância vocálica) (Niedermann, 1945: 119-120).
A ligação da terra portucalense ao território de Deza comprova-se por documentos do século X como, por exemplo, os números 66 e 76, respectivamente dos anos 952 e 959, dos
Portugaliae Monumenta Historica: Diplomata et Chartae, envolvendo uma permuta de propriedades entre Bermudo Afonso e sua tia Mumadona Dias, a fundadora do mosteiro de Guimarães. Esta senhora tinha propriedades «que sunt territorio galatie in Valle Deza» (doc. 66, ano 952), bens identificados (doc. 76, ano 959) como «villa de Portus in Dezza» (Herculano, 1867: 38 e 46), possivelmente o actual Porto de Carrio, na freguesia de Losón, concelho de Lalín, comarca de Deza.

Quanto ao topónimo Deza, corónimo de um território medieval, actual comarca galega, mas também um hidrotopónimo que identifica um rio da mesma região, já o encontramos em documentos suevos do século VI, como sejam as actas do concílio de Lugo de 569, em que aparece o Comitatus Deza, e do concílio de Braga de 572, com uma descrição pormenorizada dos termos do Comitatus Decensis (Risco, 1796: 343 e 347), uma clara manifestação da organização administrativa dos germanos. É por isso de rejeitar a opinião expressa na EGU (vol. 7, p. 264) de que a comarca e o próprio rio teriam recebido o nome dos senhores de Deza; o contrário é que é historicamente válido.
A interpretação que encontramos para a voz
Deza faz recuar o topónimo aos primeiros indo-europeus que teriam chegado ao local, aí estabelecendo o seu território. A ligação indo-europeia não a encontrámos em nenhuma das actuais falas célticas, mas sim na vetusta língua sânscrita em que a voz deśá significava «localidade, terra de naturalidade, lugar; região, província, país, nação».

Resta-nos o problema dos topónimos galegos Dozón e Porto do Son (uma infeliz tradução de Dozón) [Porto de Doçon > Porto de Oçon (queda do -d- intervocálico) > Porto d'Oçon (resolução da crase) > Porto Doçon] . No sânscrito encontramos as falas dāśa ou dāsa, com o significado de “pescador, barqueiro”, que poderiam responder ao topónimo costeiro, mas que não se ajustam às condições geográficas de Dozón. A única probabilidade que nos parece razoável, tendo em conta os elementos recolhidos, centra-se no possível nome do possuidor, que poderia ser um Donazano, antropónimo que encontrámos num documento datado de 1001 (LP-3: 179) e que, em galaico-português, evoluiria perdendo os dois -n- intervocálicos.

COSTA, Avelino Jesus da (1959) ─ O Bispo D. Pedro e a Organixação da Diocese de Braga. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade. 2 vol.
COSTA, Avelino de Jesus da; VENTURA, Leontina; VELOSO, M. Teresa (eds.) (1977-1979) ─
Livro Preto da Sé de Coimbra. Coimbra: Arquivo da Universidade de Coimbra. 3 vol. Citados por LP-1, LP-2 e LP-3.
EGU – Enciclopedia Galega Universal. Ed. de Bieito Ledo Cabido. Vigo: Ir Indo Edicións, 1999-2006. 16 vol. ISBN 84-7680-288-9.
FERNANDES, A. de Almeida (1999) — Toponímia Portuguesa: Exame a um dicionário. Arouca: Associação para a Defesa da Cultura Arouquense. 576 p. ISBN 972-9474-13-3.
HERCULANO, Alexandre (ed.) ─
Portugaliae Monumenta Historica: a saeculo octavo post christum usque ad quintumdecimum. Diplomata et Chartae. Lisboa: Academia Scientiarum, 1867-1873. 564 p. Citado por DC + número do documento.

LIVRO PRETO da Sé de Coimbra
. (1977-1979) Ed. de COSTA, Avelino de Jesus da; VENTURA, Leontina; VELOSO, M. Teresa. Coimbra: Arquivo da Universidade de Coimbra. 3 vol. Citados como LP-1, LP-2 e LP-3.
NIEDERMANN, Max (1945) ─
Précis de phonétique historique du latin. Nouveau tirage. Paris: Librairie C. Klincksieck. 279 p.
RISCO, Manuel (1796) ─
España Sagrada: Tomo XL. Antiguedades de la ciudad y S.ta Iglesia de Lugo [...]. Madrid: en la oficina de la viuda é hijo de Marin, 1796. [12], 432 p.